perspectivas

Quarta-feira, 3 Agosto 2011

Jean-Pierre Olieu e o “casamento” gay

O que se passa hoje é uma tentativa escandalosa da classe política, na sua maioria influenciada pelo movimento revolucionário, de se servir do pacto social que lhes garante o poder político para impôr coercivamente ao povo o conceito de “progresso da opinião pública”, “progresso” esse que coincide totalmente com uma visão elitista e desenraizada da realidade da sociedade.

O absurdo com pernas

É neste contexto que se situam as engenharias sociais, como por exemplo, o “casamento” gay ou gaymónio. Com a eliminação da tradição, ou hábito, o povo fica totalmente desarmado perante as investidas da elite política neognóstica. É também neste contexto que podemos compreender, por exemplo, a tentativa de proibir as touradas: tudo o que é tradição terá que ser eliminado, para que o povo deixe de ter referências culturais que, de algum modo, dificultem uma nova cultura de abuso sistemático do poder político por parte da elite.

Porém, esta tentativa política neognóstica vai ser de curta duração, e isto por razões bem objectivas. A ilegalização do gaymónio no futuro é uma possibilidade pesada. Por isso é que os gayzistas estão com pressa na tentativa da legalização da adopção de crianças: o tempo corre contra eles.

Para escorar a minha tese, vou recorrer à tese de uma personalidade que praticamente já ninguém sabe quem foi: Jean-Pierre Olieu, aka, Jean-Pierre Olivi, aka Peter Olivi (1248 — 1298).


O politicamente correcto (de que faz parte 99,99% da nossa classe política) pretende, em parte, impôr à nossa sociedade uma espécie de ética aristotélica, ou seja, pretende fazer regredir a sociedade ao tempo anterior ao Cristianismo. Essa ética aristotélica tem como característica o facto de se limitar a uma avaliação dos actos externos; para Aristóteles, a ética revela-se na sociedade apenas na beneficência: sendo as intenções secretas, só se podem avaliar as obras; aquilo que cada um pensa ou sente deve ser guardado na intimidade da sua casa: apenas contam as manifestações éticas externas, independentemente daquilo que o cidadão pensa delas.

O Cristianismo, e nomeadamente através de Santo Agostinho, veio introduzir a noção de “intencionalismo” — que foi mais tarde deturpada e adulterada, por exemplo, por Pedro Abelardo. A existência de Deus faz com que a ética cristã perscrute os pensamentos e os desejos secretos, e relaciona as nossas acções com o seu fim; enraíza-se num exame de consciência (sendo a noção de “consciência” uma herança estóica) e orienta-se para uma intenção finalista.

Mais tarde, Bernardo de Claraval (entre outros) defenderá uma mistura entre a ética aristotélica e a ética intencionalista de Santo Agostinho.


Porém, e mesmo que não concordemos totalmente com ela, existem algumas verdades lógicas decorrentes do intencionalismo. Segundo Olieu, uma coisa não muda de natureza quando recebe uma qualificação jurídica: Quid ponat ius?, pergunta Olieu — ou seja, por exemplo, não é pelo facto de a lei chamar de “casamento” ao gaymónio que este passa a ser casamento. Assim como o selo do príncipe, por si só e como símbolo, não tem poder nenhum, assim o “casamento” gay não tem legitimidade senão através da instituição de uma nova ordem social.

Essa nova ordem social requer três elementos, sem os quais não pode existir: um sinal (ou “símbolos”); uma vontade que associa um efeito a esse sinal; e uma sociedade que reconhece esse sinal e que lhe admite a validade e a legitimidade. O direito não muda as coisas — nem os símbolos ou sinais: apenas associa-os num pacto semântico através de um acordo generalizado de vontades.

Assim, através da instituição, é a vontade da sociedade (entendida como um todo) que funda o direito; e a consequência prática deste conceito é o de que o “casamento” gay existe numa lei desvinculada da vontade da sociedade (é um direito negativo), e por isso não existe na realidade.

Se a liberdade metafísica da vontade está na origem de todos os direitos, só existe poder legítimo na medida em que se baseia numa vontade livre (Olieu) — o que implica necessariamente um consentimento dado de forma positiva, e não de forma negativa (por omissão).

O questão é a de saber se essa nova ordem social, que pretende ser construída pelas elites contra o acordo da vontade da maioria, serve a preservação futura da sociedade. A resposta é, clara e inequivocamente, não. O símbolo (ou sinal) do gaymónio, para além de não ter sido associado a uma vontade generalizada e positiva da sociedade, contribui (como símbolo) exactamente para o definhamento futuro da sociedade.

Portanto, o problema da nova sociedade elitista não tem apenas a ver com o direito, mas também com a própria preservação da sociedade cujo interesse ultrapassa todas as engenharias sociais. E é por isso que Jean-Pierre Olieu, mesmo sem o saber, estava certo quando defendeu a ideia segundo a qual o “casamento” gay (ou o aborto livre) terá que ser abolido num futuro que não será tão longínquo quanto possa parecer.

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