perspectivas

Domingo, 25 Setembro 2011

G. E. Moore e o conceito de Bem

Dos filósofos modernos, G. E. Moore é um dos mais importantes (na linha de Sidgwick, de quem foi aluno), aproximando-se bastante das teses realistas de Nicolau Hartmann, embora, como este, aquele não pudesse levar a sua teoria ética até às suas últimas consequências porque o realismo de ambos não o permitiu.

Vou servir-me da diferença conceptual entre Bem e Bom, segundo Moore, para fazer uma analogia entre os conceitos de Deus e de Divino; mas antes, vou abordar a noção de “falácia naturalista” segundo G. E. Moore — noção que é muito importante na ética contemporânea.


Se a todos os homens crescem pêlos na cara, não podemos deste facto deduzir a norma segundo a qual todos os homens deveriam ter barba. E quem defende, por exemplo, a tese ética segundo a qual todos os homens deveriam ter barba, incorre na “falácia naturalista” (segundo Moore). Isto significa que os factos não fundamentam quaisquer normas, embora as normas possam criar os factos.



O conceito de “falácia naturalista” [que é mais alargado do que a noção estrita supracitada do homem barbudo] é importante para nos apercebermos de como o Direito Positivo contemporâneo se afastou de uma qualquer coerência ética, e é gerida de uma forma arbitrária por uma elite política [neognóstica] — na medida em que o Direito Positivo contemporâneo e ocidental, cada vez mais, deduz a norma legal do facto. Podemos imaginar, por absurdo, um Código Penal e um Código Civil [a norma] compatíveis e adequados aos desejos privados e íntimos de cada um dos 10 milhões de portugueses [factos], e de tal forma que o próprio Direito se anulasse a si mesmo.

Por outro lado, a falácia naturalista anula o princípio da transferência de valores [tão em moda, hoje] da sociobiologia para a realidade do ser humano, e torna absurda qualquer analogia entre o comportamento dos animais irracionais e o Homem. Quem disser, por exemplo, que “existem pinguins gays” e que, portanto, “o acto homossexual é natural e aplicável ao ser humano como uma norma ética de conduta” [porque a ética tem a ver com a conduta humana], incorre numa falácia naturalista.

Tal como Hartmann, G. E. Moore diz que os valores (nomeadamente e neste caso concreto, o valor do Bom) existem por si mesmos e não podem ser deduzidos de uma qualquer utilidade. Por exemplo, o valor da justiça existe por si mesmo, e não decorre de uma qualquer utilidade de onde seja dedutível. E quando alguém deduz o Bom de uma qualquer utilidade, para assim construir um sistema ético (por exemplo, a utilidade do prazer, da felicidade, etc.), incorre em uma falácia naturalista.

Então, o que é o Bom?

Desde logo, o Bom — e tal como acontece com os princípios da lógica, que não são físicos — não é físico embora exista por si mesmo e independentemente da existência da natureza humana, ao passo que o prazer, desejo, felicidade, sabedoria, etc, são todos objectos naturais. E tal como os princípios da lógica, e como acontece com o conceito de “realidade”, o Bom é indefinível. Não existe uma noção positiva de Bom [apenas podemos dizer aquilo que não é, assim como não existe uma noção possível de “realidade”], mas existe apenas o seu conceito: e este conceito de Bom é o Bem.

O Bem é “aquilo mesmo que é Bom”, sendo que o Bom é um adjectivo e o Bem um substantivo. O Bem engloba em si todos os contributos racionais possíveis do Bom [o Bem é o Todo, que é diferente das qualidades que se lhe dão, e é mais do que a simples soma das partes (holismo)], enquanto que o Bom é a essência do Bem. Podemos definir a totalidade (o Bem), mas não o qualificativo (o conteúdo, ou seja, o Bom) que lhe convém.


De um modo análogo — e aqui a especulação já não é de G. E. Moore — podemos conceber e até definir a forma de Deus [O Bem], mas nunca podemos definir o seu conteúdo [O Bom]. Podemos, por exemplo, dizer que Deus é uma pessoa, ou que é o Todo, ou que é misericordioso, ou que é piedoso, ou que é o nosso Deus pessoal, ou que é a fonte da nossa felicidade, ou que é inteligente, etc, — e depreender daí que todas essas qualidades do Divino (que fazem parte essencial do indefinível Bom) são boas; mas ao dizermos que todas essas qualidades [Deus] são boas, não definimos de modo nenhum o predicado Bom (O Divino].

Por isso é que a filosofia pode conceber a forma de Deus [O Bem] mas deve deixar para a religião os juízos éticos que são, por sua própria essência, sintéticos — ou seja, os juízos sintéticos são aqueles em que o predicado não é a mera definição do sujeito nem sinónimo deste. Se podemos conceber racionalmente o Bem como partes de um Todo ou mesmo o Todo, já o Bom faz parte da intuição religiosa — embora tenha um valor em si mesmo, e não tenha nada a ver com um mero estado subjectivo.

Anúncios

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

%d bloggers like this: