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Quarta-feira, 29 Fevereiro 2012

A mentira ‘segura e profunda’ de Espinoza

Filed under: ética,filosofia — orlando braga @ 3:06 pm
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Ainda em relação a um postal anterior sobre a ética de Espinoza:

Podemos aplicar à ética de Espinoza o princípio do poeta Aleixo exarado nesta quadra: “P’rá mentira ser segura / e atingir profundidade / tem que trazer à mistura / qualquer coisa de verdade”. Espinoza é perigoso porque a sua “mentira é segura” porque transporta consigo algumas verdades empíricas.

Vamos dar aqui um pequeno exemplo da mentira segura e profunda de Espinoza.

“O bom é o que nós sabemos com certeza ser útil.” — Espinoza, “Ética”, IV

Vamos fazer de conta de que não existe nesta proposição de Espinoza um sofisma naturalista, e passar adiante: o que significa “sabemos com certeza”? Como é possível “saber com certeza”?

Simplesmente, não é possível ter a “certeza de saber”, porque o saber — no sentido de “conhecimento racional” — não é compatível com a certeza. Um cientista [naturalista] não pode dizer, por exemplo: “eu tenho a certeza de que não existe o Bosão de Higgs”; ou “eu tenho a certeza de que a idade do universo é de cerca de 14 mil milhões de anos-luz”. Como é que, em termos estritamente racionais — repito: em termos estritamente racionais —, se pode ter a certeza de alguma coisa?!

Toda a ética de Espinoza parte de princípios irracionais como o deste exemplo e, surpreendentemente, em nome da razão…! É nesta “razão irracional” de Espinoza que reside a “mentira segura e profunda”, porque a “mentira” espinoseana transporta consigo uma qualquer verdade empírica [nota: uma “verdade empírica” não é uma “certeza”]; e é, neste caso, a partir dessa verdade empírica — que não é uma certeza — que Espinoza constrói a “certeza do conhecimento” daquilo que é “útil”, e portanto, “bom”.


Na minha opinião, as obras de Maquiavel, Espinoza, Hume e Nietzsche deveriam ser objecto de edições anotadas [a exemplo das edições anotadas da Constituição Portuguesa], de modo a impedir que incautos leitores fizessem uma interpretação errada desses textos.


A partir de um princípio falacioso [neste caso, como poderia mencionar muitos outros] e, portanto, errado, Espinoza espraia a sua perversidade ética, e em nome da ética…!

Neste caso concreto, Espinoza serve-se da proposição falaciosa supracitada para relativizar “racionalmente” as noções de bem e de mal.

Espinoza diz que “a realidade é perfeita”. Entenda-se aqui “realidade” como sendo “Natureza”. Portanto, segundo Espinoza, a Natureza é perfeita. E porque é que a Natureza é perfeita? Espinoza diz que a Natureza é perfeita porque coincide com a “perfeição divina” [Deus sive Natura]; e quando, por exemplo, dizemos que “Hitler foi um monstro”, a alegada monstruosidade de Hitler explica-se pelas leis universais da Natureza que — segundo Espinoza — coincidem com Deus. Portanto, segundo o “príncipe dos filósofos”, a “putativa” monstruosidade de Hitler faz parte da natureza de Deus.

Segundo Espinoza, o facto de alguém dizer que “Hitler é um monstro” deve-se a uma deficiência de análise que se prende com uma “norma exterior” [ao objecto analisado] que se afasta da realidade [Hitler, neste caso] considerada.

Existe neste conceito de Deus sive Natura um gnosticismo invertido [relativamente ao gnosticismo da antiguidade tardia] que não deixa, por isso, de ser uma forma de gnosticismo. Enquanto que na antiguidade tardia o gnosticismo separava radicalmente a Natureza, por um lado, da transcendência, por outro lado, e reduzia a realidade concreta à imanência — Espinoza também separou radicalmente a Natureza, da transcendência, eliminando radicalmente esta última; e transformou toda a realidade — incluindo Deus — em pura imanência: estava aberto o caminho ideológico para Hume, Nietzsche, Richard Dawkins e Peter Singer.

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