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Sexta-feira, 23 Dezembro 2011

Natal é “quando o Homem quer” ?

Filed under: cultura,politicamente correcto,Religare — O. Braga @ 12:29 pm
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É vulgar dizer-se, hoje, que “Natal é quando o Homem quiser”, no sentido em que a solidariedade humana não tem um tempo específico para existir. Parte-se aqui do princípio segundo o qual as pessoas são tradicionalmente solidárias apenas — ou na maior parte das vezes — na quadra natalícia, e por isso, é necessário que o Natal seja todos os dias. Ora, esse princípio está errado, porque o Natal não é apenas e só uma quadra de solidariedade: para além do simbolismo cristão que nos conduz ao nascimento de Jesus Cristo, o Natal é também a festa da família; e, por isso, é a festa da Vida Humana, e a solidariedade é apenas uma das facetas do Natal.

Portanto, reduzir o Natal apenas à solidariedade é retirar ao Natal a base fundamental [o fundamento; a causa] dessa mesma solidariedade: ou seja, é uma contradição nos próprios termos. Pelo facto de sermos solidários todos os dias, isso não significa que todos os dias seja Natal, porque existem aspectos e/ou características do Natal que não existem, nem podem existir, todos os dias.

E aqui entramos na diferença entre tempo profano, por um lado, e tempo sagrado, por outro lado.

Se “o Natal fosse quando o Homem quisesse”, isso significaria que deixaria de existir qualquer diferença entre tempo sagrado, e tempo profano. Ou então, o tempo seria sempre sagrado ou sempre profano. E se não houvesse diferença ou alternância entre os dois tempos [sagrado e profano], não poderíamos discernir a solidariedade, por um lado, do egoísmo, por outro lado — porque o ser humano gere a sua mundividência a partir das contradições inerentes à realidade: só sabemos o que é bom se soubermos o que é mau; só sabemos o que é belo se soubermos o que é feio; só conhecemos o sagrado se soubermos o que é profano; etc.

Porém, a alternância entre o sagrado e o profano não se aplica apenas à religião, à metafísica ou à ética.

Num dos seus livros, Mircea Eliade falou do mito moderno do “culto do carro sagrado”. Dizia ele, mais ou menos isto, que basta visitarmos um salão anual de automóveis para vermos aí uma manifestação religiosa profundamente ritualizada do Homem moderno. Existem mesmo as sacerdotisas do templo (as meninas bonitas que se colocam ao lado dos automóveis), a multidão compacta e a reverência dos adoradores, o esbanjamento de dinheiro e o luxo — se compararmos esta liturgia do “culto do carro sagrado” com as liturgias religiosas primitivas do paganismo da antiguidade, podemos estabelecer analogias a olho nu.

No “culto do carro sagrado”, o gnóstico do culto (o iniciado) aguarda com impaciência as revelações oraculares, isto é, informações sobre os novos modelos de automóveis. E assim, o gnóstico do culto sagrado do carro divide o ciclo anual em tempo profano — que é aquele onde os oráculos não falam — e o tempo sagrado — que é aquele em que os pontífices do culto, ou sejam, os vendedores de automóveis, adquirem uma renovada importância, ao mesmo tempo que a multidão ansiosa aguarda, com crescente impaciência, o advento de uma nova forma de salvação.

Ora, não passa pela cabeça do Homem moderno, devoto do “culto sagrado do carro”, dizer que “um salão de automóvel é quando o Homem quiser” — porque de facto não é! E não é por este facto que o Homem moderno deixa de utilizar o automóvel todos os dias … Então, por que é que se diz, hoje, que “o Natal é quando o Homem quer” ?

A resposta à pergunta é a seguinte: o que se pretende, com esta frase, é retirar ao Natal o seu simbolismo, não só religioso mas também tradicional e cultural. Pode existir muita gente que utiliza esta frase sem má-fé, mas a verdade é que a frase é absurda, contraditória, e visa eliminar a diferença entre o tempo profano e o tempo sagrado — erradicando a solidariedade da sociedade, em nome da defesa da solidariedade na sociedade.

2 comentários »

  1. Desculpe mas não concordo. O Sagrado está presente também todos os dias e para o cristão ou outra religião qualquer também assim é. Não oramos ou “falamos” com Deus todos os dias? Não procuramos seguir Seu exemplo? O facto de se dizer “O Natal é quando o homem quiser” não lhe vem retirar valor mas sim reforçar e acrescentar.
    Tal como com o perdão Jesus responde ” não perdoes 7 vezes mas 70x 7″ Ele também não pretende dizer 490 vezes..

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    Comentar por jcruz1974 — Quarta-feira, 25 Dezembro 2019 @ 12:01 pm | Responder

    • Você parece não conhecer a História das Religiões, por um lado, e por outro lado não me parece que você tenha uma noção (correcta) filosófica de “religião”. A sua opinião não é baseada em ciência.

      Aconselho que você leia alguns livros especializados sobre o assunto, nomeadamente da autoria de Durkheim ou/e de Mircea Eliade.
      Naturalmente que pessoas como você irão dizer que o Durkheim e o Eliade eram “fassistas” — que é a forma actualizada de refutar argumentos científicos (falácia da identidade). Por exemplo, hoje, quem coloca em causa a teoria do Aquecimento Global Antropogénico é automaticamente apodado de “fassista”.

      Hoje, quem é céptico em relação ao “progressismo” é “fassista”.

      Durkheim chamava à oposição entre o sagrado e o profano, “a forma elementar da vida religiosa”; sem esta oposição, não há religião. O sagrado só aparece numa base profana; inversamente, um mundo que se tornou inteiramente profano, no qual todos os lugares, momentos e coisas se equivalem — esse mundo seria irreligioso.

      O que você quis dizer no seu comentário é o seguinte:

      “O tempo sagrado (por exemplo, a Páscoa, o Natal, ou o Ramadão, ou o Hanuká ) existe quando uma qualquer pessoa quiser que exista; ou seja, não há tempos sagrados e/ou profanos estabelecidos do ponto de vista da religião na cultura antropológica”.

      Ora isto é burrice — desde logo porque não há religião (enquanto tal) se esta não for escorada em princípios universais. E os princípios universais não se compadecem com as arbitrariedades subjectivas individuais.

      O facto de existirem (eventualmente) diversos tempos sagrados e profanos subjectivos no quotidiano de cada indivíduo religioso, esse facto não significa que o tempo sagrado objectivo e universal do Natal (por exemplo; podia ser o da Páscoa) seja quando esse indivíduo subjectivamente quiser.

      A sua argumentação é falaciosa — a falácia Ignoratio Elenchi , que consiste em querer provar a veracidade de um argumento ou de um facto, mas em vez disso, o raciocínio da argumentação chega a um conclusão que não prova o facto ou a situação que se pretendia, ou então prova outra coisa qualquer.

      Eu tive este trabalho de comentar o seu comentário, não porque o seu comentário tivesse um valor relevante que justificasse a minha canseira, mas por causa dos leitores deste blogue.

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      Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 25 Dezembro 2019 @ 12:44 pm | Responder


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