perspectivas

Terça-feira, 24 Abril 2012

Um pequeno fisking a Desidério Murcho

Filed under: A vida custa,ética,educação,filosofia — O. Braga @ 9:16 pm
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Vejamos:

“Vejamos: eu defendo um ensino com as características tal e tal. Mas seria cego da minha parte — ou pior — não reconhecer que quem defende o oposto disso tem tanto direito quanto eu de o defender, praticar e divulgar. É incoerente desejar para nós a liberdade de ensino que negamos aos outros, reivindicar para nós o direito de ensinar como pensamos que é correcto, ao mesmo tempo que negamos esse direito aos outros.”

Uma coisa é as pessoas terem o direito de defender as suas ideias; outra coisa é considerar, implícita ou explicitamente, que todas as ideias são equivalentes e que, em nome da liberdade, devem ser todas aceites e apologeticamente transmitidas aos alunos.

“A única coisa que está errado no ensino da filosofia em Portugal — e no ensino das outras áreas — é não haver a possibilidade de mais diversidade.”

Diversidade não é a mesma coisa que subjectividade. O ensino de uma qualquer disciplina tem que ter uma forte componente de objectividade. O que pode ser diversa é a forma [o método] como se ensina aquilo que é objectivo. Por outro lado, a filosofia — como tudo na vida — não é eticamente neutra: não é possível dizer: “todas as correntes filosóficas são equivalentes do ponto de vista ético”.

Por exemplo, quando o professor universitário de filosofia, Nuno Nabais, acha particularmente estimulante e interessante o ensino de Nietzsche [o tal que louvou o Marquês de Sade], este facto não significa que a ética de Nietzsche seja racionalmente defensável. Naturalmente que se Nietzsche não for intensa e apologeticamente abordado nos curricula, Nuno Nabais acharia isso detestável; mas teremos sempre que pedir ao Nuno Nabais que justifique racionalmente a sua exigência de especial incidência do ensino de Nietzsche — coisa que ninguém pode racionalmente sustentar.

“Se tivéssemos ampla diversidade, poderíamos ver o que funciona melhor, aquilo que é mais estimulante para os alunos, o que melhor promove o que queremos promover”.

Se tivéssemos a tal “ampla diversidade”, o Nuno Nabais, por exemplo, estabeleceria um programa de ensino que teria por base as ideias de Nietzsche, e em função das quais gizaria uma mundividência que seria imposta aos alunos. Não tenho dúvidas acerca disso.

“Impor aos outros, seja a quem for, a nossa concepção de ensino — e por mais que esteja objectivamente alinhada com o que de melhor se faz nas melhores universidades e escolas do mundo mais desenvolvido — é inaceitável, e devia ser óbvio que é inaceitável.”

Quando o Desidério Murcho acha “inaceitável que se imponha aos outros a nossa concepção de ensino”, o que ele está a fazer é tentar impor aos outros a concepção de ensino que é a dele. Não é possível assumir uma posição neutral entre a neutralidade e a não-neutralidade. Desidério Murcho cai em contradição.

Quando alguém diz que “eu penso que é inaceitável impor aos outros a nossa concepção de ensino”, pretende afirmar uma verdade que é sempre impositiva; esse alguém está convencido de que a sua opinião está correcta, e de que todos devem corroborar da sua opinião. Por conseguinte, essa pessoa pressupõe que a sua afirmação possui uma validade incondicional, e que existe, entre a sua opinião que ele considera correcta, por um lado, e as opiniões opostas que considera erradas, por outro lado, uma diferença que não pode ser relativizada.

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2 comentários »

