perspectivas

Sexta-feira, 25 Maio 2012

Sobre o mito de Montesquieu

Filed under: A vida custa,cultura,Política,religiões políticas,Ut Edita — O. Braga @ 6:07 am

“O argumento principal é o de que os súbditos monárquicos não estão necessariamente numa posição pior que os cidadãos republicanos no que concerne à segurança das suas vidas e posses, e que, na verdade, estas podem estar mais seguras numa monarquia do que numa república.”

via A defesa da liberdade e da monarquia em Montesquieu – BLOGUE REAL ASSOCIAÇÃO DE LISBOA.

O louco e radical revolucionário Marat, na “Chaînes de l’Esclavage”, referiu-se assim a Montesquieu:

“Quando desenvolve mecanismos ocultos que fazem mover o mundo político, é a imagem de uma inteligência superior; mas quando emprega os seus talentos a delinear para os homens, leis feitas para assegurar o seu repouso, e para os conduzir à felicidade pela razão, é a imagem da Divindade”.

O que Marat constatou, de facto, foi o seguinte: Montesquieu ou era agnóstico ou deísta, o que vai dar no mesmo; e Marat quis dizer o seguinte: o novo humanismo revolucionário pressupõe uma transcendência sem revelação.

E, por isso — e tal como Rousseau, Robespierre, Voltaire e Diderot o fizeram também — Marat repetiu uma das frases mais célebres de Montesquieu: “Se Deus não existisse, tinha que ser inventado”, o que significa a afirmação da necessidade, segundo Montesquieu e os revolucionários, de se inventar um substituto para Deus, ou seja: a receita da substituição total e radical de Deus pela transcendência do Direito Positivo. E depois, foi o que todos nós constatamos e verificamos até hoje.

Dizer que “Montesquieu defendeu a monarquia” — como está escrito na citação em epígrafe — é um absurdo!

Desde logo porque uma monarquia propriamente dita não pode existir sem uma transcendência revelada. Por isso é que, por exemplo, a rainha de Inglaterra representa também, e ainda hoje, a Igreja Anglicana; e que o rei da Suécia representa a Igreja Sueca; e por aí fora. Acabe-se com a tutela da Igreja Anglicana por parte da coroa britânica, e a monarquia inglesa começa por perder o seu sentido, e a seguir esboroa-se…! Até o rei do Butão representa, na esfera política, a revelação do Buda.

Do ponto de vista da ética, Montesquieu é uma desgraça; por exemplo, o Marquês de Sade deu os parabéns, por escrito e não sem malícia, a Montesquieu, porque verificou obviamente, e de facto, a existência do relativismo na ética de Montesquieu. Não me vou alongar aqui sobre a ética de Montesquieu, que deixarei eventualmente para outra oportunidade.

Do ponto de vista da análise da História, Marat tem razão quando se refere aos “mecanismos ocultos” de Montesquieu que “fazem mover o mundo político”. Montesquieu foi o pai do Historicismo e da actual visão da Esquerda, que vê na História um “sentido oculto” que anuncia a “certeza” de um determinado destino histórico, e transforma o “progresso” em uma lei da natureza.

Adenda: com monárquicos destes, para que precisamos de republicanos?

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