perspectivas

Segunda-feira, 10 Outubro 2011

A teoria económica e a importância da educação das nossas crianças

Filed under: ética,cultura,economia,educação,Política,Tempo de Café — O. Braga @ 2:07 pm

Estudar economia é estudar o comportamento produtivo de uma determinada espécie de animais.

Este artigo do João César das Neves é interessante e vou comentá-lo em uma perspectiva complementar.

Em primeiro lugar, a ideia de “progresso”. O progresso não é uma lei da natureza. Mesmo que entendamos que o progresso existe, nada nos garante que o amanhã seja o progresso de hoje. Mas eu não vejo o presente como o progresso do passado: como dizia Elsa Triolet, “o futuro não é o progresso do presente: é outra coisa”. Portanto, o que vivemos hoje não é o progresso do passado, mas é “outra coisa”; e sobre o progresso, estamos conversados.

Em segundo lugar, o problema do valor, abordado não do ponto de vista da teoria económica (por exemplo, dos marginalistas, como Carl Menger e o “paradoxo do valor”), mas do ponto de vista ético. A teoria económica marginalista do valor, a que João César das Neves faz implicitamente menção no seu artigo, é a que parte do princípio segundo o qual o ser humano é um animal irracional, na medida em que coloca o desejo acima da lógica — ou seja, e por palavras que toda a gente entende: a teoria económica, qualquer que seja, parte quase sempre do princípio de que o Homem é uma besta. Estudar economia é, portanto, estudar o comportamento produtivo de uma determinada espécie de animais.

Na linha estrita do pensamento de Aristóteles, John McDowell e David Wiggins demonstraram muito recentemente que (na maior parte dos casos e as excepções confirmam a regra) a compreensão, por parte de um agente, de que um determinado estado de coisas é uma razão para agir moralmente, não resulta de uma deliberação racional, mas é sim da ordem da percepção imediata (intuição) desse estado de coisas — ou seja, quem não age em consequência desse estado de coisas, não é por isso destituído de capacidade de raciocínio, mas é, sim, destituído de sensibilidade moral que só a educação lhe poderia ter podido fornecer: essa pessoa, não educada, é absolutamente incapaz de ver o que a situação exige de si.

Portanto, os problemas inerentes ao “progresso” da modernidade estão menos relacionados com a técnica e mais ligados à falta de educação que retira ao indivíduo a sensibilidade moral. Só assim se explica o conceito de “banalidade do mal”, segundo Hannah Arendt que refere o caso de Eichmann como o exemplo “homo totalitarius”, um ser humano aparentemente normal do ponto de vista racional mas destituído da sensibilidade moral por via de uma educação deficiente.

O problema que se coloca hoje é o de que a teoria económica utilitarista — a tal que trata os homens como bestas — preside aos critérios da educação das nossas crianças, educação essa que deveria ser (mas não é) pré-política, e é assim que a economia transforma os adultos em animais pensantes mas destituídos de sensibilidade moral.

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: