perspectivas

Quinta-feira, 17 Maio 2012

O naturalismo e o relativismo moral (2)

Sobre a refutação do evolucionismo darwinista

A teoria da evolução de Darwin ou “evolucionismo” — que em meados do século XX foi rebaptizada de “evolução sintética” ou “neodarwinismo” — pode ser vista de duas maneiras: ou como uma teoria científica, ou como uma doutrina metafísica. Como doutrina metafísica, o evolucionismo teve e tem ainda um sucesso fantástico; como teoria científica, é basicamente um embuste.

O escaravelho bombardeiro

Uma das razões — senão a principal razão — por que considero Karl Popper como um dos cinco maiores filósofos do século XX, foi porque ele teve a coragem de enfrentar o dogmatismo na ciência, e foi muito criticado por isso. Para Karl Popper, é irracional que na ciência se ignore uma evidência falsificadora de uma teoria. Num ataque violentíssimo a Karl Popper, Imre Lakatos entrou em retórica: acusou Popper de não distinguir entre “refutação”, por um lado, e “rejeição”, por outro lado; no fundo, Lakatos entrou em pura semântica para criticar a pertinência da posição de Karl Popper.

Lakatos, contra Popper, defendeu a ideia segundo a qual uma evidência falsificadora de uma teoria cientifica não a refuta, na medida em que se pode alterar a teoria para acomodar a “anomalia” [nome dado à evidência falsificadora], ou na medida em que se pode “guardar” a anomalia numa gaveta para uma futura consideração. Segundo este raciocínio de Lakatos, uma teoria científica pode passar a ser verdadeira para sempre, o que é um absurdo. É esta visão de Lakatos que prevalece hoje na ciência e que mantém o evolucionismo como teoria intocável e irrefutável.

Para além do dogmatismo cientificista de Lakatos, outra razão para que a ciência [ciência = comunidade científica] continue a afirmar que “o evolucionismo é um facto”, liga-se com uma mera querela ideológica naturalista: a comunidade científica não quer dar nenhum “trunfo” ao criacionismo bíblico, mediante uma autocrítica no que respeita ao fracasso rotundo e evidente do neodarwinismo. “Antes quebrar do que torcer”; antes permanecer no erro do que dar alvíssaras aos criacionistas; antes criar um dogma científico do que favorecer um dogma religioso.

Se perguntarem, por exemplo, a um(a) autor(a) do blogue Rerum Natura se o “evolucionismo sintético” é uma teoria verdadeira, penso que todos eles [e elas] dirão que sim, que a teoria é verdadeira. E a razão para essa unanimidade é simples: eles apenas seguem [cegamente] a autoridade. Se perguntarem a Carlos Fiolhais: “como se faz uma aparelhagem estereofónica de som?”; ele provavelmente responderia: “Ligando um conjunto de colunas a um amplificador e acrescentado um leitor de discos, um receptor de rádio e um leitor de cassetes”. E fica, então, “explicado” como se faz uma aparelhagem estereofónica de som. E é nestes parâmetros que Carlos Fiolhais “explica” a origem e a “evolução” dos organismos vivos, e “justifica” a veracidade da teoria de Darwin. É óbvio que Carlos Fiolhais pode convencer muita gente mediante este tipo de “explicação”.

Porém, uma grande parte dos cientistas sabe muito bem que a teoria é falsa nos seus fundamentos; acontece que apenas uma pequena parte desses cientistas tem a coragem de vir a público desafiar a “autoritas”.

Eric Voegelin sintetizou o mito do evolucionismo da seguinte forma:

“A teoria evolucionista é um mito — assim como o criacionismo bíblico é um mito — porque é impossível explicar a mutação das formas.”


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5 comentários »

  1. Orlando,

    Diz considerar Karl Popper como um dos cinco maiores filósofos do século XX. Em sua opinião quais são os outros? Por outro lado, se uma “evidência falsificadora” for suficiente para refutar uma teoria científica sem que exista uma teoria substituta é natural que os cientistas tenham relutância em aceitar tal evidência. Trocariam um “erro” por coisa nenhuma.

    Dário Azevedo

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    Comentar por dmazevedo — Quinta-feira, 17 Maio 2012 @ 8:33 pm | Responder

    • Uma característica do ser humano é que não é capaz de dizer o que a realidade é; mas pode dizer o que a realidade não é, mediante a constatação dos seus erros na tentativa de “construção” dessa realidade.

      Porém, dado que só podemos descrever e explicar sempre o fracasso, precisamente por intermédio dos conceitos que utilizámos para a construção das teorias falhadas, nunca somos capazes de ter uma imagem do mundo que pudéssemos responsabilizar pelo fracasso.

      Quando uma teoria é refutada, altera-se apenas um paradigma [Thomas Kuhn]. Darwin escreveu:

      “Se fosse possível demonstrar a existência de um órgão complexo que não pudesse ter sido formado através de modificações numerosas, sucessivas e ligeiras, a minha teoria seria absolutamente demolida.” — Charles Darwin, “A Origem das Espécies”.

      Os avanços recentes da ciência bioquímica tiveram como resultado a refutação clara e insofismável dos princípios fundamentais do “evolucionismo sintético”, aka neodarwinismo. Mas também é verdade que, por exemplo, o conceito de Darwin de micro-mutação mantém-se válido, apesar da refutação da teoria. Um exemplo da micro-mutação é a capacidade de mutação das bactérias para resistir aos antibióticos; coisas deste género continuam válidas na teoria de Darwin.

      Mas os princípios fundamentais do neodarwinismo foram totalmente destruídos pelo conceito bioquímico de “complexidade irredutível” dos organismos vivos — ou seja: foi possível “demonstrar a existência de um órgão complexo que não pudesse ter sido formado através de modificações numerosas, sucessivas e ligeiras”. Darwin acabou de constatar que a sua própria teoria foi demolida.

      Caros darwinistas: é necessário encarar a realidade de frente e não ter medo de enfrentar o factos! Deixem de viver em estado de negação! Refutar uma teoria não significa que toda a estrutura da teoria se deve deitar fora. O que nós não podemos continuar a dizer às pessoas é que “a vida surgiu da matéria inorgânica”! Isto já foi demonstrado pela ciência ser um absurdo total!

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      Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 18 Maio 2012 @ 6:07 am | Responder

    • Os cinco maiores da filosofia no século XX : Husserl, Karl Jaspers, Louis Lavelle, Eric Voegelin e Karl Popper.

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      Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 18 Maio 2012 @ 6:13 am | Responder

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