perspectivas

Segunda-feira, 10 Outubro 2011

Portugal pode vir a ser um país diferente, na Europa

“O sociólogo António Barreto admite que Portugal deixe de existir como estado independente dentro de algumas décadas e esteja integrado noutro modelo europeu.”

via Portugal pode deixar de ser um Estado independente – Sociedade – Sol.

Eu vou recorrer a Maquiavel para refutar esta ideia de António Barreto. Note-se que eu não concordo com as conclusões éticas de Maquiavel, o que não significa que algumas das suas premissas estejam necessariamente erradas — como podemos, por exemplo, ter um silogismo com as premissas certas e uma conclusão errada.


Maquiavel opõe a ociosidade e a necessidade. O ócio é próprio das cidades livres (leia-se, sociedades livres) e, paradoxalmente, Maquiavel defende ideia segundo a qual há mais virtude onde a escolha é menos livre: entre um lugar fértil para fundar a cidade, e um lugar infértil, Maquiavel opta pelo lugar infértil. “Os homens”, escreve Maquiavel, “agem por necessidade ou por opção (…) e daí que haja mais virtude onde a escolha é menos livre”. A escolha do lugar estéril consiste, desde logo, em obrigar os homens, “forçados a serem industriosos e menos preguiçosos”, a reforçar a sua unidade — ao reforçar a concórdia interior, a necessidade satisfaz a primeira condição da segurança.

Porém, a concórdia interior não satisfaz a segunda condição de segurança (segundo Maquiavel): a capacidade de resistir às “agressões exteriores” (leia-se, resistir à competição dos mercados exteriores). Decorre daqui a segunda tese de Maquiavel: ninguém pode gozar tranquilamente do seu próprio bem, num mundo regido pela “concorrência universal dos apetites”. Para conseguir resistir às agressões exteriores, Maquiavel defende a “expansão da cidade” (leia-se, aumento da população) no sentido de aumentar o seu poder defensivo. E finalmente, importa que através das leis se compensem os efeitos do ócio (que advém da riqueza, que caracteriza a Europa do norte) por via da disciplina militar, ou seja, que se incremente a necessidade natural através de uma “necessidade de exercício”.

Se virmos bem — e se acrescentarmos a estes dados maquiavélicos, a influência da religião católica na sociedade portuguesa —, foi esta “sociedade da necessidade”, segundo Maquiavel, que caracterizou, grosso modo, Portugal até 1580. O que mudou, desde então, foi a nossa crescente permeabilidade à Europa, que culminou com as invasões francesas, e de que ainda hoje pagamos a factura. Para Maquiavel, as ambições particulares (leia-se, neoliberalismo) são um sintoma de corrupção pública — lazer e desunião são, portanto, correlativos. Os habitantes da minúscula cidade de Véiès derrotaram, com a “arte da paz” (o termo é de Maquiavel), os ricos romanos desunidos pelo ócio. Hoje, a guerra de Maquiavel já não é necessariamente a guerra propriamente dita, mas a competição dos mercados ou a “concorrência universal dos apetites”.


A partir daqui, deixemos Maquiavel e passemos àquilo com que Maquiavel não concordava: com a religião.

A Europa do centro e norte tende actualmente à secularização radical. E como a natureza tem horror ao vácuo, podemos dizer que existem duas possibilidades pesadas: ou a islamização da Europa do centro/norte, ou o advento de novas religiões políticas totalitárias que implicam um novo Heimkehr e talvez um novo Vernichtung, desta feita em relação aos muçulmanos. Na minha opinião, o retorno da Europa do centro / norte ao Cristianismo está fora de hipótese, pelo menos antes de uma nova guerra na Europa. Em cada um destes casos, Portugal poderia diferenciar-se através da manutenção da sua cultura de raiz cristã e católica.

Temos então, para Portugal: 1) união pela necessidade; 2) contenção das ambições particulares; 3) a disciplina inerente à “necessidade de exercício” (disciplina militar); 4) manutenção, na cultura antropológica, de uma forte influência cristã e católica.

Com a tendência de uma forte secularização em Espanha (a que inegavelmente assistimos hoje), este país tende a dissolver-se nas suas nacionalidades (ausência de valores colectivos), e das duas uma: ou acontece uma nova guerra civil espanhola (embora de outro tipo, talvez uma guerrilha urbana generalizada e multifacetada) seguida de uma ditadura, ou Espanha, tal qual existe hoje, tem os dias contados. Por isso, o iberismo é já hoje uma ucronia.

