perspectivas

Quinta-feira, 15 Março 2012

Entre a revolução e a revelação

Isilda Pegado fala aqui em “nova mentalidade”, e dei comigo, perplexo.

Afinal, a nova mentalidade necessária para sairmos do buraco civilizacional em que nos metemos é velha de pelo menos dois milénios. Fiquei, por segundos, perplexo, porque normalmente essa “nova mentalidade”, de que fala a Isilda Pegado, é considerada pela ruling class [1] como sendo “a velha mentalidade”; e, sobretudo, a elite intelectual orgânica ou cientificista, considera essa “nova mentalidade” como expressão de um obscurantismo — por exemplo, ainda não vai muito tempo li num verbete de um blogue composto por distintos universitários — que compõem a tal intelectualidade orgânica e/ou cientificista — a ideia segundo a qual só nos países subdesenvolvidos, as mulheres têm muitos filhos. Ora, a minha mãe é professora reformada, filha e neta de professoras, e teve dez filhos; e na geração da minha mãe, era normal uma mulher ter mais de dois filhos.

Como podemos definir o novo? Como podemos saber se uma mentalidade é nova?

O humorista brasileiro José de Vasconcelos dizia, com alguma piada, o seguinte: “Há uma frase que diz: ‘renovar ou morrer’. Vamos renovar!”. Entre renovar e morrer, o novo está sempre e invariavelmente naquilo que dá a vida. A nova mentalidade é aquela que renova e recria a realidade humana, em vez de a aniquilar. Do verbo “aniquilar” deriva o substantivo “niilismo”.

O niilismo — que corresponde à noção de aniquilar, de destruir — começou por ser “activo”, quando foi intuído, praticado e recomendado pela ruling class europeia a partir do modernismo. Segundo Nietzsche, o “niilismo activo” é “força violenta de destruição”; este niilismo activo é uma característica predominante das elites contemporâneas [ruling class]. Porém, o cidadão comum, em geral, não participa deste niilismo activo: em vez disso, o cidadão comum enforma hoje daquilo a que Nietzsche chamou de “niilismo cansado, que já não ataca nada”, mas que não é menos prejudicial para as consciências europeias.

O “niilismo cansado”, segundo Nietzsche, é a expressão do cidadão actual que baixa os braços quando em face da dissonância cognitiva massiva que as elites fomentam e propagam na cultura antropológica — principalmente através dos me®dia — em função do seu “niilismo activo”.

Temos de reconhecer, todos nós, um facto insofismável: fazendo um juízo universal, as nossas elites são “niilistas activas”, no sentido nietzscheano do termo. Utilizando uma linguagem característica de Eric Voegelin: os gnósticos [modernos] assumiram o poder e comandam, hoje, a História; o “niilismo activo” não é apenas um fenómeno civilizacional coevo: é uma característica gnóstica de todos os tempos — assim como a “nova mentalidade” não tem tempo: ela existe em todos os tempos.

A solução que a Isilda Pegado dá para o problema da nossa sociedade é a óbvia: a necessidade de uma revelação na educação — e não já de uma revolução na educação. A “revelação” designa, do ponto de vista etimológico, o facto de se velar novamente o que foi desvelado e profanado pela revolução. A revelação é a base da nova mentalidade.

[1]

A ruling class é, segundo os ingleses, o conjunto constituído pelas elites académicas, políticas, intelectuais orgânicas ou os “livres pensadores” [que de “livres” têm muito pouco] e científicas.

1 Comentário »

  1. Esses “bem-pensantes” já (me) enjoam…
    Quando se começa a ter que explicar que um casal e um par não são a mesma coisa, algo vai podre no reino de qualquer Dinamarca…
    Digo sempre a mesma coisa: a Família é a entidade, por excelência, a abater por parte dessa gente; TUDO está encaminhado nesse sentido, e, por via disso, não me surpreenderia muito que, à semelhança da Economia que tem o seu instituto moralizador – a falência – a Sociedade, algures num futuro mais ou menos próximo, venha a sofrer (de) o seu elemento moralizador – a guerra – que, ao que vejo, será a única maneira de se limpar desta porcaria que já fede há tempo de mais.
    Cumpts

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    Comentar por Inspector Jaap — Quinta-feira, 15 Março 2012 @ 6:42 pm | Responder


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