perspectivas

Quinta-feira, 8 Setembro 2011

O PNR parece ser um partido político revolucionário

Filed under: Política,Portugal,religiões políticas — O. Braga @ 7:53 pm
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Este texto em PDF foi escrito, em um comentário no FaceBook, por um apoiante do PNR.

1 A primeira frase do texto parece-me correcta (“ser anti-marxista e socialista está longe ser uma contradição”), quanto mais não seja porque o conceito político de “socialismo” surgiu, por exemplo em França, muito antes de Karl Marx entrar na escola primária.

2 Aquilo a que se chama de “capitalismo” já existe, se não desde que existe o ser humano, pelo menos desde a Idade Média: a chamada “revolução industrial” dos século XVIII e XIX apenas veio acrescentar-lhe algumas características utilitaristas (→ ética) que não existiam, antes, da mesma forma.

Na Europa do século XIII, os templários praticaram uma espécie de “capitalismo” à escala europeia; no mesmo século e no seguinte, os franciscanos bem católicos defenderam a implementação do prémio de risco (seguro de risco), da taxa de juro, e a retribuição de mais-valias por capital privado imobilizado. Com a Reforma luterana e sobretudo com o calvinismo, o capitalismo entendido já em termos modernos, instalou-se definitivamente na Europa — e nessa altura ainda não se sabia se os teóricos liberais escoceses do século XVIII e XIX, iriam, algum dia, nascer.

Portanto, o que distingue o capitalismo contemporâneo do capitalismo medieval e do da Idade Clássica, são os pressupostos éticos que ditam a política. Neste sentido, dizer que “o capitalismo é materialista e ateu”, é confundir a ética com a política — ou melhor: é dizer que é a política que dita a ética (aquela está a montante desta), quando é (ou deveria ser) exactamente o contrário.

3 “O que importa é a forma como olhamos as coisas, e não as coisas em si mesmas” (André Gide).

O capitalismo, entendido no sentido lato como faço aqui, não é bom nem mau em si mesmo: depende do uso que façamos dele (utilidade → ética), e esse uso depende da submissão da política à ética (como deveria ser, e não o contrário disto), ou melhor dizendo, depende da separação entre os conceitos de utilidade natural (ver adiante um resumo do conceito de direito natural, segundo Leibniz) e de utilidade moral.

4 Qualquer forma de anti-capitalismo primário é uma manifestação do movimento revolucionário (gnosticismo moderno) e, portanto, não existe uma distinção de conteúdo (a distinção é apenas formal ou instrumental) entre, por exemplo, o marxismo ou as ideias do Bloco de Esquerda, por um lado, e as ideias expressas por este apoiante do PNR, por outro lado.

5 Uma das características do movimento revolucionário, segundo Olavo de Carvalho, é a certeza do futuro:

“O capitalismo e marxismo estão unidos porque são o inimigo de o que mais cedo ou mais tarde vai libertar o homem, um factor que só tem um nome e está muito distante do materialismo: o da vontade humana.”

Para além da visível alusão às noção nietzscheana de “vontade” (que não vale a pena discutir agora), radica aqui o problema de como sair da dicotomia “marxismo / capitalismo”. A solução para o problema é simples: essa dicotomia, entendida como tal, não existe.

Essa dicotomia foi inventada pelo próprio movimento revolucionário (neste caso, marxista) para fundamentar o materialismo dialéctico que, por sua vez, se estriba na dialéctica hegeliana. Quando se cria uma dicotomia maniqueísta deste tipo (marxismo versus capitalismo), está-se a colocar, num mesmo plano, conceitos e realidades muito diferentes — ou traduzindo em termos populares: está-se a confundir alhos com bugalhos. O marxismo é uma religião política, enquanto que o capitalismo é inerente à lei natural e aos primeiros princípios (direito natural).

Contudo, convém fazer uma distinção entre Neoliberalismo, por um lado, e Conservadorismo, por outro lado. Olavo de Carvalho faz muito bem essa distinção.

6 O movimento revolucionário pertence TODO à Esquerda política; existem apenas várias formas revolucionárias de interpretar a realidade. Por exemplo, o trotskismo não é exactamente o mesmo que o maoísmo que, por sua vez, não segue a mesma linha ideológica que o estalinismo — e por aí fora —, mas são TODOS de Esquerda. Para bom entendedor (do PNR), meia palavra basta…


Sobre o direito natural, segundo Leibniz:

Leibniz foi buscar a Aristóteles os fundamentos da lei natural, mas acrescentou-lhe, como sendo o direito mais importante de todos, o terceiro grau do direito ou o conceito de justiça universal, de inspiração cristã.

Temos assim três tipos de direitos, segundo a lei natural de Leibniz, e segundo a ordem da sua importância : o mais importante, segundo Leibniz, é o direito da justiça universal, que submete a utilidade natural à misericórdia ou utilidade moral. Em segundo lugar, o direito distributivo ou justiça distributiva (Aristóteles) e, por último e a menos importante das três, a justiça comutativa (também de Aristóteles).

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2 comentários »

  1. Concordo em absoluto na questão de colocar no mesmo patamar, capitalismo e marxismo, coisa que não faz sentido e que acaba por revelar-se não só maniqueísta como perigosamente hedonista, a roçar o “gnosticismo pandémico” . A lei natural nunca foi bem definida, não porque não houvessem tentativas,a definição do conceito pecava por imprecisão, continuamente. E de onde advinha essa imprecisão? A resposta a esta questão é evidentemente complexa, pois o conceito foi evoluíndo e o que se pensava sobre o assunto em determinadas épocas era já bem diferente do incialmente pensado 200 anos antes. É referida aqui a confusão entre ética e política, facto que a meu ver gera um novo tipo de gnosticismo, o acima citado, “gnosticismo pandémico”, a funcionar quase como uma “tábua de salvação colectiva”, perante as repetidas incoerências do actual entendimento da lei natural e de outras coisas relacionadas. A “confusão” faz parte dos planos da elite globalizadora, aliás estou alembrar-me de um tópico seu aqui na sua cas em 2009 talvez, sobre a síntese do fascismo com o marxismo, parece-me que estamos actualmente na fase inicial do processo.

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    Comentar por Filipe Crisóstomo (@Skedsen) — Sábado, 10 Setembro 2011 @ 4:30 pm | Responder

  2. “A lei natural nunca foi bem definida, não porque não houvessem tentativas,a definição do conceito pecava por imprecisão, continuamente.”

    Os princípios da lei natural são definidos naturalmente. O que diferem — o que “foi evoluindo” — são as interpretações subjectivistas desses princípios, por um lado, e a sua aplicação no conceito de direito natural, por outro lado. A lei natural (aplicada ao ser humano, obviamente!) não necessita de definição porque se define a si mesma (é axiomática): o que foi objecto de definição subjectivista (por exemplo, Grócio, Hobbes, Pufendorf, Locke, Leibniz, etc.) foi a forma como a lei natural se aplica ao direito natural e depois ao direito positivo.

    “É referida aqui a confusão entre ética e política, facto que a meu ver gera um novo tipo de gnosticismo, o acima citado, “gnosticismo pandémico”, a funcionar quase como uma “tábua de salvação colectiva”, perante as repetidas incoerências do actual entendimento da lei natural e de outras coisas relacionadas.”

    Sem dúvida. O movimento revolucionário sempre confundiu propositadamente a ética com a política — no sentido de misturar os dois conceitos de tal forma que se tornam indistinguíveis um do outro, e indiferenciados —, ou colocando a política a montante da ética (ou seja, a política é considerada anterior à ética); trata-se de uma inversão de valores.

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    Comentar por O. Braga — Sábado, 10 Setembro 2011 @ 8:29 pm | Responder


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