O “problema” acontecerá se Portugal seguir o exemplo, a diversos níveis, dos países do centro e norte da Europa. Aí sim, poderá acontecer aquilo que António Barreto prognosticou, e talvez por ele defender, no presente, essa diluição de Portugal na Europa, é que ele fez essa sua (dele) previsão pessimista. E pelas mesmas razões que ele defende essa diluição na Europa, eu defendo a saída de Portugal do Euro e a manutenção daquilo que é possível em termos de soberania (embora não deixando de cooperar, como é óbvio e a todos os níveis, com as instituições europeias e mundiais).

O destino de Portugal ainda não está traçado.

3 comentários »

  1. ————-
    Sobre Maquiavel:

    Incrível como ele concorda com Olavo de Carvalho, segundo Olavo de Carvalho, a restrição das “liberdades individuais”(nota: no sentido de prazeres pessoais, fetiches e manias, não lembro se o termo utilizado por Olavo foi exactamente esse que utilizo aqui.) é a melhor defesa contra a tirania estatal. Para Olavo de Carvalho, o homem experimenta essa restrição das “liberdades individuais” ao montar uma familia, portanto a família patriarcal clássica é o núcleo mais básico de resistência contra as tiranias de tendências hipercoletivistas como o comunismo. Isso é, a restrição da “liberdade individual”, tem como prêmio a liberdade coletiva.

    Olavo explica que por isso o “pathos” da modernidade tenta empurrar a todo custo, na cultura, a busca de liberdade individual(reforçando, aqui me refiro a satisfação dos caprichos pessoais). Quanto mais pessoas entregues a tal tipo de “liberdade”, mais fácil fica empurrar tiranias coletivizantes.

    No fundo trata-se de um prolongamento da infância, o adulto infantilizado tende, assim como uma criança, a ter uma noção precária de limites. A abortismo representa bem isso.

    ————-
    Sobre Portugal:

    Me que parece que isso é um fetiche comum entre neo-gnóstico, o delírio da eliminação de Portugal, seja pela via mais utopista a militar, ou pela dilução no oceano Europeu.

    Isso decorre por que como o Ocidente não tem uma história “única”, mas sim um conjunto de histórias de diversas nações e povos com cerca 1000 anos de existência ou mais, então a destruição da cultura ocidental, pela destruição de tais nacionalidades. Para as novas elites culturais descontrucionistas é vital que seja descontruido aquilo que já foi um império multicontinental.

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    Comentar por Shamtia Ayomide — Terça-feira, 11 Outubro 2011 @ 12:27 am | Responder

  2. errata: *passa pela destruição

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    Comentar por Shamtia Ayomide — Terça-feira, 11 Outubro 2011 @ 12:28 am | Responder

  3. Sobre Olavo de Carvalho: por isso é que a maternidade e a paternidade, por exemplo, não são direitos, porque não são subjectivos mas antes são objectivos, na medida em que correspondem a uma posição de reconhecimento, pela lei, de um vínculo de filiação.

    A subjectividade entendida como fonte de direitos leva à atomização da sociedade e reduz ao absurdo o Direito positivo na medida em que tende reduzir a norma ao facto, quando o Direito, por sua própria natureza, regulamenta o geral. A partir da atomização da sociedade e da auto-anulação do Direito, está aberto caminho para o totalitarismo.

    Sobre Portugal: esta geração de políticos de Esquerda falhou em toda a linha. Embora António Barreto tenha uma visão crítica da situação, não deixa de pertencer à área socialista. Trata-se de um visão historicista, e portanto, errada — um pouco idêntica à visão historicista e pessimista de Oswald Spengler. Esta visão historicista marca a intelectualidade portuguesa desde finais do século XVIII, acentuou-se no século XIX com uma espécie de romantismo negativo; durante a implantação da república, e com a acção da maçonaria, adquiriu a forma de um iberismo (contestado por Fernando Pessoa), com o Estado Novo de Salazar este historicismo transmutou-se em uma visão de “destino” segundo o italiano Giambattista Vico; com a queda do regime de Salazar, o Historicismo não morreu em Portugal e foi substituído pela certeza do futuro marxista.

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    Comentar por O. Braga — Terça-feira, 11 Outubro 2011 @ 7:57 am | Responder


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