perspectivas

Domingo, 6 Maio 2012

A ciência que “salva as aparências” [3]

Descartes — ao contrário de Galileu, por exemplo — pensava que a dedução a partir de princípios auto-evidentes [axiomas ou “primeiros princípios”, sejam estes lógicos ou empíricos] é de utilidade muito limitada na ciência. Mais: Descartes negou que fosse possível estabelecer leis fundamentais da natureza por recolha e comparação de diferentes casos [ao contrário do que defendeu, por exemplo, Francis Bacon].

Vou tentar demonstrar aqui como o cartesianismo é metodologicamente semelhante ao evolucionismo.

Aristóteles tinha insistido que os primeiros princípios [os axiomas] se deveriam inferir ou induzir a partir da evidência observacional; e depois, segundo Aristóteles, deveria ser feito o caminho inverso, ou seja, dos axiomas para a observação.

Descartes obedeceu à primeira parte do critério aristotélico de indução e dedução: da observação para os primeiros princípios; mas não obedeceu à segunda parte: dos primeiros princípios para a observação. Em vez disso, Descartes criou axiomas falsos que confirmassem a sua opinião.

Ou, melhor dizendo, Descartes partiu da sua mundividência para a interpretação dos fenómenos; Descartes afirmou [“Discurso do Método”] que as leis científicas por ele elaboradas eram consequências dedutivas dos seus princípios filosóficos. E como qualquer interpretação é sempre uma teoria, Descartes aplicou à realidade dos fenómenos uma teoria que já existia previamente na sua cabeça.

O que Descartes tentou fazer foi “salvar as aparências”: partiu das aparências [observação dos fenómenos], deu-as como genuínas [Cogito], para depois lhe aplicar as suas [dele] leis ou axiomas, em função da sua [dele] mundividência. Por exemplo, Descartes interpretou a atracção magnética como sendo uma emissão de partículas invisíveis em forma de parafuso que atravessam canais em forma de rosca presentes no interior do ferro, fazendo assim com que este se mova.

A filosofia mecanicista de Descartes foi muito elogiada pelos maiores pensadores do século XVII, tendo sido mesmo considerada uma doutrina revolucionária. A elite dos pensadores naturalistas daquela época, embora não aceitando totalmente o dualismo de Descartes, acreditaram que a visão cartesiana era mais científica do que as visões “obscurantistas” que consideravam qualidades “ocultas e de tipo religioso”, tais como forças magnéticas e forças gravitacionais. Do ponto vista cartesiano, dizer que um corpo se move em direcção a um magneto — porque alguma “força” foi exercida pelo magneto — é não explicar nada, porque a ideia de “força” ou de “campo” não cabia dentro da concepção mecanicista de Descartes.

O que se passa hoje com o evolucionismo tem algumas semelhanças com o cartesianismo. Os evolucionistas 1) observam os fenómenos [por exemplo, fósseis]; depois 2) interpretam os fenómenos à luz de uma determinada mundividência que consideram “mais científica” e oposta ao “obscurantismo não-naturalista”; 3) dessa interpretação surgem os axiomas falsos [metafísica] que sustentam a teoria; 4) o evolucionismo não faz devidamente o “caminho” aristotélico dos axiomas para a observação, porque os evolucionistas sabem bem que os seus axiomas não estão de acordo com o que foi observado.

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