perspectivas

Domingo, 23 Outubro 2011

Os cenários catastrofistas dos profetas da desgraça

Filed under: Portugal — O. Braga @ 9:17 am
Tags: , , ,

Se há alguém na blogosfera que sempre criticou a adesão de Portugal ao Euro, fui eu. Repare-se: eu não critico o Euro: critico a adesão de Portugal ao Euro. São coisas diferentes. O facto do Euro existir, ou não, depende da vontade política dos países do directório europeu, e o Euro até pode ser um instrumento positivo para a economia global. Porém, o que eu sempre achei é que não é do interesse português pertencer ao Euro (embora a moeda portuguesa possa estar indexada ao Euro em uma banda de oscilação cambial), e a realidade actual veio dar-me razão.

Os blogueiros da economia, que nunca concordaram comigo, não me perdoam: não porque eu tenha razão — porque estava claríssimo que eu estava condenado a ter razão —, mas por eu ser um relapso da construção da utopia do leviatão europeu com Portugal lá dentro, e por assumir uma posição herética em relação à entrada de Portugal no Euro. Faz lembrar a frase de Nicolas Gomez Dávila: “O traidor nunca te perdoará a sua traição”.

Posto isto, vamos às profecias tremendistas e apocalípticas do novo ciclo do Yuga que se aproxima com a morte de Brahma.

  1. A falência da Grécia e os respectivos cortes da dívida significam a saída deste país da zona do Euro pela “porta pequena” (utilizando uma linguagem tauromáquica). Não passa pela cabeça de ninguém que a Grécia não paga a sua dívida e permanece no Euro. Portanto, em termos práticos, e na medida em que o directório europeu anuncia a possibilidade de “haircut” da sua dívida, a Grécia já está fora do Euro. Aliás, a “saída ordenada” do Euro deve ser uma condição sine qua non para a aceitação do “haircut” da dívida grega.
  2. Ao contrário da Grécia, países como a Espanha e Itália são solventes. O quadro apresentado neste postal é absurdo. A dívida pública espanhola é hoje inferior a 60% do PIB, o que não tem nada a ver com a Grécia. E embora a Itália seja um país bastante mais endividado (em termos relativos) do que a Espanha, tem um potencial económico que nada tem a ver (nem de perto nem de longe) com a Grécia. Por outro lado, a Irlanda é um país que exporta praticamente tudo o que produz, o que lhe traz vantagem em permanecer no Euro. Portanto, dizer que os haircuts da dívida grega vão trazer por arrasto as falências e respectivos haircuts da Espanha, da Itália e da Irlanda, é obra de especuladores financeiros anglo-saxónicos em relação ao Euro.
  3. O problema é Portugal. Estará Portugal na posição da Grécia, ou da Irlanda? O peso das exportações portuguesas no PIB de Portugal está longe de se equiparar, em termos relativos, à Irlanda. Mas a contracção da economia portuguesa não se pode equiparar à necessidade de contracção da economia grega — lembro que o PIB per capita grego, há dois ou três anos, rondava os US Dollars 30.000 / ano, enquanto que o PIB per capita português andava pelos US Dollars 17.000 /ano. O esforço de ajustamento do PIB per capita à economia real é brutalmente mais violento na Grécia do que em Portugal.
  4. Por isso é que Portugal pode dar-se ao luxo de renegociar os prazos de pagamento da dívida, o que não significa a exigência de haircuts na dívida. E foi isto que Cavaco Silva quis dizer. Renegociar prazos de pagamento não é deixar de pagar. E bastaria que os prazos de pagamento fossem renegociados, e alargados no tempo, para que a espiral de recessão económica não fosse tão perigosa quanto vai ser quando seguimos o caminho do orçamento ideológico hayekiano apresentado pelo governo do Pernalonga.

O problema da saída de Portugal do Euro colocar-se-á depois de a dívida pública estar em níveis mais aceitáveis, em termos de percentagem, em relação ao PIB, mas esse problema não deixará de existir: Portugal não cresce, nem nunca crescerá (tem termos reais), estando dentro do Euro.

1 Comentário »

  1. 1. Leio, com um sorriso e algum alívio, que este blogue se chama “Perspectivas”. Com o c atrás do t. Sabe-me bem, pois assim parece que estamos a falar…em português
    2. O quadro, que copiei algures, e a que achei piada, é…uma piada. Inglesa. Os ingleses, que mantêm a libra e um refinado sentido de humor, prestam-se a estes luxos.
    3. Sendo que o ponto do quadro jocoso não é a dívida. É a banca.A banca europeia. Que poderá levar com o duplo efeito do tal “corte de cabelo” e dos rescalonamentos de dívida, da capitalização insuficiente e do desenrolar da anemia económica europeia. Sendo que no caso português há ainda o extenso endividamente das empresas públicas, semi-públicas, das PPPs, dos dois bancos falidos, etc e tal.
    4. O cenário a que me referi não é catastrofista. A não ser no sentido em que este país navega na história de catástrofe em catástrofe.
    5. Em que, como muito lucidamente referiste, a decisão de entrar no euro foi….catastrofista.
    6. E em que a saída desta moeda, a acontecer, será outra. Que nem sequer mencionei.
    7. Neste contexto, Cavao Silva devia ter dito o que disse durante os chás de quinta-feira com o primeiro-ministro.
    8. Que é Passos Coelho, não Cavaco Silva.
    9. Se Cavaco quiser, pode fazer como Putin na Rússia: concorra novamente a primeiro-ministro.
    Abraço, gostei de ler.

    Gostar

    Comentar por ABM — Domingo, 23 Outubro 2011 @ 2:08 pm | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: