perspectivas

Quinta-feira, 19 Abril 2012

Um exemplo da ética determinista propalada por uma certa “ciência”

Filed under: A vida custa,ética,cultura,Esta gente vota,filosofia — O. Braga @ 8:19 pm
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«É a ciência que estuda a matéria e as transformações por ela sofridas. Assim, não é surpreendente que a química seja fundamental em muitas outras áreas do conhecimento (biologia, geologia, ambiente, medicina, etc.) Experimente encontrar conceitos em que não esteja envolvida matéria (tudo o que tem massa e ocupa espaço). Não é tão fácil como parece. Mesmo as ideias, que são imateriais, não existem sem um suporte físico!»

via De Rerum Natura: O QUE PRECISO SABER SOBRE QUÍMICA.

Reparem na proposição :

“Mesmo as ideias, que são imateriais, não existem sem um suporte físico!”

Dizer que “as ideias não existem sem suporte físico” é a mesma coisa que dizer que um pianista não poderia existir sem piano.

O que é que esta proposição significa? Significa que se não existisse o cérebro humano, a lei da gravidade, por exemplo, não existiria também — porque a lei da gravidade é, alegada e implicitamente, uma “criação ideológica humana” [Kant].

Vejamos uma outra proposição: “os axiomas da lógica, que são imateriais, não existem sem um suporte físico”. Vemos aqui uma inversão da lógica. O que é que está primeiro: os axiomas fundamentais, ou as leis da física que existem em função desses axiomas fundamentais? Se os axiomas fundamentais são a condição da existência das leis da física, é absurdo que se diga que aqueles dependem destes.

Outra proposição “invertida”: “a onda quântica pura, que é imaterial, não existe sem um suporte físico”. Ora, se a Função Ondulatória Quântica é a condição da entropia da gravidade que forma a matéria, como é que podemos dizer que a matéria existe antes da Função Ondulatória Quântica?

Se as ideias só podem existir mediante um suporte físico, então o conteúdo das ideias não existiria se o Homem não existisse. O Homem é, assim, transformado no “fabricante de ideias” sem o qual os conceitos ideológicos não existiriam no universo, e provavelmente o universo também não existiria sem o suporte físico [o cérebro] das ideias do Homem. A esta concepção antropocêntrica do universo chamamos de epifenomenalismo [Thomas Huxley] — que actualmente tem outro nome: a “teoria da identidade”.

Para os epifenomenalistas [ou para a “teoria da identidade”], não lhe passa pela cabeça que as ideias existam independentemente do cérebro que as descobre: pelo contrário, eles pensam que o Homem não descobre as ideias que já existem, mas antes cria as ideias que nunca existiram. Em última análise, para o epifenomenalismo, o Homem é a condição da existência do universo.

Para a “teoria da identidade”, as ideias não possuem qualquer realidade própria, sendo apenas um produto da actividade neuronal. Aquilo que é primário [aquilo que está em primeiro lugar] são os processos químicos e físicos nos neurónios, que decidem o que eu penso, o que faço e o que sou.

Karl Popper demoliu a “teoria da identidade” quando demonstrou que esta teoria não pode ter qualquer sentido se obedecer aos seus próprios pressupostos: se as minhas ideias não podem existir sem suporte físico, ou seja, se as minhas ideias são produtos e portanto, efeitos, da química que se processa no meu cérebro, então nem sequer é possível discutir a “teoria da identidade”. Esta teoria não pode ter qualquer pretensão de verdade, visto que, por exemplo, as provas dela decorrentes são igualmente química pura. Se alguém defende uma teoria contrária, também tem razão, dado que a sua química chegou a um resultado diferente. Karl Popper chama a esta armadilha lógica de “pesadelo do determinismo físico”.

Para o laureado Nobel, John Eccles, a relação entre o mundo das ideias e o cérebro poderia ser imaginada à semelhança da relação entre o pianista e o piano: embora o pianista precise do piano para tocar, ele pode subsistir sem piano. Dizer que “as ideias não existem sem suporte físico” é a mesma coisa que dizer que um pianista não poderia existir sem piano.

5 comentários »

  1. Nada percebo de física, nenhuma delas, mas acredito que houve uma construção de um “espantalho” no artigo. Parece-me que dizer que o homem é o centro do conhecimento é simplesmente afirmar que, embora seja plenamente admissível que a natureza (e suas leis) possa existir sem o homem, esta é uma questão meramente especulativa: para o homem, todos nós, a natureza só existe a partir do momento em que ele (nós) a percebe enquanto tal. Um determinismo físico é algo meio bobo de fato, mas não se trata de pensar em “causas” e “efeitos”, dado que o conhecimento não é uma operação puramente lógica: ela é um evento concreto. O artigo erra ao lidar com a questão como um problema de lógica abstrata. E pra nos mantermos dentro da metáfora, o correto é dizer que só existe piano quando alguém (seja pianista ou não) vê a construção de madeira e teclas e cordas como “piano”. Além disso, o pianista só poderia existir sem piano enquanto homem, e não enquanto pianista – “pianista” só existe em relação a um piano. É nesse sentido que só existe conhecimento (ao qual é dado o nome de “leis”, “teorias”, etc.) se existir homem; se isso não acontece, não se trata de saber se a lei da gravidade existe ou não: sem homem nenhum conhecimento é possível. Em suma: o artigo se equivocou a lidar apenas com as variáveis “leis” (ou axiomas, etc.) e “Homem” (como suporte físico), sem levar em conta o principal numa relação concreta: o ato de conhecer.

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    Comentar por Tiago Magaldi — Segunda-feira, 11 Junho 2012 @ 11:40 pm | Responder

    • Vamos lá ver. Quando você mistura conceitos num pequeno texto, torna-se difícil entendê-lo.

      1.Se o ser humano não existisse — ou melhor: quando o ser humano ainda não existia no planeta Terra —, o universo [sejam quais forem as características da realidade objectiva que o formata ou o enforma], não existia já? Claro que existia. Então onde é que existe o “espantalho”?!!!! Desde quando é que constatar um facto é criar um “espantalho”?!!

      2.Não percebi o que você quis dizer com “causa e efeito”, porque eu nem sequer me referi a especificamente a “causa e efeito” no meu texto.

      3.Em relação ao piano: trata-se de uma analogia, e não de um exemplo concreto. Dá-me ideia de que você não percebeu quase nada do que foi escrito.

      4.Como é que você sabe que não existem, por exemplo, extra-terrestres? Será que você pode afirmar o seguinte: “Tenho a certeza absoluta de que não existem seres extra-terrestres!” Você pode? Eu não!

      E se existem extra-terrestres, como é que você diz que “sem o humano o conhecimento não é possível”?

      5.Você tem dificuldade em raciocinar abstractamente; e depois, diz que os outros estão errados.

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      Comentar por O. Braga — Terça-feira, 12 Junho 2012 @ 12:07 am | Responder

  2. De fato, devo ser eu que tenho dificuldades em raciocinar abstratamente…

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    Comentar por Tiago Magaldi — Terça-feira, 12 Junho 2012 @ 5:07 am | Responder

    • Sem o raciocínio abstracto, a ciência não seria possível, porque as leis da ciência, ou as leis da física, nada mais são do que a abstracção em relação aos fenómenos físicos. Por exemplo, a lei da gravidade é, em princípio, válida no Rio de Janeiro e também no planeta Plutão, ou em qualquer parte do universo.

      Criticar o raciocínio abstracto é também criticar a própria ciência.

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      Comentar por O. Braga — Terça-feira, 12 Junho 2012 @ 7:49 am | Responder

  3. […] Esta teoria (da Identidade) não pode ter qualquer pretensão de verdade, visto que, por exemplo, as provas dela decorrentes são igualmente química pura. Se alguém defende uma teoria contrária, também tem razão, dado que a sua química chegou a um resultado diferente. Karl Popper chama a esta armadilha lógica de “pesadelo do determinismo físico”. Fonte […]

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    Pingback por teoria da identidade - Sofos — Segunda-feira, 12 Outubro 2015 @ 9:52 am | Responder


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