perspectivas

Terça-feira, 26 Julho 2011

Sobre a ética estóica

Eu sou avesso à utopia. O termo “utopia” foi cunhado por Tomás Moro a partir do grego “ou” (privativo) + “topos” (o lugar), e que significa “aquilo que não é de nenhum lugar”; porém, pelo facto de não ser de nenhum lugar, não significa que o utopista não pretenda que esse lugar exista realmente. A utopia é a descrição concreta da organização de uma sociedade ideal que é, por isso, considerada pelo utopista como sendo factível. Não quero dizer com isto que seja proibido, ao Homem, sonhar; o que é necessário é distinguir entre imaginação criativa, por um lado, e a imaginação imaginativa, por outro lado; entre o sonho que tem em conta a realidade, e aqueloutro que pretende negar a própria realidade a partir da qual se constrói.

Tomás Moro apenas cunhou o termo “utopia”, porque o conteúdo da sua utopia é dos estóicos; Moro apenas copiou uma antiga utopia estóica, que o escritor cínico Luciano fez menção no seu diálogo “Hermótimo”: uma cidade onde não existem diferenças entre os cidadãos. Nessa cidade terrena e utópica estóica, não existiriam templos, universidades e tribunais, porque os cidadãos estóicos que nela habitariam seriam tão perfeitos como Deus (ou deuses).

O estoicismo parte de uma contradição insanável entre o naturalismo (a lei natural) que o fundamenta, por um lado, e o relativismo assumido em relação à valorização igualitária das diferentes culturas. Se um estóico vivesse hoje, seria multiculturalista no sentido de valorizar igualmente as diferentes culturas: Se a estranheza dos costumes e a vacuidade das opiniões não desorientassem, se não vergassem as nossas fracas almas que seguem como carneiros uns atrás dos outros, nenhum homem seria mais semelhante a si do que todos o seriam a todos” (Cícero, Leis). Em resposta a Cícero, podemos dizer que “se a minha avó tivesse rodas era um Rolls Royce”. O estóico recusa a realidade da natureza humana servindo-se, alegadamente, da aplicação da lei natural na sua ética: eis uma contradição insanável.

Na sua polémica contra o romano Celso, Orígenes (o Padre) criticou o estoicismo por admitir o incesto como possibilidade moralmente válida. Para os estóicos, a sexualidade (assim como o prazer em geral) é um valor indiferente; nem é bom nem é mau (excepto quando se torna passional). Não sendo passional (no sentido do exagero da sua prática), no sexo estóico vale tudo.

Não há nada na ética estóica que estabeleça a pedofilia como tabu cultural e ético (desde que o sexo pedófilo não seja exagerado!). Um estóico que vivesse hoje admitiria a possibilidade da legalização do sexo com menores de idade. Para o estóico, o importante é menos o tipo de comportamento sexual do que os excessos desse comportamento (“Sexo pedófilo? Sim” — confirma o estóico —, “mas com regras!”).

A ética estóica é naturalista e panteísta. Para o estóico, não existe a realidade da transcendência divina, mas apenas a imanência da natureza que é o Todo Universal (Deus é o Universo). A noção de “Grande Arquitecto” maçónico tem uma forte influência estóica. Pascal referiu-se à ética estóica como sendo uma “filosofia do orgulho”, e Leibniz classificou-a de “paciência esforçada e sem esperança”.

O estoicismo é uma das linhagens do gnosticismo da antiguidade tardia que mais influenciou o Cristianismo através dos chamados “cristãos estóicos”, que eram avessos à tradicional caridade cristã e católica (tendência gnóstica que influenciou Lutero e a Reforma!). Por exemplo, a escola de Port-Royal e o Jansenismo têm claramente uma forte influência estóica; o panteísmo de Espinoza e a ética do dever de Kant têm origem estóica.

O estóico é um gnóstico naturalista, que fundamenta a sua ética na natureza e nas suas leis. Porém, sabemos hoje que nenhum sistema ético válido, universal, intemporal, coerente e racional pode ser inferível, ou a partir da natureza em si mesma e das suas leis determinísticas, ou mesmo a partir da natureza humana.

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