perspectivas

Domingo, 14 Agosto 2011

“A culpa é da democracia”

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 9:48 am
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A ideia de que o poder político só pode vir do Alto (de uma autoridade espiritual) foi a mesma que inspirou Calvino e a teocracia de Genebra, que deu alento acrescido ao gnosticismo latente na cultura intelectual europeia do século XVI e lançou definitivamente o movimento revolucionário em velocidade de cruzeiro.

Porém, se nós repararmos naquilo que foi escrito por S. Paulo, pelos Padres do primeiro Cristianismo, e por Santo Agostinho na “Cidade de Deus” — para não falar na própria mensagem de Jesus Cristo que separa o que é de César daquilo que é de Deus —, fica claro que a ideia de uma autoridade espiritual que superintenda a política mundana vai contra os princípios do cristianismo, e é um princípio herdado do gnosticismo cristão da antiguidade tardia (Marcião). Eu não vou aqui perder tempo com mais explicações sobre isto, porque basta as pessoas despenderem algum tempo a ler.

Portanto, é assumido que o clero tem uma missão de magistratura de influência na política, e não da condução da política em si mesma. Um bispo, por exemplo, pode e deve dar um conselho aos cidadãos ou aos políticos, mas não se deve imiscuir directamente na condução dos negócios políticos. Quem for contra esta ideia pode ser tudo menos genuinamente cristão.

O problema que se coloca hoje é o da validade da democracia como sistema político. Há pessoas que dizem que “a democracia do povo pelo povo é uma impossibilidade total”. Porém, e em primeiro lugar, teríamos que definir democracia; depois, teríamos que saber a origem e a história da democracia; em seguida, saber se aconteceram desvios conceptuais em relação à ideia original de democracia e quais foram; e por último, saber se existe um sistema político melhor ou mais adequado do que a democracia. Isto “dava pano para mangas” e não tenho aqui espaço nem paciência dos leitores.

A ideia de que o regime dos Trinta Tiranos, que matou Sócrates, era uma democracia grega, está errada. E não nos podemos esquecer que embora Platão fosse contra a democracia, ele defendeu na sua República um sistema político que faria corar de inveja o Francisco Louçã e a Esquerda mais radical, por um lado, e, por outro lado, foi graças à democracia grega que Platão pôde ser hoje, e ao longo do tempo, conhecido e reconhecido.

Quem contesta, hoje, a democracia, coloca o problema de forma errada, porque confunde as causas com os efeitos. O problema não está na democracia em si mesma, mas na forma como vemos a democracia e como ela é interpretada na actualidade. E, por outro lado, confunde-se democracia com a chamada “ruling class”, que incorpora uma classe política que faz uso da versão negativa da Razão de Estado (segundo Maquiavel e, mais tarde, segundo Henry de Rohan).

A versão negativa da razão de Estado baseia-se no critério interpretativo subjectivista — em relação à realidade social — do poder do governante ou da classe política (mesmo que apoiado em estatísticas ou na chamada “ciência política”), e foi o esteio do absolutismo segundo Jean Bodin. E foi esse critério subjectivista de uma elite neognóstica que assume o Poder político que presidiu à ideia do leviatão de Hobbes e à “vontade geral” de Rousseau, e que deu azo às ideias de Hegel e Fichte e aos totalitarismos do século XX.

Uma coisa é certa: nós não podemos voltar atrás no tempo; provavelmente, nem Deus o faria.

Se pudéssemos voltar atrás no tempo, teríamos novamente Duns Escoto a reclamar o poder político absoluto do Papa sobre os estados da Europa e do mundo; e foi, em parte, esta teoria política teocrática que esteve na base do absolutismo secular segundo Jean Bodin, que nasceu da inversão da hierarquia da relação de poder entre o Papa e o príncipe — e que retirou o poder absoluto ao Papa e ofereceu-o ao príncipe. Daí até Hitler, foi apenas um milésimo de segundo cósmico.

(Parte 2)

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