perspectivas

Segunda-feira, 6 Fevereiro 2012

O Rei está para além do Estado

Filed under: Portugal — O. Braga @ 3:39 pm
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Este texto é, em parte [sublinho: em parte], um equívoco:

D. Duarte Pio de Bragança

O Rei nada tem a ver com o Estado, porque o Rei já existia antes do Estado.

O facto de o Rei ser o Chefe-de-estado moderno é um facto “acidental” — segundo o conceito aristotélico de “acidente”. O Rei não tem nada a ver com o Estado, na mesma relação de que o casamento não tem nada a ver com o Estado: ambas as instituições já existiam antes do Estado!

Estabelecer um nexo causal directo entre o Rei e o Estado é um erro de palmatória! Seria o mesmo que dizer que o olho existe em função da visão; ou dizer que uma pessoa tem pernas porque anda; ou que uma pessoa é livre porque age, quando na verdade a pessoa age porque é livre…!

O Rei não se reduz ou se limita à pessoa do rei. O Rei é uma instituição que se fundamenta no nacionalismo integral de Teixeira de Pascoaes. O Rei está para além do Estado, e está fundamentado na Nação. Nação e Estado não são a mesma coisa.

E chegados aqui, temos que definir “nação”:

“A nação é o conjunto de indivíduos que estão fundamentalmente ligados por laços históricos, culturais, por interesses, necessidades e aspirações comuns; povo; raça; pátria”.

Ressalto aqui o qualificativo “fundamentalmente”, que remete para o fundamento, para a raiz, para a origem. E também as “aspirações comuns”, que remetem para o desejo de um futuro e de auto-preservação.

Portanto, segundo a definição de “nação”, o nacionalismo não deve ser apenas e só o “nacionalismo tradicionalista” [segundo Fernando Pessoa; ler as obras em prosa de Fernando Pessoa], nem tão pouco o “nacionalismo sintético” [segundo o mesmo Fernando Pessoa], que se vê traduzido no texto supracitado. O nacionalismo não diz respeito preponderantemente ao passado [nacionalismo tradicional], nem preponderantemente ao futuro [nacionalismo sintético].

A Nação e o Rei não têm tempo, porque são instituições que advêm directamente da lei natural — e por isso é que não existe “um pretendente ao trono”: existe o Rei! Não é o trono que faz o Rei: é o Rei que faz o trono. E é também por isso que o nacionalismo deve ser integral [intemporal], segundo a ideia de Teixeira de Pascoaes.

[ ficheiro PDF ]


Em aditamento, queria-me referir também a este postal na Casa de Sarto:

Penso que o problema da república não é só e apenas a revolução cultural anti-cristã, como está expresso no texto; mas antes é um problema mais amplo e que diz respeito a uma revolução anti-religiosa. A república é a promoção do ateísmo; ou, como escreveu Teixeira de Pascoaes: “o republicano é ateu porque pensa que Deus está feito com a monarquia.”

Antes de D. Manuel I e de D. João II, já vivíamos em monarquia, e judeus e cristãos viviam em Portugal em harmonia. Eu sou católico mas aceito o ecumenismo religioso; as origens portuguesas são católicas, mas nem por isso a boa tradição portuguesa condenou o Judaísmo ao ostracismo social e político — salvo em períodos de irracionalidade política.

Neste sentido, e dado o facto de a matriz religiosa e cultural portuguesa se escorar maioritariamente no catolicismo, outros credos religiosos, como por exemplo o Judaísmo e as igrejas luteranas, não devem, na minha opinião, ser afastados do conceito de “nação” — e por maioria de razão porque as igrejas protestantes têm profundas raízes cristãs, por um lado, e porque a apologética católica está ligada ao Judaísmo, por outro lado.

Nos casos das monarquias do Reino Unido, Holanda, e Dinamarca, por exemplo, tem sido a instituição da monarquia que impediu, até agora, uma maior radicalização política anti-natura e neognóstica. A rainha inglesa não é parte do problema cultural inglês contemporâneo: antes, é a “espinha cravada na garganta” do radicalismo secularista e ateísta, e de tal modo que nem os radicais ateístas ingleses se atrevem, por enquanto, a colocar em causa a monarquia; mas lá chegará o dia da nova república puritana inglesa, desta feita assumida publicamente pelos novos radicais neognósticos, como aconteceu com os puritanos no tempo de Cromwell…

E o mesmo se passa em Espanha e na Bélgica, com uma diferença: a Espanha — ao contrário de Portugal que é uma nação homogénea — é uma “nação heterogénea”, o que atribui ao Rei [com maiúscula, porque o Rei não é só a pessoa do rei] de Espanha um estatuto e papel extraordinários.

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