perspectivas

Quinta-feira, 10 Maio 2012

A ciência que “salva as aparências” [5]

“A interpretação de uma linguagem de observação é determinada pelas teorias que nós utilizamos para explicar o que observamos, e muda assim que essas teorias se alteram.”Paul Feyerabend

O que significa esta proposição? Significa que, com o pós-modernismo, em ciência “vale tudo”. Se eu disser que “os marcianos são verdes”, esta minha proposição também é considerada uma teoria da ciência para a edificação de uma lei deduzida dessa interpretação acerca dos marcianos; Wittgenstein chamou-lhe “Gestalt-shift” (eu diria que é Gestalt shit).

As teorias ditas “científicas” passaram a ser usadas para impor determinadas visões políticas, e para validar de forma exclusivista e autoritarista as mundividências metafísica, ética, e política do naturalismo.

Antes do pós-modernismo, a proposição “os marcianos são verdes” era verdadeira apenas e só porque se partia do princípio segundo o qual não existem marcianos. Depois do pós-modernismo, os factos científicos relevantes deixam de ser concebidos em função de se “ver aquilo”, mas passam a ser em função de “ver como” [Wittgenstein].

Aquilo que eu e tu “vemos” e em conjunto, deixa de ter importância; o que importa é “como” eu vejo aquilo, e “como” tu vês aquilo. Se eu digo que “os marcianos são verdes”, e na medida em que a ciência não pode provar que os marcianos não existem, então a minha proposição — segundo o raciocínio de Feyerabend, Quine ou Hanson — passa a ser uma teoria científica. Foi desta forma que se construiu a “teoria” do Multiverso e a “teoria” de Stephen Hawking segundo a qual “o universo surgiu do Nada”.

Com o pós-modernismo, as informações recolhidas mediante observação não valem nada senão na medida em que são submetidas a uma teoria que, muitas vezes, já existia e é anterior à própria observação [Feyerabend], ou seja, os pontos de suporte de uma teoria são criados pela própria teoria; a teoria científica vale-se a si mesma, e vale por si mesma, sem grande necessidade de evidências empíricas. Por isso é que evolucionistas dizem que “a evolução é um facto”.

Antes do pós-modernismo, o nível teórico era “parasita” do nível observacional [Bridgman]; com Feyerabend e com o pós-modernismo, a observação passa a ser (literalmente) parasita da teoria.

Quando Einstein “criou” a sua [dele] “teoria da simultaneidade”, Bridgman ficou com os cabelos em pé. Puxando pela sua fértil imaginação, Einstein defendeu a ideia segundo a qual a “simultaneidade” é “uma relação subjectiva entre dois ou mais eventos e um observador, e não uma relação objectiva entre eventos”. Ora este exercício de Einstein não tem significância empírica; Einstein poderia ter criado, da mesma forma, uma “teoria de extra-terrestres” ou uma “teoria dos marcianos verdes”. O que Einstein fez pertence à filosofia, e não à ciência. Não é possível considerar a “teoria da simultaneidade” como uma “teoria” no sentido científico; o mais que podemos dizer dela, em termos estritamente científicos, é que se trata de uma “hipótese”.

A partir do momento que em ciência passou a “valer tudo”, as teorias ditas “científicas” passaram a ser usadas para impor determinadas visões políticas, e para validar de forma exclusivista e autoritarista as mundividências metafísica, ética, e política naturalistas historicamente imbricadas — a partir de Bentham e dos socialistas franceses do século XIX — com o darwinismo, com o eugenismo e com o socialismo.

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