perspectivas

Quinta-feira, 1 Março 2012

As leis da física apontam para o Ser de Deus

Filed under: filosofia,Quântica — O. Braga @ 9:22 pm
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«A segunda lei da termodinâmica ou segundo princípio da termodinâmica, expressa de uma forma concisa, que “a quantidade de entropia de qualquer sistema isolado tende a aumentar com o tempo e de uma forma espontânea, até alcançar um valor máximo”.»

via Segunda lei da termodinâmica – Wikipédia, a enciclopédia livre.

Quando o telescópio Hubble descobriu que o universo estava em expansão, a comunidade científica, em geral, tornou-se anti-científica; a ciência passou a negar o empirismo. E desta negação do empirismo nasceram as teorias do Multiverso que constroem uma realidade que repõe a infinitude do universo que existia antes do Hubble. Vemos, neste caso, como um paradigma científico se pode virar contra a própria ciência e, mesmo assim, ser aceite por uma grande parte dos membros da comunidade científica.

A teoria do Multiverso significa o seguinte: se o universo está em expansão — e, por isso, se existiu um início do universo [o Big Bang] —, então a realidade do universo, em si mesma, é “perigosa” porque pode ser também corroborada pelo mito bíblico da Criação. Ora o tradicional entendimento científico é o de que a ciência é visceralmente anti-religiosa; e toda e qualquer teoria ou paradigma científicos que se demarquem do criacionismo bíblico será, em princípio, bem aceite.

Escrevi aqui como Galileu se enganou rotundamente acerca dos movimentos das marés, e só porque tinha na sua mente um fortíssimo preconceito anti-religioso. E o síndroma anti-religioso de Galileu é hoje incomparavelmente mais forte do que na época do italiano.


A ciência anterior ao Hubble partia do princípio de que o universo era um sistema fechado; e a teoria do Multiverso não altera esse princípio, porque o conjunto constituído pelos “múltiplos versos” [Multiverso] não deixariam de constituir em si mesmo, ad liminem, um sistema fechado. A teoria do Multiverso apenas faz retroceder, ad infinitum, o problema do Ser: “porque é que existe algo em vez de nada?” (Leibniz). A teoria do Multiverso é apenas um substitutivo da concepção clássica de um universo infinito, sem tempo e espaço mensuráveis.

Portanto, segundo a ciência, [e com ou sem Multiverso], o universo é um sistema fechado.

Seria lógico pensar-se que, sendo o universo um sistema fechado, a entropia [de acordo com a segunda lei da termodinâmica] também seria infinita — o que seria não só uma contradição nos termos, mas também seria mais uma negação, por parte da ciência, dos factos e da verificação empírica: é um facto e uma evidência que existe uma ordem no universo [uma diminuição da entropia!], e que existem estruturas organizadas que decorrem de uma diminuição da entropia inicial e fundamental.

A aplicação do princípio da entropia ao universo [entendido como sistema fechado] significaria que o conjunto das probabilidades quânticas da realização dos acontecimentos iria sendo reduzido com a passagem do tempo, sendo que toda a evolução física se produziria no sentido de estados cada vez mais prováveis. Ou seja, a aplicação literal da segunda lei da termodinâmica ao universo — entendido como sistema fechado —, entra em contradição com a verificação empírica da realidade do universo. A verdade é que, a existir alguma mudança entrópica a nível universal, a entropia diminuiu no universo a partir do momento do Big Bang.

O grande erro de Hegel, que se reflectiu depois em Karl Marx, Heidegger, e nos descontrucionistas em geral, foi o de partir do princípio da validade da entropia aplicada ao universo [talvez de forma inconsciente], quando o que se passa na realidade é que, empírica e aparentemente, o universo se “desenrola” contra o “enrolamento” entrópico [do grego “entrope”, que significa “enrolamento”]. A noção hegeliana de “Fim da História” procede do princípio da entropia [erradamente] aplicado ao universo: a História, segundo Hegel e Karl Marx, entrava agora em um estado progressivo de não-diferenciação e no qual as possibilidades quânticas dos acontecimentos iriam sendo diminuídas à medida da passagem do tempo. Ora, o que acontece com a realidade física do universo é exactamente o contrário disso.

Portanto, por dedução lógica em função da verificação dos factos e das evidências, o universo ou Multiverso não são sistemas fechados em si mesmos — o que significa que aquilo que se passa no universo [ou nos “múltiplos versos”] não pode ser explicado somente mediante aquilo que existe ou acontece no universo. A ciência física já constatou que existem “pontos de ligação” entre a realidade quântica imanente, por um lado, e a realidade material macroscópica, por outro lado; mas esses pontos de ligação entre o mundo quântico e o mundo macroscópico não resolvem o problema da evidência da negação da entropia aplicada ao universo, e não explicam a necessidade de uma “ligação” com uma causa exterior ao próprio sistema do universo [entendido como sistema fechado].

Essa “ligação” com uma causa exterior ao próprio sistema do universo — a transcendência — significa uma ligação a “algo” que é exterior ao universo [e que interage com a realidade macroscópica mediante a realidade imanente e quântica], e portanto, esse “algo” não pertence ao universo. E se esse “algo” não pertence ao universo [ou ao Multiverso], a natureza do Ser desse “algo” também não coincide com, nem obedece às leis do universo.

Chamem a esse “algo” o que quiserem: causa-primeira, primeiro motor, ou Deus; mas Ele é, porque nada pode vir do nada, e porque tudo vem de alguma coisa e existe um limite para a regressão ad infinitum: por exemplo, embora os números naturais integrais ou inteiros “progridam” infinitamente para N+1, apenas podem regredir a 1; abaixo de 1 não existem números naturais integrais.

4 comentários »

  1. Na verdade, nunca tinha pensado neste problema com esta profundidade. Se a entropia baixa, consequentemente, as possibilidades quânticas aumentam, o que na verdade não representa o fim da história, mas sim, o seus inícios. Penso que nem todos os cientistas têm um sentimento anti-religioso, mas olhando à questão da transcendência, será possível supor que ela seria representada no plano científico pela gravitação quântica? É que este problema da gravitação quãntica é um dos principais “espinhos” da actual física quântica, foge totalmente aos parâmetros do modelo padrão (embora se admita que este modelo padrão está ainda incompleto..). O que lhe parece esta hipótese? fará sentido?

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    Comentar por Filipe Crisóstomo (@Skedsen) — Sexta-feira, 2 Março 2012 @ 2:35 pm | Responder

    • “o que na verdade não representa o fim da história, mas sim, o seus inícios.”

      A História é entendida como a História do Homem, e não a história do universo. Mas o que eu pretendo é dizer que se traçarmos um paralelismo lógico entre a dinâmica da história do universo e a História — como um conjunto de probabilidades de acontecimentos —, então a noção de fim da História de Hegel torna-se absurda.

      Também não podemos dizer que a História está no seu início, porque tal como o universo, o Homem ontológico teve um início. E não podemos dizer quando o Homem tem o seu fim, e por isso não podemos vaticinar o fim da História. A História, tal como todo o universo, renova-se a cada segundo cósmico, e essa renovação é realizada a partir de fora do universo que engloba a realidade macroscópica e a realidade quântica. Não fosse essa renovação constante do universo — e da História — este desapareceria no olvido em apenas alguns segundos cósmicos.

      Edgar Morin — que como sabemos é um materialista — demonstrou a extrema dificuldade na compreensão da noção correcta da História com a seguinte proposição:

      “Os homens fazem a História que os faz; a História faz os homens que a fazem; e os homens fazem a sua história sem a fazer.”

      Portanto, quem diz que “os homens fazem a História” é um idiota.

      “questão da transcendência, será possível supor que ela seria representada no plano científico pela gravitação quântica”

      Eu penso que a gravitação quântica — e toda a realidade quântica — faz parte da realidade imanente. Em relação à transcendência, podemos falar da sua forma, mas nunca do seu conteúdo, porque a linguagem da transcendência não pode ser traduzida em termos do racionalismo humano que está condicionado pela realidade macroscópica em que existe. A transcendência não existe: a transcendência é [Eu sou Aquele que É].

      A realidade quântica está muito próxima do espaço-tempo [interage com o espaço-tempo], e portanto serve de charneira entre a realidade macroscópica e a transcendência.

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      Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 2 Março 2012 @ 5:53 pm | Responder

  2. Talvez seja este caso mencionado no postal, mas vale a pena citar: segundo Thomas F. Berthoneau no excelente ensaio “Gnosticismo de uma perspectiva não-Voegeliana”, também é marca do gnosticismo, a obscessão com o tema da criação.

    Berthoneau diz que o gnosticismo, por ser uma religião anti-cósmica, sofre de uma espécie de “ódio mimético” em relação ao livro do Gênesis: enquanto o Gênesis dedica poucas linhas ao tema da criação, os gnósticos por sua vez escrevem imensos tratados sobre o assunto, numa tentativa de “superar” a explicação biblica.

    I. It would not be surprising if the manifestos of an anticosmic religious movement exhibited an obsession with cosmology, as the Gnostic texts emphatically do, for such is the nature of mimetic antipathy. This fact is significant in that an observable trend in mythic narrative – beginning say with Enuma Elish, the Babylonian “Creation,” or Hesiod’s Theogony and ending say with Genesis – is to elide or entirely eliminate the many prehuman phases of creation, while concentrating on anthropogenesis and its sequels almost exclusively. One might hazard the thesis, even, that when myth relinquishes its engagement with the details of physical creation and begins to focus on anthropology – hence also on ethics and other things specifically human – it ceases to be myth and rises to the level of real religion in the higher, reflective sense. Otherwise it remains myth. Thus Enuma Elish devotes nine tenths of its eight hundred or so lines to recounting how determinate nature acquired its form through the archetypal combat of Marduk, a male principle of the second divine generation, with Tiamat, a female principle of the first divine generation; and how, on slaying Tiamat, Marduk used her dismembered body to establish the structure of familiar existence. Man, called Adapa or Adama, does not appear in the narrative until the seventh tablet, but then only as a wretched temple-servant of Marduk and the younger gods.

    In Genesis, by contrast, the business of physical creation demands only a few lines. The author obviously considers the details of physical creation relatively unimportant; the basic gestures are all that he finds necessary to record. Ninety-nine per cent of Genesis has to do with Adam and Eve and their offspring, with us, the crooked timber of humanity. Gnostic discourse, in reacting to the cosmological minimalism of Jewish and Christian creation-narrative, represents therefore a distinct throwback, not a speculative or philosophical advance, as modern apologists of Late-Antique religious reaction maintain. Consider The Tri-Partite Tractate and The Origin of the World, two texts from the Nag Hammadi cache that are related to Valentinian Gnosticism.

    http://www.brusselsjournal.com/node/4452

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    Comentar por Marcelo R. Rodrigues — Sábado, 3 Março 2012 @ 5:45 am | Responder

    • De facto, o naturalismo contemporâneo é uma religiosidade gnóstica; não só na medida em que é anti-bíblica e anti-cristã, mas também porque possui algumas características das religiões do neolítico. E hoje confunde-se naturalismo com ciência.

      Esta ideia de Berthoneau já existia, muito antes dele, em Hans Jonas. Portanto, não podemos dizer que é de Berthoneau.

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      Comentar por O. Braga — Sábado, 3 Março 2012 @ 1:56 pm | Responder


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