  1. Por que será que, de vez em quando, venho aqui parar ó braga? Isto já é perseguição!
    Todo o seu arrazoado é contraditório; porque se fosse verdade o que você diz, a sua última afirmação, a saber, que afirmar que é inaceitável impor aos outros a nossa concepção de ensino é querer impor essa afirmação como verdadeira, no limite, qualquer afirmação seria impositiva, inclusive a sua, coisa que você, como intransigente liberal (breve fungar nasal, a seguir a esta afirmação, seguido de assobio fininho) não considerará.
    O nabais! Ah, o nabais, que seria de você sem o desgraçado do homem? Diga-me lá ó braga!
    Mesmo que a ética de Nietzsche não fosse racionalmente defensável, só o saberemos se o tentarmos discutir racionalmente e não porque você, arauto da verdade, nos vem dizer que o não é; logo, só lendo o que alguém escreveu e procurando seguir o seu pensamento é que, livre e criticamente, se pode averiguar o seu grau de racionalidade. Mais: ouvi na rdp antena 1(a tal onde o nabais perorava e que você achava aqui atrasado que deveria lá ser sujeito a contraditório – lembra-se? – e que, não o sendo, estaria a procurar impor as suas ideias) no domingo passado, dia 21 de abril, um programa onde já percebi que são sempre assumidas posições conservadoras. Nele, João Pereira Coutinho apresentou a posição socio-política de Burke, a qual, e veja você, conservador proto-fascista, a pérola, defende que o que existe, as instituições, devem ser conservadas ainda que não consigamos explicar racionalmente a sua manutenção na existência, ou seja, o que há e é tradicional, sendo irracional, é, não obstante auto-evidente. E que tal você propor um contraditoriozinho sobre o que se diz neste programa lá na antena 1? Ó braga, ó braga! Você só me desgosta!

    Quanto ao nabais, sobre o qual você não tem dúvidas que, se houvesse diversidade (ai o seu lado liberal…), imporia um programa aos alunos ele é duplamente falacioso. Primeiro, você “sabe”, sem justificar racionalmente (a isso chama-se preconceito), o que o raio do homem iria fazer; segundo, mais grave, você deve ter a mania que é o arauto do pensamento e que os alunos do nabais, só porque o são, não têm espírito crítico e por isso, qual ditador, ele iria impor as suas ideias aos alunos. É preciso ser besta e nunca ter falado nem estado numa sessão com a criatura; a qual é, por vezes, um pouco arrogante, mas, suspeito, porque não o conheço a si, que não lhe deve chegar aos calcantes.

    Por fim, a arrogância suprema, travestida de “racionalidade”, é quando você afirma que está por provar racionalmente a bondade do ensino da filosofia de Nietzsche; nem que fosse para o desancar, para o desacreditar, para o odiar, valeria sempre a pena – a discussão crítica é o melhor caminho para o conhecimento. Depois, sem argumentos de autoridade, mas você corta assim, sem mais, pela raíz, o trabalho de milhares de pessoas que têm estudado com dedicação ao longo de dezenas de anos Nietzsche e outros autores por si influenciados. O que não quer dizer que a filosofia de Nietzsche é axiologicamente preferível a outra nem torna melhores pessoas aqueles que o estudam e/ou que são por ele influenciados. Mas também não os torna piores apenas por isso. E, finalmente, não é você que vai dizer a priori e impor o que os outros devem ou não estudar; Isto não é relativismo nem subjectividade, apenas defesa da liberdade e do exercício da crítica. Mesmo para terminar, se o ensino de Nietzsche não se justifica racionalmente das duas uma: ou você fala do que não sabe e nunca o estudou ou, mais uma vez, entra em contradição.

    Não resisto a mais isto porque desde que o psicótico do Breivik assassinou dezenas de pessoas na Noruega que me lembrei de si (é o que digo, você persegue-me!): o discurso desse psicopata não é nada diferente do seu em relação aos temas do multiculturalismo, do islamismo e do marxismo cultural. Cure-se, ó braga!

    Comentar por Custódio David Catarino — Quinta-feira, 26 Abril 2012 @ 6:29 pm | Responder

    • Em primeiro lugar, Braga é um nome próprio, e por isso escreve-se com maiúscula.

      Em segundo lugar, o seu comentário consegue ser mais longo do que o postal que pretende comentar. É obra! Não é por você escrever muito que passa a ter razão!

      “no limite, qualquer afirmação seria impositiva, inclusive a sua, coisa que você, como intransigente liberal”

      Em terceiro lugar, não sou liberal. Não sei onde você foi buscar essa ideia. E por último, você tem razão: “qualquer afirmação é impositiva”.

      Quanto ao “cure-se”: vá apanhar onde apanham as galinhas!

      Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 26 Abril 2012 @ 8:33 pm | Responder


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