perspectivas

Segunda-feira, 15 Agosto 2011

“A culpa é da democracia” (2)

O Renascimento marca a explosão do gnosticismo cristão recalcado e reprimido desde Constantino. O Renascimento fez ressurgir as ideias clássicas (greco-romanas) à luz da formidável metafísica cristã, ou seja, coloca o classicismo greco-romano fora de contexto e interpreta-o anacronicamente. O Renascimento é um processo de criação de uma ucronia multifacetada que deu lugar à proliferação das utopias políticas modernas e contemporâneas.

Quando a maioria dos conservadores critica o Iluminismo (e com razão), parece esquecer-se que o problema vem de trás. Ao contrário do que essa maioria parece pensar, a Idade Média (que inclui o Renascimento a partir do século XIII) não foi uma maravilha ideológica, e só se salvou alguma coisa desse tempo através da repressão feroz em relação aos gnósticos (por exemplo, dos cátaros ou albigenses, para não falar em muitos outros casos). Porém, essa mesma repressão radical sobre os gnósticos retirou o brilho e a aura de pureza de ideias que normalmente os conservadores atribuem à Idade Média.

Por outro lado, a maioria dos críticos — esquerdistas e contemporâneos — da Idade Média não sabe o que diz. A Idade Média foi, de facto, o manancial da utopia radical da Esquerda contemporânea. E essa utopia radical surgiu precisamente no seio da Igreja Católica medieval, por exemplo, com Joaquim de Fiore, com a Escola de Chartres, com as múltiplas correntes dos franciscanos (por exemplo, as que opunham os “dois irmãos inimigos”: Duns Escoto, por um lado, e Guilherme de Ockham, por outro), os Fraticelli joaquinistas, etc. — ou seja, a Inquisição católica reprimiu alguma coisa mas deixou passar a maior parte das ideias gnósticas oriundas da antiguidade tardia.

Embora o século XVI (1500) seja considerado cronologicamente já fora da Idade Média, estamos ainda no processo do Renascimento, e portanto não podemos “cortar” a História desta forma, separando-a em função de simples datação histórica. O Renascimento teve o seu início na Idade Média Clássica (séculos XII e XIII), coincidindo com a introdução de Aristóteles na cultura académica — cuidado com os académicos e universitários de todos os tempos!, como são exemplos contemporâneos Peter Singer, Daniel Dennett, Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Sam Harris, Julian Savulescu, Anthony Cashmore, entre outros —, e por isso não podemos separar os acontecimentos renascentistas do século XVI e XVII, por um lado, da raiz epistemológica do Renascimento, que o liga ao ressurgimento das ideias clássicas, e da sua reinterpretação e enviesamento anacrónico e ucrónico, por outro lado.

Se existiu uma “utopia da Reforma” (luteranismo, e sobretudo o calvinismo e outras seitas, como por exemplo, os anabaptistas, puritanos ingleses, etc.), também existiu uma “utopia da Contra-Reforma” católica. Fora do âmbito destes dois tipos diferentes de utopia, apareceu Maquiavel (o greco-romano, sucessor e herdeiro dos romanos Tácito e Celso) e seus sucedâneos, que encarnaram a negação da religião transcendental cristã. Portanto, temos aqui essencialmente três categorias diferentes de utopia.

Não é por acaso que Albert Camus se referia a Karl Marx como sendo “o cristão”, e a Nietzsche como sendo “o grego”: Nietzsche faz parte — é um sucedâneo, ou é uma vergôntea — desta terceira herança utópica greco-romana que nega anacronicamente o Cristianismo.

Se analisarmos a “Cidade do Sol”, do católico Campanella, vemos lá escarrada a essência da utopia comunista de Karl Marx. Campanella, e muitos outros — por exemplo, Anton Francesco Doni (1513-574), Mambrino Roseo (contemporâneo daquele), A. De Guevara (1480 – 1545), Ludovico Agostini (1536 – 1612), o próprio Tomás Moro (1478 – 1535), a utopia presente na abadia de Thélème, descrita por Rabelais (1494- 1545), entre muitos outros exemplos — ilustram a “utopia da Contra-Reforma” católica, que tem como característica comum a defesa de uma maior intervenção do Estado [secular ou teocrático] na “economia política” (economia e política não eram, naquele tempo, vistas de forma separada, como acontece hoje), ao contrário do que acontecia com a “utopia maquiavélica”, ou mesmo com a “utopia da Reforma” calvinista.

A política contemporânea é um sub-produto da amálgama, ou do refinamento, desses diferentes tipos de utopias que tiveram a sua origem na Idade Média e no Renascimento.

(Parte I)

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