perspectivas

Domingo, 21 Agosto 2011

Hobbes, a inversão da ética aristotélica, e a fundamentação dos totalitarismos

O problema político da sociedade ocidental é, antes de mais, um problema ético. A dificuldade que encontramos hoje, na nossa sociedade, é que praticamente ninguém se dá conta de que antes da política está a ética, e por isso discute-se a política como se fosse a causa e não um efeito; e é muito difícil contrariar esta tendência.

Não foi por acaso que Hobbes inverteu totalmente a ética de Aristóteles para poder, assim, sustentar a tese absolutista do seu leviatão. Qualquer ideologia política tem que começar por subverter a ética vigente, porque sem essa subversão apriorística o seu conteúdo doutrinal, meramente político, não vale nada.

Hobbes foi de tal modo um indivíduo intelectualmente limitado (para não dizer, burro), que o próprio materialista, relativista moral e ateu Bertrand Russell escreveu o seguinte a seu respeito: “(…) tem graves defeitos, que não permitem pô-lo na primeira fila. Não suporta subtilezas e tem grande tendência para cortar o nó górdio. As suas soluções são lógicas mas pecam por omissão de factos não enquadráveis” [História da Filosofia Ocidental]. Se o próprio relativista Russell se refere assim ao seu compatriota Hobbes, podemos fazer uma ideia do perfil da criatura.

Se a ética define a política, Maquiavel e Hobbes inverteram a ética para poderem impôr determinadas ideias políticas, e a nossa sociedade é hoje o produto de todo um desenvolvimento histórico e ideológico que se seguiu a essa inversão.

Aristóteles escreveu [Metafísica, L, 1072 a 24-30] que “nós desejamos uma coisa por ela nos parecer boa — e não, por a desejarmos, é que nos parece boa”. Ou seja, o que Aristóteles quer dizer é que, embora nós desejemos o que nos parece bom, o julgamento moral é distinto do desejo da pessoa.

Hobbes inverteu este princípio ético e moral de Aristóteles como nunca ninguém — nem sequer Maquiavel! — tinha feito antes. Essa inversão consiste em afirmar, como fez Hobbes, que o princípio da avaliação ética é exclusivamente o “sujeito agente” (o que revela o relativismo moral), indexando assim e de uma forma exclusiva, os valores morais ao mero desejo do agente humano enquanto indivíduo.

Foi por via desta inversão da ética de Aristóteles que Hobbes construiu a sua doutrina política absolutista e totalitária expressa no Leviatão — ou seja, a doutrina politica do Leviatão de Hobbes não seria possível sem esta inversão ética, o que significa que qualquer totalitarismo, desde o tempo de Hobbes, passou a depender do relativismo moral — que atomiza a sociedade — para se poder impôr.

Por simples dedução, podemos, por isso, concluir que o actual relativismo moral que avança e impera na nossa sociedade, terá como “possibilidade pesada” a constituição de um novo totalitarismo. Para podermos manter a nossa democracia e a nossa liberdade, temos que combater o relativismo ético-moral que se expande cada vez mais: a liberdade e a democracia dependem de um realinhamento com a ética de Aristóteles; e se há coisa de que não tenho dúvida, é disto.

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10 Comentários »

  1. Bom post.

    Resta saber o que entende por ética pois, como deve saber, derivam dois significados do termo que refere. Se no mesmo estiver uma alusão a ambos, então estou de acordo.
    Igualmente como deve saber, o conceito de democracia na Grécia clássica e o vigente nos dias de hoje, são completamente antagónicos. A democracia como a vivemos advêm do iluminismo e não é a mesma do tempo de Aristóteles.

    Por fim, não tenha a menor dúvida que o problema da civilização ocidental é uma profunda crise de valores, onde a falta de decência está incluída, sendo que, no limite, “… sadly, Enligtenment will kill democracy” (palavras minhas).

    A questão focaliza-se neste ponto: A doutrina de Hobbes e Maquiavel visam a actuação do Estado e não dos cidadãos. Neste âmbito, a discussão poderá e deverá ser mais ampla.

    Permito-me fazer uma referência a uma noção que publiquei em 2001, num artigo de opinião no Público:
    “Liberdade não é a possibilidade de escolha, mas sim aceitar a responsabilidade pelas escolhas feitas”.

    Este é o problema das democracias actuais, a não responsabilização dos eleitos

    http://intransmissivel.wordpress.com/2008/05/29/poder-e-responsabilidade/

    Obrigado pela reflexão

    Comentário por VFS — Domingo, 21 Agosto 2011 @ 12:36 pm | Responder

  2. Por “decência cívica” o MCRR, entende não apenas os dois significados que decorrem da origem etimológica do termo ética – éthos e êthos – hábitos e/ou costumes mas igualmente a sua dimensão pessoal, a intenção da acção, como também a moral. Moral não como conceito, mas como valor.
    Por outras palavras, para nós, decência cívica implica a consciencialização da intenção de agir que permita concretizar, sustentar e fundamentar os fins do Estado: Justiça, Bem-estar social e Segurança.
    A decência é um valor que consideremos imprescindível à condição de cidadão, seja como eleitor ou eleito. Principalmente, a este último.

    http://movcrr.wordpress.com/perguntas-e-respostas/

    Comentário por MCRR — Domingo, 21 Agosto 2011 @ 12:40 pm | Responder

    • Já estou a ter trabalho extra… eu que só queria expor um princípio ético de Aristóteles…. ehehe

      O grego “ethos” traduz-se e significa “costumes”.

      Porém, para Aristóteles, ethos [ethoi]é a ciência prática que tem por assunto os actos do Homem enquanto possuidor de razão, por um lado, e por outro lado, tem como objectivo a virtude na condução da vida.

      Portanto, para Aristóteles, não há duas interpretações de ethos: ele engloba a “ciência prática” e o “comportamento humano” em um só conceito de ethos.

      No que diz respeito ao Estado, razão de Estado e afins, falarei noutro postal.

      Comentário por O. Braga — Domingo, 21 Agosto 2011 @ 5:54 pm | Responder

  3. “Resta saber o que entende por ética pois, como deve saber, derivam dois significados do termo que refere.”

    Diga-nos, por favor, que “dois significados” são esses a que fez alusão, porque há muita gente que pode ler este postal e que queira saber.

    1. De que é que eu falei aqui? De um princípio fundamental da ética de Aristóteles e da inversão desse princípio por parte de Hobbes, por forma a poder justificar o absolutismo do leviatão. Este assunto é muito actual: Portugal participa na construção de um novo leviatão europeu (a União Europeia).

    2. Pergunta: a ética de Aristóteles só era aplicável na Grécia antiga? Resposta: claro que não! E, no entanto, o amigo comentador insiste: diz ele que “os dois tipos de democracias” (na antiga Grécia e a moderna) “são diferentes” e que, por isso, as éticas terão que ser necessariamente diferentes, ou seja, ele parte da política para a ética, quando deveria partir da ética para a política.

    3. Os princípios da ética de Aristóteles são incompatíveis com a democracia moderna? Claro que não!. Provavelmente, o que se deverá repensar são os valores éticos herdados.

    “Liberdade não é a possibilidade de escolha, mas sim aceitar a responsabilidade pelas escolhas feitas”.

    Pergunta: “escolhas feitas” por quem?

    Eu prefiro a noção (definição) de “liberdade” segundo S. Tomás de Aquino:

    https://espectivas.wordpress.com/2011/08/13/sobre-a-liberdade/

    A liberdade consiste na adequação do desejo ao intelecto por intermédio da vontade — o que significa, consequentemente e de forma resumida, que a liberdade consiste em querer aquilo que é racional.

    Comentário por O. Braga — Domingo, 21 Agosto 2011 @ 5:40 pm | Responder

  4. Vou ler o seu postal com atenção.

    Comentário por O. Braga — Domingo, 21 Agosto 2011 @ 5:42 pm | Responder

  5. 1. Significados do termo ética:
    “éthos”, hábitos ou costumes (como bem refere) e “êthos”, intenção do agir.
    O termo ética tem a sua origem na palavra ἠθικός, isto é, aquilo que é do ἦθος, (carácter).

    2.O entendimento que deu à minha afirmação não está correcto. O que eu afirmo é que na Grécia clássica o contexto era a comunidade enquanto que nos dias de hoje é o individuo.
    Espero que não me esteja a dizer que o conceito de democracia da Pólis grega é o mesmo dos dias de hoje?
    Só falta dizer que no tempo de Aristóteles existiam as liberdades individuais.

    3.É evidente que não são incompatíveis.
    “Pergunta: “escolhas feitas” por quem?”
    Resposta: por si, por mim, por (quase) toda e qualquer pessoa.

    “I am not an advocate for frequent changes in laws and constitutions, but laws and institutions must go hand in hand with the progress of the human mind. As that becomes more developed, more enlightened, as new discoveries are made, new truths discovered and manners and opinions change, with the change of circumstances, institutions must advance also to keep pace with the times” – THOMAS JEFFERSON

    Eu prefiro o conceito de liberdade de homens com este.

    Pergunto-me se um homem do século XIII – apesar de interessantíssimo – afirmaria hoje a mesma coisa.

    4. Obrigado pela atenção da leitura.

    Por fim, como tenho ficado com a sensação que não gosta dos meus comentários, pois as suas reacções aos mesmos parecem-me agressivas, não voltarei a incomoda-lo.
    Muito obrigado

    Comentário por VFS — Segunda-feira, 22 Agosto 2011 @ 12:33 am | Responder

  6. *****************

    1. Eu NÃO coloco em causa o conteúdo do seu ponto 1. Apenas me referi ao facto de, em Aristóteles, existir uma aglutinação dos dois conceitos em ethos. Como sabe, muitas palavras em grego antigo tinham um uso popular que depois evoluíam do ponto de vista semântico quando utilizadas pelos filósofos.

    2.A ética aristotélica foi adaptada pela escolástica cristã, e como sabe, o Cristianismo é a pura afirmação do indivíduo. Portanto, dizer que existe uma incompatibilidade entre a afirmação do indivíduo e a ética aristotélica, não me parece correcto.

    O que me parece é que existe aqui, e da sua parte, uma pequena confusão entre indivíduo, por um lado, e subjectivismo, por outro lado (repare-se que eu não me refiro a subjectividade, mas a subjectivismo).

    3. A Ler:

    https://espectivas.wordpress.com/o-estado-da-etica/

    Leia este mini-ensaio meu, e se não o compreender, de nada vale esta troca de ideias.

    Eu não me devo submeter a uma ética provisória e em constante negociação, porque os valores da ética devem ser intemporais, racionalmente fundamentados, e tão universais quanto possível.

    A concepção de Jefferson do cidadão americano era uma transposição da democracia grega de uma só classe, para a ideia americana do agricultor como classe única (ingenuidade conceptual).

    Jefferson não era um filósofo nem tinha capacidades intelectuais para isso, e apenas e só copiou as ideias do utilitarismo escocês (Bentham e Hume, para falar só de dois nomes sonantes). Ora é esse niilismo subjectivista e utilitarista que é criticado aqui em Hobbes. Se esse é o seu paradigma ético, não só é facílimo rebatê-lo, como não lhe gabo o gosto.

    Além disso, naquela citação supra, Jefferson não define liberdade, ao contrário do que fez S. Tomás de Aquino. Jefferson define a lei, o que pode ser — e é muitas vezes — até a negação da expressão da liberdade segundo S. Tomás de Aquino. Portanto, um homem do século XIII afirmaria HOJE a mesma coisa, porque você está a referir-se a coisas diferentes; e porque assim como na geometria h2=a2+b2 é um axioma, assim também existem outras verdades axiomáticas, universais e intemporais que se aplicam na ética.

    3. É óbvio que eu pressinto nos seus comentários uma não-concordância, como aliás ficou bem patente no seu último comentário. Não se trata de agressividade da minha parte: trata-se de uma reacção a uma discordância anunciada.

    Comentário por O. Braga — Segunda-feira, 22 Agosto 2011 @ 2:52 am | Responder

  7. [...] estou de acordo com este texto que me surgiu deste comentário. Gostaria, porém, de acrescentar algumas [...]

    Pingback por Hobbes, a inversão da ética aristotélica, e a fundamentação dos totalitarismos (2) « perspectivas — Segunda-feira, 22 Agosto 2011 @ 6:02 am | Responder

  8. [...] Segundo Leibniz — cuja ética não é normativa, mas sim prescritiva —, o que prejudica o bêbedo de Locke “não é a inquietação, que nem sempre é desprazer, mas muitas vezes uma percepção sensível em que se torna difícil distinguir o que faz pender mais para um lado do que para outro”. Ou seja, é a escolha (o juízo, ou o entendimento) do objecto de desejo em si mesmo que se torna importante, e não a simples procura, em si mesma — muitas vezes, infindável —, do objecto do desejo (como defendiam Locke e Hobbes, sendo que este último inverteu a ética aristotélica). [...]

    Pingback por Leibniz e o bêbedo de Locke (salvo seja) « perspectivas — Sexta-feira, 2 Setembro 2011 @ 12:51 pm | Responder

  9. [...] Hobbes, para além de inverter a ética aristotélica, radicalizou o conceito de direito natural que vinha de Grócio, estendendo-o ao conceito de [...]

    Pingback por Ainda sobre a dicotomia maniqueísta entre “nacionalismo” e “democracia” « perspectivas — Terça-feira, 6 Setembro 2011 @ 4:07 pm | Responder


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