perspectivas

Quarta-feira, 21 Setembro 2011

A “revolução” conservadora que urge

«Necessário, útil, agradável e supérfluo, tudo isto, para nós [economistas], é apenas mais ou menos útil. Não há também que ter aqui em conta a moralidade ou a imoralidade da necessidade à qual responde a coisa útil que permite satisfazer.

Que uma substância seja procurada por um médico para curar um doente, ou por um assassino para envenenar a sua família, é uma questão muito importante para outros pontos de vista, mas de todo indiferente para a economia. A substância é útil, para nós [economistas], nos dois casos, e pode sê-lo mais no segundo do que no primeiro.»

Léon Walras

Se Aristóteles lesse isto ficaria certamente deprimido durante algum tempo, e S. Tomás de Aquino cairia, duro, para trás. Porém, um verdadeiro liberal — como, por exemplo, alguns dos escribas do Blasfémias — terá que necessariamente concordar com Walras, ou então não é verdadeiro liberal.

Na “República”, Platão fez a distinção entre a multiplicidade das necessidades primárias (alimentação, vestuário, habitação, etc., etc.), por um lado, e a multiplicação ilimitada das necessidades e dos desejos inventada pela sociedade e, a partir de Hume, já engendrada de uma forma absoluta pela teoria económica liberal, por outro lado.

Aquilo a que nós, a partir do século XVIII, chamamos de “civilização”, foi também a tentativa frustrada de tentar colocar limites éticos à teoria económica liberal. E hoje, quando a política se submete à economia gerida pela alta finança dos “mercados” internacionais, a ética deixou de ter uma autonomia prática. Hoje, podemos dizer, com pertinência, que a ética é exactamente a ausência de ética.

A teoria económica liberal foi ainda mais longe do que os primeiros utilitaristas (como, por exemplo, Bentham), acabando por destruir, em tese, qualquer tipo de humanismo. Contudo, é interessante verificar que uma certa Esquerda — a “Esquerda caviar” ou “Lagoste”, representada em Portugal pelo Bloco de Esquerda — também concorda com Walras, embora seja um acordo estratégico e sujeito à dialéctica política (diferentemente do Partido Comunista clássico, que vê o valor das coisas, ou seja, o preço, apenas no tempo de trabalho necessário para a sua fabricação).

Por isso é que nós vemos os liberais e os bloquistas em amena cavaqueira, e em ambiente de sorrisos e abraços, na blogosfera e nos me®dia em geral: o que os separa realmente é o tipo de cidadão atomizado: enquanto que o Bloco de Esquerda defende a ideia do cidadão atomizado pelo Estado, os liberais defendem a ideia do cidadão atomizado pelo mercado — ou seja, o que os separa é apenas e só o tipo de atomização do cidadão.

A alternativa ao liberalismo e ao bloquismo, é a refundação do conservadorismo segundo Tocqueville, através do qual os homens e mulheres associados (em uma multiplicidade de associações possíveis) substituem, com vantagem até, a defunta aristocracia europeia e portuguesa, evitando assim a atomização estatal, por um lado, e, por outro lado, a atomização do mercado — restabelecendo o primado da ética e da política na sociedade.

Esta é a verdadeira revolução que se impõe hoje.

A ler: Por que não sou liberal, por Olavo de Carvalho.

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: