perspectivas

Terça-feira, 18 Outubro 2011

A origem da religião segundo Pierre Lévêque

“O homem primitivo faz a aprendizagem, como os mamíferos superiores, enfrentando os perigos do meio ambiente devido à existência das espécies predadoras e das dificuldades em conseguir alimento, isto é, mediante tudo o que impede o livre jogo das suas pulsões fundamentais.

Por outro lado, a experiência do grupo leva-o a passar — por exemplo no domínio do sexo — por conflitos entre a satisfação das pulsões e das proibições sócio-culturais. Estas contradições geram nele a ansiedade e a angústia, de que se tenta libertar, de acordo com as possibilidades proporcionadas pelas faculdades de criação analógica do córtex, recorrendo ao imaginário, e que se traduz num sistema tão eficaz como a arma/utensílio na luta quotidiana pela sobrevivência.

Concebe um mundo ameaçador devido ao meio-ambiente povoado, ou melhor, constituído por forças numinosas estreitamente concatenadas e que representa à imagem e semelhança do animal ou de si mesmo. Deste atomismo energético, que nunca desaparece completamente na evolução ulterior, derivam, muito cedo — no paleolítico — poderes fortemente individualizados, plurifuncionais — os deuses.”

— Pierre Lévêque, in “Animais, Deuses e Homens”, 1984, publicado em português por Edições 70, 1996, página 97.


Não é possível conceber o ser humano senão como ser institucional. O Homem fora das instituições, simplesmente não pode existir. As instituições significam desigualdade entre os que, por um lado e por qualquer razão objectiva, estão fora delas e, por outro lado, os que estão dentro delas. Instituição = Desigualdade! E as instituições humanas são, na sua essência primordial, baseadas em “dois rochedos” da realidade: as diferenças entre os dois sexos (ou géneros), e as diferenças entre gerações.

Fazendo aqui um juízo universal, e a julgar pelo que pensava Pierre Lévêque, os historiadores modernos percebem muito pouco de História e muito menos da natureza intrinsecamente humana. E principalmente chegamos à conclusão de que um historiador não deveria querer assumir o papel de um antropólogo. “Quem te manda a ti, sapateiro…”

Bem sei que Pierre Lévêque era um devoto comunista, mas o que ele quis dizer com o trecho supracitado é que a religião nasceu nomeadamente do tabu do incesto: pelo facto de ao homem ser proibido, por exemplo, fornicar a filha ou a mãe, o Homem inventou os deuses! Isto significa que, para Pierre Lévêque, se ao Homem não fossem proibidos as suas “pulsões fundamentais”, de forma a que estas o colocassem em pé de igualdade com os mamíferos superiores, a religião não teria sido “inventada pelo Homem”. Ou seja: segundo Pierre Lévêque, a religião é produto do recalcamento da felicidade humana que resultaria se fosse permitido, entre outras “pulsões fundamentais”, a fornicação alarve.

Mesmo partindo do princípio de que Pierre Lévêque tenha razão — ou seja, partindo do princípio de que a religião resultou apenas e só da frustração das “pulsões fundamentais” que incluem a instituição da proibição, estabelecida pelo grupo, de um pai não poder, por exemplo, “comer” a filha —, isso significaria que, para Pierre Lévêque, o homem seria muito mais feliz “comendo” a filha e não tendo — em consequência dessa felicidade animal e alarve — religião. Exactamente por isso é que Pierre Lévêque coloca o ser humano na mesma categoria dos mamíferos superiores, quando diz que tanto os homens como os mamíferos superiores fazem igualmente a “aprendizagem do meio-ambiente”.

Naturalmente que Pierre Lévêque manipula e adultera Freud e Lacan. Porém, e assim como Freud é um caso freudiano, e Lacan é um caso lacaniano, Pierre Lévêque é um caso levequiano.

Desde logo, o “filme” que Pierre Lévêque faz, na sua cabeça, acerca do “terror” em que viviam constantemente os paleolíticos em relação às “terríveis feras predadoras”, não passa de um produto da sua (dele) imaginação: nada nos garante que tenha sido assim como ele conta na sua narrativa. Se nós verificarmos as condições em que viviam, até há bem pouco tempo, as tribos remotas dos índios no Brasil ou as tribos recônditas, descobertas no século XX, na Papua Nova-Guiné, descobrimos que essas tribos primitivas não viviam em “pânico sistémico” em relação às “feras predadoras”.

Depois, o culto dos mortos existia já no tempo do Neanderthal — ainda o homo sapiens não tinha oficialmente aparecido no proscénio do planeta. Aliás, Pierre Lévêque referiu-se apenas uma vez a este facto (ao culto dos mortos no Neanderthal), em todo o livro… e de passagem… o que é lamentável e de uma desonestidade intelectual inqualificável!
A religião nasceu simultaneamente com a consciência e auto-consciência humanas e, consequentemente, com o culto dos mortos no Neanderthal. E o culto dos mortos foi comum a duas espécies hominídeas diferenciadas: o Neanderthal e, mais tarde, o Homo Sapiens. Para além disso, Pierre Lévêque está errado no que escreveu no trecho, porque os deuses antropomorfizados (“individualizados”, como ele escreve) só surgiram no fim do neolítico e no princípio da História (com o aparecimento da escrita e dos impérios da Antiguidade Clássica).

Finalmente, há aqui um problema lógico que revela uma contradição da parte de Pierre Lévêque. Se a religião surgiu — como ele diz — da frustração das “pulsões fundamentais” do “animal humano” — como por exemplo o tabu do incesto —, então ficamos sem saber como se erradica a religião da condição humana, a não ser que ele considere que a religião é a única forma de manifestação humana de crenças e de mitos.
Das duas uma: ou Pierre Lévêque defende a ideia segundo a qual as “pulsões fundamentais” e incestuosas devem ser libertadas, transformando o ser humano em uma espécie de animal irracional, e tendo como objectivo erradicar a religião — ou admite que a religião é produto da condição humana em si mesma, e que a própria religião é uma “pulsão fundamental” que não deve ser, por isso, recalcada.


Não é possível conceber o ser humano senão como ser institucional. O Homem fora das instituições, simplesmente não pode existir. As instituições significam desigualdade entre os que, por um lado e por qualquer razão objectiva, estão fora delas e, por outro lado, os que estão dentro delas. Instituição = Desigualdade! E as instituições humanas são, na sua essência primordial, baseadas em “dois rochedos” da realidade: as diferenças entre os dois sexos (ou géneros), e as diferenças entre gerações. É isto que Pierre Lévêque deveria ter escrito mas que a sua fé na religião política marxista não o permitiu.

4 comentários »

  1. O respeito aos mortos, ou melhor aos que já foram, é a primeiro traço da idéia do “além” na história do homem, isso é, a idéia de vinculo.

    Os liberais-marxistas, tem um repúdio a tudo que significa algun vinculo, seja sentimento de nacionalidade, raça, credo, e.t.c. fazendo jus aquilo que Mário Ferreira dos Santos dizia: “Para o bárbaro a liberdade é ausência de vínculo”.

    Para o materialista, é absurdo que se referencie os mortos, pois para o materialista é tudo apenas “pedaço de carne”.

    Do ponto de vista da antropologia e arqueologia, esse Laveque é um autista completo. A teoria dele não tem respaldo na antropologia e em outra qualquer ciência que estude o homem primitivo.

    Um detalhe interessante a notar nesse Laveque, é aquilo que Thomas F. Berthoneau chama de “ódio mimético”, Thomas F. no genial ensaio “Gnosticismo de uma perspectiva não voegeliana”, explica que os Gnósticos, por serem adeptos de uma religião anti-cósmica, tem obscessão pelo objeto do ódio, nesse caso mimetizam a narrativa da criação adaptando-a sua maneira.

    Por isso notamos que enquanto o livro do Gênesis o assunto da criação ocupa menos de 1% do livro, as religiões gnósticas e políticas escrevem livros imensos sobre a criação do universo, isso quando não se ocupam apenas desse assunto.

    Laveque, Engels, os comunistas, os psicanálistas, o neo-ateistas, todos eles tem sua versão da “criação do universo” ou a “origem das coisas”.

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    Comentar por Marcelo R. Rodrigues — Terça-feira, 18 Outubro 2011 @ 6:01 pm | Responder

  2. Eu penso que o que existe hoje é uma nova forma de barbaridade; os bárbaros do paleolítico não eram idênticos aos bárbaros modernos: pelo contrário, a família, o clã, a tribo, e o culto dos mortos, eram fonte de valores e eram instituições muito respeitadas pelos bárbaros do paleolítico e do neolítico.

    No paleolítico e no neolítico existiam os vínculos de que fala o Mário Ferreira. Por exemplo, com a sedentarização do Homem e com a sistematização da agricultura, ainda no princípio do neolítico, surgiram as famílias estáveis e as linhagens (instituição da filiação) por via paterna. A ignorância dos modernos diz que “a sociedade patriarcal é um fenómeno imposto pelo Cristianismo”, quando na verdade a linhagem patriarcal surgiu, de um forma consistente, cerca do milénio VIII antes de Jesus Cristo. Contudo, a família e a linhagem patriarcal já existiam no paleolítico, embora de uma forma difusa e não-permanente.

    A barbárie moderna e contemporânea é um fenómeno novo que merece ser estudado de uma forma sistemática.

    Pierre Lévêque serve-se do conhecimento angariado por outrem para desenvolver uma teoria negativa do Homem, manipulando e enviesando aquilo que os antropólogos descobriram. O problema é que os livros de Pierre Lévêque estão aí nos escaparates das livrarias, à mercê do mais ignorante e acrítico que os queira ler.

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    Comentar por O. Braga — Terça-feira, 18 Outubro 2011 @ 6:47 pm | Responder

  3. Interessante que a ideia, como foi relatada pelo autor do texto, afirma a convicção islâmica de que o homem nasce submetido a Deus que o criou e que lhe fez dotado de razão e discernimento. Essa é a razão pela qual não qualquer tipo de introdução do indivíduo ao Islam. Ele simplesmente é muçulmano a partir do momento em que nasce. É a sua natureza.

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    Comentar por Saulo Souza — Quarta-feira, 19 Dezembro 2012 @ 11:33 pm | Responder

    • Atenção que no Islão, assim como acontece também no Calvinismo, existe um certo determinismo que restringe a liberdade à pessoa, o que não é, em ambos os casos referidos, racional. Pelo contrário, por exemplo, no Cristianismo de S. Tomás de Aquino, a liberdade da pessoa ou livre-arbítrio é um pilar fundamental da religião.

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      Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 20 Dezembro 2012 @ 9:00 am | Responder


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