perspectivas

Domingo, 19 Fevereiro 2012

Um recado de Agustina Bessa-Luís aos “engenheiros sociais”

Filed under: cultura,gnosticismo,religiões políticas — O. Braga @ 8:27 am

A cultura nunca poderá ser um factor estratégico de mudança. Se é estratégia, não é cultura. Faz-se apelo à cultura como estratégia de mudança, tentando resolver a condição perturbadora do homem culto, munido de culpabilidade inconsciente, ou simplesmente isento da culpabilidade pelo sofrimento. Isso não é possível. A cultura não se enquadra na totalidade política.

Há um grave mal-entendido quanto a isso. A cultura não significa o conforto da neutralidade, a irónica graduação da expectativa, a ginástica do não-compromisso. Significa um enraizamento em si mesmo, que conserva no homem a faculdade de julgar.
Não é contrária à acção, mas é condição necessária para que a acção seja serena e útil, e não impaciente e desordenada.

Não se trata de racismo espiritual; não se trata da pretensão de existir à parte da história política do mundo. É a intenção absolutamente necessária de ser livre, face aos acontecimentos, qualquer que seja a lógica que os liga.

A cultura é o que identifica um povo com a sua finalidade.

«A Cultura não se Enquadra na Totalidade Política» (Agustina Bessa-Luís, in ‘Dicionário Imperfeito’) — respigado do Facebook; o sublinhado é meu, obviamente.


Neste pequeno trecho, Agustina Bessa-Luís [ou será, segundo o Acordo Ortográfico, Agustina Bessaluís ? 🙂 ] resume simultânea e sinteticamente a crítica ao neognosticismo (ou gnosticismo moderno), ao relativismo ético que resulta do neognosticismo, e às ideologias hegelianas do “fim da história” (sejam estas, por exemplo, a de Karl Marx ou de Hayek).

A cultura não pode ser estratégia de si mesma; não é possível utilizar a cultura como estratégia de “progresso da opinião pública” ou de mudança cultural, a não ser que se trate de uma ilusão intelectual que o tempo se encarregará de destruir. Não é possível que os intelectuais e ideólogos façam um “Epoché cultural”, se divorciem da realidade, para depois impôr uma mudança cultural — como se fossem alienígenas que vêem a cultura de cima para baixo, sem terem sido “infectados” por ela [o puritanismo coevo].

Uma das características do neognosticismo é a ideia de “imunidade cultural” dos novos gnósticos que contraria a lógica dos sistemas, segundo Gödel (1). O gnóstico moderno considera-se superior à realidade do comum dos mortais [o gnóstico considera-se pertencente a um sistema superior]; considera-se imune à cultura e, por isso, capaz de a instrumentalizar [porque considera a cultura estranha e inferior a si mesmo] como uma estratégia de mudança social mediante engenheiras sociais e em função de um determinado delírio interpretativo (2) da realidade.


1) Segundo o teorema de Gödel, é impossível demonstrar a não-contradição de um sistema (bastante rico) pelos seus próprios meios, ou mediante meios mais fracos. Por exemplo, um computador suficientemente complexo para simular o trabalho cerebral, e submetido a um rigoroso determinismo no que respeita ao seu mecanismo e às permutas com o exterior, não permite calcular, em um tempo t, o que ele (computador) será num tempo t+1 — só o consegue na medida em que a sua determinação, por si só incompleta, estiver submetida à determinação de um outro computador de ordem superior, mas que, nesse caso, também não está de modo nenhum inteiramente determinado por si mesmo; e assim consecutivamente, ad infinitum.


2) Segundo o conhecido psiquiatra francês Paul Sérieux, o elemento fundamental da condição psicopatológica do delírio interpretativo da realidade é a predominância de “um raciocínio falso que tem como ponto de partida uma sensação real, um facto exacto, o qual em virtude de associações de ideias ligadas às tendências e à afectividade, e através de induções ou deduções erradas, acaba por adquirir para a pessoa em causa uma significação pessoal e sue generis, pela qual tudo se coloca inexoravelmente em relação e em torno desse facto”.

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