perspectivas

Segunda-feira, 19 Março 2012

Ao liberalismo segue-se inexoravelmente um qualquer totalitarismo

“Que um fulano caia em plena rua fulminado. Culpa dele não ter dinheiro para um médico, não ter seguro de saúde, não poder pagar uma cama de hospital, não poder ser operado a um tumor, não poder pagar uns óculos.”

via COMBUSTÕES: Esses liberais que não se calam.

Seria útil alguém, com propriedade, fazer a história do impacto progressivo [visto em slow motion, ao longo do tempo] que o liberalismo teve na progressão da cultura antropológica do Ocidente e desde o início do século XIX — porque o problema do liberalismo [a ética utilitarista de Bentham, John Adams, Stuart Mill, Ayn Rand, Hayek] não é só um problema de economia: é sobretudo o efeito que teve, pelo menos ao longo dos últimos 200 anos, sobre o processo de diferenciação na cultura antropológica a Ocidente, e em matéria de ética e de política.

Entramos na fase final e decadente do liberalismo, em que o individualismo utilitarista levado ao extremo transforma o simples desejo em “direito humano”.

“Que um fulano caia em plena rua, fulminado”, é um problema de capacidade de avaliação de um “estado de coisas” [John McDowell, 1995]. O conteúdo das razões externas para agir moralmente é constituído por verdades morais assumidas pelo agente moral [o cidadão comum] que não necessitam de mais nada, nem sequer do desejo subjectivo. Quando um fulano cai fulminado, em plena rua, as razões para agir são do domínio da percepção objectiva desse “estado de coisas”, e não resulta de uma deliberação racional do agente.

Quando um cidadão vê “um fulano, caído em plena rua, fulminado”, e passa ao lado com indiferença em relação a este estado de coisas — esta acção do cidadão não decorre da falta de inteligência ou da falta de raciocínio do cidadão; o que falta ao cidadão é a capacidade de sensibilidade moral que só a educação lhe poderia ter dado. Se extrapolarmos o exemplo do estado de coisas do “fulano que cai em plena rua, fulminado”, para uma miríade de outras situações possíveis de acção moral na sociedade, podemos vislumbrar o enorme problema da acção progressiva das ideias liberais na nossa sociedade, e ao longo do tempo.

Aquilo a que o Papa Bento XVI chama de “barbárie”, não é o resultado da acção de gente com fraca capacidade de raciocínio. Em vez disso, é a incapacidade de sensibilidade moral que aumenta progressivamente à medida em que o liberalismo utilitarista “progride” na cultura antropológica. E verificamos hoje, mesmo em cidades pequenas e cada vez mais, acções de barbárie perpetrados por gente inteligente.
Por exemplo, um médico meu amigo contou-me como uma jovem foi fazer um aborto “grátis” a um hospital público, e confrontada com o TAC do feto, exclamou: “Ai que giro!!!”. E depois, abortou. Não se trata de estupidez: trata-se da incapacidade de sensibilidade moral que a sua educação não supriu [Aristóteles]. A jovem foi absolutamente incapaz de ver o que a situação exigia dela própria.

Quando “um fulano cai em plena rua, fulminado”, uma pessoa que não tenha desenvolvido sensibilidade moral, olha para a cena de maneira neutra, ou com curiosidade, ou de maneira divertida [“ai que giro!!!”] : essa pessoa não entende a cena como solicitando ou exigindo a sua intervenção. Não podemos dizer que essa pessoa percebe a aflição do “fulano fulminado” e a urgência de intervir nesse “estado de coisas” ; mas também não podemos dizer que essa pessoa não deseja agir. Na realidade, essa pessoa apenas não vê ou não se apercebe da aflição do fulano fulminado nem a urgência do “estado de coisas”.

O estado de barbárie para onde caminhamos paulatinamente teve na sua origem o liberalismo entendido como sistema ideológico. E este liberalismo ideológico engloba, por exemplo, o liberalismo de Passos Coelho e o de Francisco Louçã: são ambos farinha do mesmo saco. As diferenças entre os dois são corruptelas ideológicas consentâneas com a necessidade de adequações ao Zeitgeist. E tanto um, como o outro, transformaram os “direitos humanos” em uma política. Ora, “os direitos humanos não são uma política” [Marcel Gauchet, 1983].

