perspectivas

Quarta-feira, 28 Dezembro 2011

O “X” de Kant, ou a “alma” de Platão

Filed under: filosofia — O. Braga @ 12:01 am
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O “X” de Kant e a “alma” de Platão são conceitos semelhantes.

O que me leva a desprezar os naturalistas é apenas e só o facto de estes se recusarem a pensar; esta recusa do pensamento é anti-natura, em função daquilo que Kant definiu como sendo o “X” da condição humana.

Se imaginarmos alguém que afirma, de uma forma implícita: “eu não penso”, esse alguém é concerteza um naturalista; mas se o naturalista “pensa que não pensa”, pretende que a forma como “ele pensa o seu não-pensamento” seja considerada verdadeira e elevada a norma. É esta esquizofrenia intelectual do naturalista que me merece o maior desprezo.

Immanuel Kant chamou à atenção para o facto de nós termos sempre de acrescentar um suplemento a todos os nossos pensamentos, independentemente daquilo que estamos a pensar: a frase “eu penso”. Sem a consciência de que “sou eu que penso”, não existe qualquer pensamento que mereça esse nome. Sem a autoconsciência de que a consciência se pensa a si mesma, não é possível qualquer conteúdo dessa consciência.

Um computador pode percorrer o seu programa sem este “eu penso”, mas não pode, por isso, pensar como um ser humano. No “eu penso” do sujeito humano, todos os conteúdos da consciência estão ligados; o “eu penso” do humano é a condição lógica de qualquer pensamento — constitui o último ponto de referência lógico e o ponto de unidade de todo o conhecimento. Na linguagem de Kant: o “eu penso” é a condição da possibilidade do pensamento.

Este “eu penso”, de Kant, é o “X” da condição humana. Não é possível reconhecer este X, porque qualquer acto de pensamento o pressupõe: o X é anterior ao próprio pensamento. — e por isso é que nenhum computador tem ou alguma vez terá este X.

A comparação que os naturalistas fazem entre um computador, por um lado, e um ser humano, por outro lado, é uma estupidez de uma grandeza elevada à potência infinita; é uma estupidez sem classificação possível…!

3 comentários »

  1. Na nossa civilização actual faz-se tudo para “endeusar” o computador, sendo bem visível que esse desiderato já se manifesta em pleno.
    A autoconsciência tem a ver com planos mais subtis, e como o homem actual não acredita em nada, sendo ou ateu ou agnóstico em potência, para ele, o homem actual, a autoconsciência não é para ser levada a sério. Erro crasso, mas nada disso importa para uma sociedade que está mergulhada no conformismo utilitarista e na negação de tudo quanto os nossos comuns sentidos não alcancem.

    O computador pretende substituir o homem na escala temporal e antropológica. A máquina passa a mandar no homem.
    A inversão e a deturpação da ordem natural das coisas provocará a médio prazo a ruína da civilização, pois, como muito bem diziam os mestres da antiguidade: «Todo o progresso tecnológico que não seja acompanhado do devido progresso espiritual está condenado à auto-destruição.»

    As pessoas que comparam o computador ao homem, estão intoxicadas pela série de disparates que o naturalismo de raíz iluminista se revestiu. A queda dos valores, da verdadeira espiritualidade e do sentido religioso foram os iniciadores deste processo, o homem a ser progressivamente substituído pela máquina.

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    Comentar por Filipe Crisóstomo (@Skedsen) — Quarta-feira, 28 Dezembro 2011 @ 2:07 pm | Responder

  2. Segundo Odec, na época que inventaram o relógio, também havia estas modas de mecaniscismo.

    Trabalho com informática e des. de softwares, e acho imensa bobagem tais comparações. Inclusive o mecanismo de sinapse cerebral é totalmente diferente do transistor, ao contrário do computador onde a informação tem uma localização fixa, as informações do pensamento humano por sua vez, não são localizaveis, elas mudam de “lugar” com as sinapses constantes.

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    Comentar por Marcelo R. Rodrigues — Quarta-feira, 28 Dezembro 2011 @ 3:32 pm | Responder

    • Marcelo: o “mecanicismo” vem de trás: pelo menos, desde Descartes.

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      Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 28 Dezembro 2011 @ 9:57 pm | Responder


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