perspectivas

Terça-feira, 23 Agosto 2011

Os amores-próprios de “comodidade” e de “vaidade” (1)

‎”To train a citizen is to train a critic. The whole point of education is that it should give a man abstract and eternal standards, by which he can judge material and fugitive things.”
~ G. K. Chesterton : ‘All is Grist.’

“Without education, we are in a horrible and deadly danger of taking educated people seriously.”
~ G. K. Chesterton : ‘The Illustrated London News.’

“O domínio da técnica não garante o exercício da sabedoria”.
José Mattoso



Não sei quem foi Gustave Le Bon de quem se fala aqui, o que não significa que não possa analisar a opinião expressa no postal:

«As estatísticas confirmam estes pontos de vista, indicando-nos que a criminalidade aumenta com a generalização da instrução; que os piores inimigos da sociedade, os anarquistas, são recrutados entre os melhores alunos das escolas (… ).» — Gustave Le Bon

Do Iluminismo saíram essencialmente duas coisas: a utopia libertária e o totalitarismo gerido por uma elite de gnósticos modernos: uma vez que a primeira hipótese se mostrou impossível, a segunda tornou-se aceitável.

O grande problema dos “intelectuais” surgidos do Iluminismo, é o de que, em muitos casos, apagaram (por vezes com raiva e ódio) a história das ideias (assim como, por exemplo, Estaline tentou apagar totalmente a imagem e a acção de Trotski da História da URSS). Trata-se de um exercício do impossível tornado viável pelo mero desejo. Há neste “apagar da ideias” uma espécie de projecção anacrónica para o passado que o reinventa e o anula, e que assim complementa a utopia do “futuro certo”: as ideias do passado não podem, de modo nenhum, ser colocadas na mesa das hipóteses do jogo político. Porém, esta gente está “inteligentemente” errada, porque a única coisa realmente certa, é o passado.

A pergunta que se coloca é a seguinte: o que se entende por “instrução”?

Se “instrução” é o endoutrinamento nas ciências segundo o positivismo, não me admiro nada que a criminalidade aumente com a generalização da “instrução”. Gustave Le Bon é — a julgar por esta opinião — apenas a “outra face da moeda” ideológica saída do Iluminismo, que é aquela se se serve do malogro da utopia para assim defender um elitismo neognóstico.

Do Iluminismo saíram essencialmente duas coisas: a utopia libertária (da imanentização do éschatos e do paraíso na Terra) e o totalitarismo (definido por Hobbes, sancionado pelo conceito de “vontade geral” de Rousseau, e depois por Hegel e Karl Marx) gerido por uma elite de gnósticos modernos: uma vez que a primeira hipótese se mostrou pragmaticamente impossível, a segunda tornou-se aceitável.

O tipo de “instrução” a que se refere Gustave Le Bon é aquele que tem como objecto exclusivo o “amor-próprio de comodidade”, e o “amor-próprio de vaidade” — a que se referem os moralistas franceses como por exemplo, La Rouchefoucauld ou Nicole, para além de Pascal e o próprio Santo Agostinho, e de que falarei com mais detalhe em próximos postais. Naturalmente que ao falar-se aqui em Santo Agostinho, provavelmente a autora do postal ficará, em acto contínuo, com os cabelos em pé perante tamanha heresia contra a doutrina religiosa de Comte…

E, se calha, alguém disser à autora do postal que o que está errado é o tipo de instrução, e não a instrução por si mesma, provavelmente ela continuará incrédula, porque, afinal, “a verdade não existe”, e “tudo é relativo” e “conforme aos desejos de cada um”.

Por isso, e em caso de dúvida, uma vez que a utopia faliu, resta-nos uma espécie de república de Platão remendada e actualizada, governada por uma elite de “sábios” que se auto-classificam como tal. Augusto Comte, com a sua religião imanentista, totalitária e positivista, não diria melhor.

Parece não haver como sair disto.

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