“As artes em geral mas também as ciências são parte da “cultura humana” (a expressão, título de um livro do filósofo espanhol Jesús Mosterín, parece pleonástica, mas reflecte o moderno conhecimento científico de que outros seres vivos, com quem partilhamos muitos genes, são capazes de manifestações culturais).”
via De Rerum Natura: Carlos Fiolhais: TRÊS ANOS DE “AS ARTES ENTRE AS LETRAS”.
O que Carlos Fiolhais pretende é, por um lado, distinguir a “cultura antropológica” da “cultura intelectual”, significando “cultura humana” como sinónimo de “cultura antropológica”.
Portanto, “cultura humana” não é, de facto, um pleonasmo, na medida em que existem duas noções diferentes de cultura. Aquilo a que Carlos Fiolhais chama de “cultura no seu sentido mais amplo”, é a “cultura antropológica” cujo termo não é, de todo, redundante, na medida em que essa pretensa redundância tem uma utilidade precisa: a distinção em relação a outra forma de cultura: a “cultura intelectual”.
Posto isto, vamos saber o que é “cultura antropológica”: primeiro a noção e depois um conceito resumido e restrito. E depois, em função da noção e do conceito de “cultura antropológica”, vamos saber se é verdade que “o moderno conhecimento científico de que outros seres vivos, com quem partilhamos muitos genes, são capazes de manifestações culturais”.
Definição: a cultura [que será, doravante, entendida aqui no sentido antropológico] é o conjunto de crenças, de conhecimentos, de ritos, e de comportamentos tradicionais de uma dada sociedade.
As crenças pressupõem opinião, desde a opinião avulsa [doxa] até à opinião científica [episteme].
Quando alguém diz que determinada espécie animal “é capaz de manifestações culturais”, quer significar que essa espécie tem uma cultura, na medida em que não existe uma semi-cultura, ou uma meia-cultura. Não é possível dizer-se: “os chimpanzés têm uma semi-cultura, porque são capazes de manifestações culturais”. Esta proposição está errada e nas suas duas partes. Na cultura, não há meios termos: ou existe, ou não existe — e por uma razão simples: as manifestações culturais obedecem aos termos da definição supra de “cultura” — a não ser que exista outra definição de cultura que eu desconheça.
Portanto, o que Carlos Fiolhais quer dizer é que existem espécies, que não a humana, que têm cultura.
Desde logo, as crenças, numa cultura e conforme da definição supra, pressupõem racionalidade. As crenças [entendidas aqui no sentido lato, do preconceito até ao saber] pressupõem opinião, desde a opinião avulsa [doxa] até à opinião científica [episteme]. Ademais, a crença pode referir-se a uma verdade adquirida. Faço aqui um parêntesis para contar uma história verídica.
Reza a história que num simpósio de investigadores da natureza realizado em Göttingen, Alemanha, em 1854, um fisiólogo presente, de seu nome Jacob Moleschott, declarou que, “tal como a urina é uma secreção dos rins, assim as nossas ideias são apenas secreções do cérebro”. Perante isto, o conhecido filósofo Hermann Lotze levantou-se, e disse que “ao ouvir tais ideias do distinto colega conferencista, quase acreditei que ele tinha razão…”
Carlos Fiolhais funciona em um arquétipo mental semelhante ao de Jabob Moleschott: para ele, um chimpanzé, por exemplo, tem crenças — porque de outra forma não diria que “o moderno conhecimento científico de que outros seres vivos, com quem partilhamos muitos genes, são capazes de manifestações culturais”. Naturalmente que os gorilas, por exemplo, fazem ninhos laboriosos e bem elaborados no topo das árvores para poderem dormir; mas também é verdade que os ninhos das vespas são verdadeiras obras de engenharia — e só cá faltava que o Carlos Fiolhais nos viesse dizer que as vespas têm cultura.
A cultura, conforme definição supra, implica a tradição. E o que é a tradição? A tradição pode ser definida como um conjunto das ideias, crenças, instituições e costumes de qualquer colectividade, conjunto esse que não provém de uma codificação escrita [ou do Direito Positivo].
Se o Carlos Fiolhais me demonstrar que existem instituições entre os chimpanzés, ou que estes animais têm crenças, sou capaz de me converter à religião dele. E se, por exemplo, os chimpanzés caçam estrategicamente em equipa, os lobos também o fazem, e que eu saiba, os lobos não têm cultura.
Vamos recordar S. Tomás de Aquino, que é o que faz falta na comunidade académica [e ao Carlos Fiolhais].
O ser humano tem cultura porque tem livre-arbítrio, que se distingue, por exemplo, do arbítrio de um chimpanzé que não é livre.
E o Homem tem livre-arbítrio porque é capaz de representar o objecto do seu desejo na ausência desse objecto, enquanto que um chimpanzé não é capaz de o fazer e, portanto, o arbítrio do chimpanzé não é livre; e não sendo livre, um chimpanzé não pode ter cultura e, por isso, não pode ter “manifestações culturais”.