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Sexta-feira, 27 Abril 2012

A liberdade radical, mas autoritarista e impositiva, de Desidério Murcho

Filed under: A vida custa,filosofia — O. Braga @ 2:54 pm
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Desidério Murcho chegou à conclusão de que o debate entre posições [éticas e, por isso, filosóficas] radicalmente antagónicas é impossível [estou de acordo com ele]; e por isso, Desidério Murcho defende a ideia segundo a qual cada professor deve ensinar [filosofia] como lhe der na real gana, e mais: devem acabar os exames de filosofia.

Desidério Murcho confunde “qualidade dos professores”, por um lado, com a matéria conveniente a dar nos curricula, por outro lado. Para Desidério Murcho, a qualidade dos professores que ele considera baixa, justifica que cada professor ensine filosofia da forma como quiser, para assim se poder fugir ao estereotipo negativo. Brilhante raciocínio. Em vez de atalhar o problema da habilitação dos professores, Desidério opta pelo “salve-se quem puder”. E depois, Desidério Murcho diz que “radicais são os outros”. Em vez de jogar a bola, Desidério Murcho joga nas pernas dos adversários.

O texto tem passagens extraordinárias; por exemplo, repare-se:

«“Repara que eu acredito genuinamente que quem não concebe a filosofia como teorização e argumentação intensa e rigorosa sobre problemas reais insusceptíveis de resolução científica (…)”»

Quando é que a ciência “resolve” [no sentido de “explicar”] problemas reais? A ciência descreve alguns dos fenómenos inerentes à realidade; e quanto muito, a ciência fornece uma “explicação causal” [nexo causal], e não uma explicação propriamente dita. E, por isso, mesmo os problemas “resolvidos” pela ciência continuam a ser objecto da filosofia — não é pelo facto de a ciência ter “resolvido” alguns problemas reais que a filosofia se deve abster deles [revela a influência da visão positivista em Desidério Murcho].

No segundo texto, Desidério diz que a corrupção explica-se mediante um determinado sistema: o centralismo do Estado. O que significa, por anteposição, que a descentralização eliminaria a corrupção. De facto, é verdade: basta que a noção de corrupção seja erradicada mediante o conceito radical de liberdade [ou outro qualquer]. A visão ultra-liberal de Desidério diz o seguinte: se a corrupção não vier do Estado centralizado, deixa de ser corrupção.

No seu livro “O Homem Sem Qualidades”, Robert Musil descreve a personagem Ulrich como alguém que não acredita no carácter das pessoas [formação ética] como sendo essencial para a compreensão da realidade e para a resolução dos problemas, mas antes acredita na lógica impessoal dos sistemas para a resolução dos problemas. De modo semelhante, Desidério defende a ideia de que a lógica impessoal dos sistemas é suficiente para a resolução do problema da corrupção, na medida em que basta mudarmos a função do Estado — e a lógica do sistema do Estado — para que a corrupção desapareça. Na realidade, o que se passa com a descentralização é que a corrupção pode perfeitamente passar para a esfera privada, e torna-se praticamente invisível e até justificável.

Por exemplo, no Estado ultra-centralizado da Alemanha de Hitler, havia muito pouca corrupção, o que não significa que o sistema nazi seja louvável por esse facto. E no Estado ultra-descentralizado [ou caótico] da Somália, a corrupção passou claramente do Estado para a esfera privada.

Por último: Desidério Murcho, por via de uma retórica contraditória, acha-se no direito de impor aos outros a sua ideia segundo a qual ninguém deve impor nada a ninguém. Desidério vê a liberdade como um direito negativo; mas mesmo um direito negativo acaba sempre por ser uma forma de imposição — a não ser que Desidério se transforme em um anacoreta e se feche em relação ao mundo. É a mesma lógica do Bloco de Esquerda: “é proibido proibir, excepto se for eu a proibir”. É a liberdade autoritarista.

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