A bandeira dos “direitos humanos” parece ser um sintoma da “incapacidade de conceber um futuro diferente para esta sociedade” [idem]. Começam a criar-se “direitos humanos” que nunca existiram; inventam-se novos “direitos humanos”, todos os dias. Todos os desejos subjectivos assumem, agora, a forma de “direitos humanos”. Entramos na fase final e decadente do liberalismo, em que o individualismo utilitarista levado ao extremo transforma o simples desejo em “direito humano”.

A defesa liberal da emancipação individual em relação ao poder das tradições [seja a de Passos Coelho, seja a de Francisco Louçã] é acompanhada pelo aumento da tutela da organização burocrática, em que a afirmação da singularidade inquestionável das pessoas concretas é acompanhada pela sua equivalência abstracta em um anonimato generalizado — ou seja, o surgimento da “sociedade atomizada”, de que nos falou Hannah Arendt —, em que o reconhecimento social de toda a espécie de direitos e de liberdades tem como contraponto o retraimento narcísico dos indivíduos e o seu desinteresse pela coisa pública.

A omnipresente encenação da liberalização dos costumes — seja da parte de Passos Coelho ou de José Pacheco Pereira, seja da parte de Francisco Louçã ou de Manuel Alegre — encobre a propensão para um mimetismo, um conformismo e um seguidismo sem precedentes. Ao liberalismo segue-se inexoravelmente um qualquer totalitarismo.

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2 comentários »

  1. De acordo! Inexoravelmente! Os meus «Vivas ao Salazar!» são o reflexo da certeza que tenho que este «liberalismo» nos vai conduzir a um novo totalitarismo. Os tios não tomam juízo. Não se cultivam verdadeiramente. Ou não assimilam o que lêem.

    Comentar por Henrique Sousa — Segunda-feira, 19 Março 2012 @ 11:45 am | Responder

    • Henrique:

      O Estado Novo de Salazar não foi propriamente um totalitarismo, assim como a ditadura militar no Brasil não foi um totalitarismo. Hannah Arendt explicou muito bem as características do totalitarismo, que não são as mesmas de uma qualquer ditadura. Desde logo, o totalitarismo atomiza a sociedade — transforma um cidadão em um átomo, isolado face ao Estado. Ora, o Estado Novo baseou-se na máxima Deus, Pátria e Família, sendo que a família era considerada muito importante por Salazar.

      Uma das características do totalitarismo é a destruição da família [a atomização do cidadão face ao Estado]. Por exemplo, na Alemanha de Hitler, as crianças eram doutrinadas na escola a criticar os respectivos pais e a desobedecer-lhes. Esta característica do totalitarismo verificou-se também na URSS e sobretudo na China de Mao-tsé Tung, mas também no Cambodja dos Kmers Vermelhos.

      O corte epistemológico com o passado histórico é outra característica do totalitarismo — o que não aconteceu com o Estado Novo: pelo contrário, a História de Portugal era glorificada pelo regime de Salazar. Ora, esse corte epistemológico com o passado aconteceu com o nazismo na Alemanha, com o comunismo na URSS, na China, no Vietname, no Cambodja, etc. — mas não aconteceu com o Estado Novo.

      Quando eu falo no advento de um totalitarismo, é mesmo um totalitarismo e não de uma ditadura. Naturalmente que uma ditadura não está fora de hipótese, no futuro; mas penso que não é uma “probabilidade pesada”.

      O novo totalitarismo não traz um sinal chapado na testa: trata-se de um fenómeno novo que só é identificável através de sinais comuns aos totalitarismos do passado. A maioria das pessoas só se aperceberá desse novo totalitarismo quando o sistema totalitário estiver plenamente instalado e enraizado, e atingir um ponto de não-retorno senão através da violência extrema que o contrarie.

      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 19 Março 2012 @ 2:29 pm | Responder


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