perspectivas

Sábado, 5 Maio 2012

A ciência que “salva as aparências” [1]

Os teoremas das alavancas de Arquimedes são verdadeiros? Sim. E esses teoremas tem contacto com a realidade [empírica]? Sim, por exemplo, através da construção de catapultas para uso militar. Mas os teoremas das alavancas de Arquimedes confirmam-se experimentalmente para qualquer tipo de varas? Não. Os teoremas das alavancas de Arquimedes aplicam-se, só e apenas, a uma “alavanca ideal” que, em princípio, não pode concretizar-se na prática, nomeadamente, uma vara sem massa mas infinitamente rígida; as varas do teorema de Arquimedes não podem vergar e têm que ter uma distribuição uniforme de peso.

O supramencionado significa uma coisa muito simples: Platão tinha razão.

E com Platão, têm razão também toda a tradição pitagórica, incluindo a tese do Mundo 3 de Karl Popper, que baseia o sistema dedutivo na auto-evidência dos primeiros princípios ou axiomas de uma teoria ou ciência [Aristóteles], por um lado, e por outro lado, na relação dedutiva entre as teorias e os axiomas mediante um processo de reductio ad absurdum [de Euclides e Arquimedes, nomeadamente] — processo este que resultou no princípio da falsicabilidade de Karl Popper que destruiu, sem dó nem piedade, o cientismo positivista.

Em contraponto, desde a antiguidade que existe uma outra tendência filosófica, protagonizada nomeadamente por uma criatura de seu nome Geminus [século I a.C.], que defende a ideia segundo a qual a aplicação dos axiomas auto-evidentes a uma teoria só deve servir para “salvar as aparências”; e se os axiomas auto-evidentes não servirem para “salvar as aparências”, então é perfeitamente legítimo que se construa uma teoria partindo de um sistema dedutivo baseado em axiomas falsos. E foi esta tese de Geminus que esteve presente na proposição de Kant — referindo-se à teoria da gravitação de Newton — segundo a qual “o entendimento cria as suas leis; não a partir da natureza, mas prescreve-as à natureza”. Newton não poderia estar mais em desacordo com Kant, porque Newton seguiu claramente a tradição pitagórica de respeito pelos primeiros princípios.

“Salvar as aparências”, segundo Geminus, Locke, Stuart Mill, ou Dilthey, não significa apenas justificar o experimentalismo a todo o custo: significa sobretudo que se torna legítimo utilizar pressupostos [axiomas] de veracidade duvidosa para “salvar as aparências” de uma teoria baseada exclusivamente na observação empírica: partindo de axiomas falsos — ou pelo menos de veracidade duvidosa —, mas considerados perfeitamente legítimos, “salva-se a aparência” daquilo que parece ser verdadeiro mediante observação empírica. Foi o que aconteceu desde Darwin. Desde Darwin que “as aparências aparudem”.

De Newton a Einstein decorreram praticamente 300 anos. Foram precisos 300 anos para que a teoria gravitacional de Newton fosse colocada em causa por Einstein. Desde que Darwin defendeu a ideia da necessidade absoluta de se “salvar as aparências”, só decorreram escassos 150 anos; ou seja, ainda dispomos de outros 150 anos para colocar o evolucionismo darwinista da “salvação das aparências” numa prateleira do museu da ciência.


Podemos estabelecer um paralelismo entre a teoria das marés de Galileu versus astrologia, por um lado, e por outro lado, o evolucionismo darwinista versus criacionismo bíblico. A teoria das marés de Galileu está errada porque Galileu, sendo físico, era profundamente avesso à astrologia de Ptolomeu e, por isso, não considerou propositadamente o movimento de rotação da Lua na sua teoria das marés. Galileu pretendeu “salvar as aparências” criando uma teoria que prescindiu do recurso à Lua e à “maldita astrologia”. E, talvez por ironia do destino, a descoberta do campo gravitacional por parte de Newton reintroduziu uma ideia de natureza quase-astrológica e post-plotomaica, considerada por racionalistas e pelo próprio Newton, como ocultista [em contraposição a Kant].

De um modo semelhante, o evolucionismo darwinista tem um problema endémico com o criacionismo bíblico. Tudo o que tenha um “cheiro” a criacionismo bíblico não serve para “salvar as aparências” das observações empíricas que sustentam a teoria. E, portanto, segundo o evolucionismo darwinista, é preferível prescindir de quaisquer axiomas auto-evidentes e criar um sistema dedutivo baseado em falsos axiomas [por exemplo, “o universo surgiu do Nada”], para que se possa, assim, “salvar as aparências” e livrar-nos do mal criacionista, Amém.

Adenda: entre os números inteiros, existe uma infinidade de equações verdadeiras e, também, uma infinidade de equações falsas. Mas as equações falsas entre os números inteiros não deixam de ser falsas pelo simples facto de existirem, assim como os axiomas falsos não deixam de ser falsos porque “salvam as aparências”.

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2 Comentários »

  1. [...] ler: A ciência que “salva as aparências” [1] Share this:EmailGostar disto:GostoBe the first to like this artigo. Deixe um [...]

    Pingback por A ciência que “salva as aparências” [2] « perspectivas — Sábado, 5 Maio 2012 @ 10:34 am | Responder

  2. [...] A ciência que “salva as aparências” [1] Share this:EmailGostar disto:GostoBe the first to like this artigo. Deixe um Comentário [...]

    Pingback por A ciência que “salva as aparências” [3] « perspectivas — Domingo, 6 Maio 2012 @ 7:23 pm | Responder


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