perspectivas

Quarta-feira, 9 Novembro 2011

José Mattoso acerca de S. Tomás de Aquino


“O rigor lógico, a agudeza da inteligência e a vastidão dos conhecimentos permitem-lhe construir um sistema filosófico extremamente coerente e realista a partir dos princípios aristotélicos.

Todavia, o método escolástico infunde-lhe uma inegável frieza. O recurso maciço às definições, distinções e citações dificilmente poderia emocionar qualquer auditório. A sua obra consulta-se, mas não se lê. Para usar os termos de Bloom [Harold], tem força intelectual mas falta-lhe o fulgor estético.”

— José Mattoso, referindo-se a S. Tomás de Aquino, in “Memória & Sabedoria”, pág. 189, Edições Húmus, 2011 [os sublinhados são meus, e os parêntesis também]


L' Esprit du Temps

José Mattoso é um especialista em história e cultura medievais, e por isso qualquer crítica da minha parte em relação a seja o que for que ele escreva acerca da Idade Média, vai certamente parecer uma heresia. Vivemos no tempo da técnica e da especialidade imune à crítica oriunda do vulgo que se caracteriza pela falta de um alvará de inteligência, e José Mattoso não foge ao espírito do tempo.

Neste textículo, José Mattoso corrobora a opinião de Harold Bloom, expressa no seu livro “Onde Está a Sabedoria?” [2004], e que parte das seguintes premissas [entre outras que não interessa agora abordar]:

  • Na Idade Média não existiu “literatura sapiencial”;
  • Santo Agostinho, que poderia ser a excepção à regra no que respeita à literatura sapiencial, acaba por não recolher as condições dessa “literatura sábia” porque, alegadamente, as suas ideias [as de Santo Agostinho] incentivam à guerra e à destruição [sic].
  • Nietzsche é considerado por Bloom como um sábio literato, mas S. Tomás de Aquino já não o é.

José Mattoso pode ser um esperto em Idade Média, mas parece-me que nunca leu, por exemplo, Eric Voegelin, porque quem o lê pode facilmente imaginar um homem sentado dentro de uma banheira cheia de gelo até à cintura, enquanto escreve com a sua Typewriter [no tempo de Eric Voegelin ainda não existiam computadores pessoais]. Uma das características principais dos textos de Eric Voegelin é a ausência de fulgor estético — e talvez por isso é que este autor é relativamente desconhecido e até desprezado nos meios académicos.

Decididamente, um dos critérios sine qua non da “literatura sapiencial” não pode ser o “fulgor estético”; esta condição é absurda.

Segundo este critério, o “Mein Kampf” de Hitler poderia pertencer à “literatura sapiencial” da humanidade, porque certamente terá mais fulgor estético do que qualquer dos livros de Eric Voegelin. E naturalmente que este último, segundo Harold Bloom e José Mattoso, não faz parte dos “sábios literatos” da humanidade. E Nietzsche, porque escreve bem, é um sábio literato, independentemente das ideias exaradas nos seus textos. Um absurdo.

“A poesia morreu, asfixiada pelas metáforas” / “A relatividade do gosto é desculpa que adoptam as épocas que o têm mau.” / “Depois de se alojarem em uma mente norte-americana, as ideias passam a saber a Coca-cola.” — Nicolas Gomez Dávila

Harold Bloom é um caso de alguém que vive de um Zeitgeist politicamente correcto e, simultaneamente, critica o politicamente correcto; respira o ar que ele próprio considera impuro; cospe no prato que come. Embora ele o negue, Bloom é um descontrucionista; e a sua negação faz parte dessa lógica de quem se alimenta daquilo que ele próprio critica. Harold Bloom é um anticristão primário que, por sua vez, critica os anticristãos primários em nome de uma putativa sageza benevolente; Bloom é um dos paradigmas humanos do absurdo do nosso tempo.

E, de certa forma — surpreendentemente — José Mattoso embarca na mesma carruagem da moda cultural do nosso tempo. Das duas uma: ou José Mattoso concorda com a essência do livro de Bloom, o que é muito grave para alguém que se considera especialista na Idade Média; ou não concorda mas não quer deixar de participar no Esprit du temps, o que é lamentável.

2 comentários »

  1. pode-se perfeitamente pegar tudo que ele escreveu sobre São Tomás, e usar como papel higiênico. Até por que S. Tomás, não estava preocupado em construir algum tipo de “estética literária”.
    ….
    “Espero nunca ter ensinado nenhuma verdade que não tenha aprendido de Vós. Se, por ignorância, fiz o contrário, revogo tudo e submeto todos meus escritos ao julgamento da Santa Igreja Romana (Santo Tomás de Aquino).

    “A humildade faz o homem capaz de Deus” (Santo Tomás de Aquino, “Comentário ao Evangelho segundo São Mateus”, 11, 970).

    “Três coisas são necessárias para a salvação do homem: saber o que deve crer, saber o que deve desejar, saber o que deve fazer” (Santo Tomás de Aquino).

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    Comentar por Marcelo R. Rodrigues — Quarta-feira, 9 Novembro 2011 @ 7:18 pm | Responder

  2. Olavo de carvalho tem deu boa resposta sobre o assunto “estilo”, quando certa vez foi acusado de ser “pouco polido”.

    Odec:

    (…)São autores muito pouco freqüentados pela nossa intelectualidade acadêmica, a qual, por falta de repertório, escolhe seus modelos no jornalismo da moda, impondo assim, pela repetição fácil, um padrão de polidez fingida que acaba por passar como o único modo elegante e aceitável de escrever. São Bernardo, pregando do alto do púlpito – uma situação de discurso que me permito considerar um tanto mais solene do que um bate-boca entre acadêmicos -, dizia: “Os pregadores esforçados são como os bois que puxam o arado. Os preguiçosos vêm atrás e comem a bosta dos bois.”(…)

    http://www.olavodecarvalho.org/textos/estilo.htm

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    Comentar por Marcelo R. Rodrigues — Quarta-feira, 9 Novembro 2011 @ 7:29 pm | Responder


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