perspectivas

Segunda-feira, 29 Agosto 2011

A herança ética de Espinoza

“Nós não desejamos uma coisa pelo facto de a julgarmos boa, mas julgamo-la boa porque a desejamos.”
— Espinoza [Ética]

Substituamos, agora, a palavra “coisa” por um valor — porque cada coisa tem um valor intrínseco independentemente do valor subjectivo que lhe possamos dar.

Nós não desejamos a justiça pelo facto de a julgarmos boa, mas julgamos a justiça boa porque a desejamos.

Ao substituirmos a palavra “coisa” pela palavra “justiça”, por exemplo, que carrega consigo um valor que lhe é intrínseco, vemos que a proposição de Espinoza deixa de fazer sentido. O valor da justiça existe por si mesmo, e não é dedutível de uma utilidade qualquer que lhe possamos atribuir subjectivamente — ou através do desejo (o que vai dar no mesmo). Mesmo que ninguém desejasse a justiça, o seu valor não deixaria de existir por esse facto.

O erro de Espinoza está em estabelecer uma antinomia que não existe na realidade, por um lado, e por outro lado, o de relativizar os valores ao sabor do desejo. É claro que existe na ética de Espinoza uma ambiguidade e mesmo uma ambivalência que se detectam por detrás das subtilezas de conceitos muitas vezes contraditórios. Talvez a proposição correcta devesse ser a seguinte:

“Nós desejamos uma coisa [um valor] pelo facto de a julgarmos boa, e julgamos essa coisa [valor] como sendo boa porque a desejamos.”

Porém, pelo facto de desejarmos uma coisa — e portanto, julgarmos essa coisa como sendo boa — não significa que o nosso juízo [moral] esteja correcto.

Aristóteles escreveu [Metafísica, L, 1072 a 24-30] que “nós desejamos uma coisa por ela nos parecer boa — e não, por a desejarmos, é que nos parece boa”. Ou seja, o que Aristóteles quer dizer é que, embora nós desejemos o que nos parece bom, o julgamento moral é distinto do desejo da pessoa.

Ora, em Espinoza, esta ideia, embora parecendo semelhante — e mesmo uma cópia — à de Aristóteles, difere da deste último por aquilo que o primeiro escreveu a seguir: tudo o que é considerado bom, segundo Espinoza, não o é em relação a uma norma absoluta e transcendente, mas em função das circunstâncias (vemos aqui o esboço dos valores relativizados segundo o Zeitgeist de Hegel) de uma determinada cultura, ou simplesmente de uma associação aleatória. E não foi isto que Aristóteles quis dizer, porque o grego tinha um respeito tal — para não dizer, temor — pelo Ápeiron que lhe seria impossível relativizar os valores e não lhes atribuir um valor absoluto.

Para além de Maquiavel, que foi um produto do libertinismo do Renascimento, os principais responsáveis pelo relativismo moral moderno que descambou no absurdo contemporâneo, foram Hobbes, Montaigne e Espinoza. Naturalmente que os dois últimos não recusam a ideia de Deus, mas retiram do conceito de Absoluto o Ápeiron de Aristóteles, identificando Deus com a natureza (Deus sive Natura). E vemos também, em Montaigne e Espinoza, o retorno do Pelagianismo (que Santo Agostinho tanto combateu), embora com roupagens mais sofisticadas.

Espinoza foi um dos precursores do relativismo moral moderno. Tudo o que, à primeira vista, nos pareça moralmente válido na Ética de Espinoza é imediatamente destruído pela ambiguidade e ambivalência que são duas características do relativismo “inteligente”.

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