perspectivas

Domingo, 22 Janeiro 2012

A crítica neoliberal ao Distributismo

Nesta crítica neoliberal ao Distributismo, vemos duas citações, uma de Hayek e outra de Von Mises, que raiam o cinismo: em suma, a lógica das citações é a seguinte: “se a minha avó não tivesse existido, eu não existiria”.

O Distributismo corre o risco de se transformar em uma ideologia política baseada em uma utopia de tipo Thomas More, mas o Neoliberalismo já não corre esse risco: já é uma utopia e uma ideologia política, como o Marxismo é uma utopia e uma ideologia política; tanto no caso do Marxismo como no Neoliberalismo [Hayek e comandita], a teoria passou a ideologia, e da ideologia surgiu o dogma.


Em Inglaterra, onde surgiu a revolução industrial, e no tempo em que Locke viveu, o trabalhador rural, em geral, cultivava os baldios em uma empresa familiar — os baldios eram uma espécie de “terra de ninguém”; existia, então, o direito natural do camponês em cultivar as terras baldias; esta tradição do cultivo dos baldios vinha já da Idade Média.
Porém, a elite moderna inglesa considerava o cultivo dos baldios, por parte das famílias camponesas, como sendo prejudicial à produção e, em consequência da força das elites na sociedade inglesa, surgiu então um movimento para a vedação dos baldios a partir de 1750. Em consequência desse movimento elitista, os baldios foram encerrados e foram entregues a proprietários locais [latifundiários].

Cada encerramento de um baldio exigia uma autorização do parlamento inglês, e as elites dominantes usavam o poder do parlamento para enriquecer e lançar centenas de milhares de famílias camponesas na pobreza e mesmo miséria. Surgiu, então e pela primeira vez desde o tempo da peste negra na Europa medieval, a fome em Inglaterra.
Com a revolução industrial que entretanto se desenvolvia, essa mole humana camponesa, deserdada e faminta, emigrou para as cidades, onde estavam situadas as fábricas. Portanto, o encerramento dos baldios em Inglaterra coincidiu com a industrialização das cidades, o que só um tolo consideraria como sendo pura coincidência.

Em suma, a revolução industrial coincidiu com o processo de concentração da produção agrícola, por via legal mas não legítima, e que beneficiou a concentração da riqueza nas elites inglesas.
E dizer que “se não fosse a revolução industrial e o Iluminismo, a população não teria crescido”, é o mesmo que dizer que “se a minha avó tivesse rodas seria um autocarro”.


A supracitada crítica neoliberal ao Distributismo evoca Carl Menger e o Utilitarismo Marginal como um cavalo-de-batalha. Vamos recordar aqui, a traço grosso, quais os princípios norteadores da teoria de Carl Menger e Walras. O que vou dizer a seguir é absolutamente verdade e desafio quem quer que seja que me desminta.

Por volta de 1870, simultaneamente em França [ León Walras ], em Inglaterra [ Stanley Jevons ] e na Áustria [ Carl Menger ] surgiu uma visão radicalmente subjectivista da “utilidade”, na economia. Essa visão da utilidade defendia a ideia segundo a qual “é útil, e de uma forma exclusiva, aquilo que o indivíduo julga como tal em um determinado momento”. Carl Menger escreve: “é útil a oração para o homem santo, mas também é útil o crime para o criminoso”. Este utilitarismo subjectivista coincide com o utilitarismo anti-utilitarista de Nietzsche que marcou o século XX, não só através das teorias neoliberais de Hayek, como também mediante o Objectivismo ultra-individualista de Ayn Rand.


O que é comum a um militante ideologicamente consciente do Bloco de Esquerda, por um lado, e a um neoliberal dogmático, por outro lado, e entre outras coisas, é a prevalência desta visão da “utilidade marginal” de Carl Menger assimilada por Nietzsche, segundo a qual “a utilidade é legítima enquanto desejo individual, e apenas limitada pela lei — que pode ser discricionariamente mudada.” E foi esta mundividência que se desenvolveu plenamente no chamado pós-modernismo que garantiu a Hayek o prémio Nobel da economia, e que nos trouxe à actual crise económica que tem a sua origem em uma profunda crise de valores éticos e morais.

E é por isso que me espanta que um neoliberal tenha o despudor de criticar o Distributismo.

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: