perspectivas

Domingo, 27 Maio 2012

Uma analogia entre a cultura intelectual europeia e um sistema imunitário deficiente

Podemos conceber a Europa actual, por simples analogia, como um corpo humano; e podemos conceber analogamente a cultura intelectual europeia, actual e predominante, como o sistema imunitário desse corpo — na medida em que a cultura intelectual exerce grande influência sobre a cultura antropológica, e porque a cultura assume um papel fundamental na defesa da sociedade contra a degradação do corpo social e na garantia da sua continuidade e do seu futuro.

No contexto desta analogia, defendo a ideia de que a Europa entrou num processo de esclerose múltipla, porque a actual acção da cultura intelectual europeia sobre o corpo social assemelha-se à acção de um sistema imunitário defeituoso que não distingue as células do seu próprio corpo, por um lado, das células alienígenas e patológicas que invadem o corpo, por outro lado.

Quando uma bactéria invade um corpo com um sistema imunitário eficiente e saudável, o corpo gera anticorpos contra a bactéria, mas não o faz, por exemplo, contra os glóbulos vermelhos que circulam na corrente sanguínea; ou contra quaisquer outros tecidos que os anticorpos encontram constantemente. Este comportamento normal e eficiente dos anticorpos tem o nome de “auto-tolerância”.

Mas quando o corpo gera anticorpos “auto-dirigidos” [dirigidos contra o seu próprio corpo], o efeito sobre o corpo é desastroso; estamos em presença de “anticorpos niilistas e alienados”. Por exemplo, na diabete juvenil, os “anticorpos niilistas e alienados” destroem as células do pâncreas que produzem a insulina, levando a criança à morte se ela não tomar insulina. Outro exemplo é o dos corpos com esclerose múltipla: os “anticorpos niilistas e alienados” destroem os isolamentos que rodeiam os nervos do corpo, expondo os nervos que, assim, entram em curto-circuito, conduzindo progressivamente à paralisação do corpo.

A acção da cultura intelectual europeia no corpo social pode ser comparada à acção dos “anticorpos niilistas e alienados” no corpo com um sistema imunitário deficiente.

Num corpo saudável, o sistema imunitário “aprende” não só a tolerar mas sobretudo a defender os seus próprios tecidos. Num corpo em que existam “anticorpos niilistas e alienados”, o sistema imunitário actua como inimigo do próprio corpo, levando-o à degradação e, em alguns casos, até à morte.

A esclerose múltipla não tem cura, exactamente porque o sistema imunitário do corpo é “irredutivelmente complexo” no sentido em que depende da acção simultânea e coordenada de pelo menos três esferas de acção diferentes, mas interdependentes:

1) o sistema clonal [a produção de células B no tutano dos ossos e o processo de acoplagem dos anticorpos às células B] que representa simbolicamente as universidades, areópagos políticos elitistas e fóruns culturais da Europa;

2) a diversidade dos anticorpos [bilhões de possibilidades, quase infinitas] que representa simbolicamente a criação intelectual e a respectiva acção política;

3) e o sistema suplementar [o sistema de ataque massivo às bactérias e aos vírus, no seguimento dos sinais e das mensagens de alerta transmitidas pelos anticorpos] que representa aqui simbolicamente a cultura antropológica na Europa [a cultura do povo].

Sendo que estes três componentes são íntima e intrinsecamente interdependentes de uma forma “irredutivelmente complexa”, a cura para a esclerose múltipla de um corpo passaria pela substituição, de uma só vez, de todo o sistema imunitário — o que é uma impossibilidade objectiva, pelo menos para o ser humano: só Deus o pode fazer.

De um modo análogo, a única forma de se salvar o “corpo” social da Europa, sujeito hoje às acções de um sistema imunitário deficiente — e dos seus “anticorpos niilistas e alienados” representados pela cultura intelectual e pela elite política — é a substituição total do sistema imunitário da Europa. Sem essa substituição radical, o organismo social tende a uma paralisação progressiva, a uma decadência operacional e ao definhamento ao longo de algum tempo.


Segundo Eric Voegelin, a deficiência do sistema imunitário do corpo social europeu deve-se à alienação dos intelectuais [a “traição dos intelectuais”, de Julien Benda] que consiste na “retirada do próprio Eu” — sendo que o Eu é constituído pela “tensão entre o Homem e o plano divino da existência” [Metaxia]. A alienação é “o afastamento do plano divino” e a clausura no Eu que, “embora se imagine humano, não se constitui pela sua relação com a presença divina”. É nisto, basicamente, que consiste a alienação niilista da cultura intelectual europeia.

A doença dos intelectuais europeus — ou a deficiência do sistema imunitário do corpo social na Europa — consiste na “recusa de participar na realidade” da “tensão existencial” [a “grande recusa”, de Marcuse, Adorno e da Utopia Negativa] que liga o ser humano ao fundamento axiológico cósmico e divino: os intelectuais europeus criam uma “realidade segunda” que coloca o “Ego autónomo no lugar do fundamento” axiológico cósmico e divino. “A deformação do real leva à edificação de sistemas ideológicos” — as “religiões políticas” que já controlam até a ciência. Esta “perda de realidade na ordem existencial”, predominante na cultura intelectual europeia, “desce” à cultura antropológica por via de um efeito de Trickle-down, “tornando-se socialmente dominante” e provocando “distúrbios massivos na ordem social”.

Eric Voegelin não nos dá a solução para o problema: só faz o diagnóstico. Porém, talvez a cura da doença europeia consista na substituição radical de todo o sistema imunitário do organismo europeu, com a ajuda imprescindível de Deus.

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1 Comentário »

  1. […] da “traição dos intelectuais” e da “esclerose múltipla cultural” que expus aqui de forma metafórica. Mas temos de ter cuidado quando tratamos com as tradições: não devemos […]

    Pingback por O revisionismo do politicamente correcto « perspectivas — Domingo, 27 Maio 2012 @ 6:02 pm | Responder


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