perspectivas

Domingo, 24 Julho 2011

Sobre o caso Anders Behring Breivik

Para além do horror dos 92 mortos causado por essa personagem de seu nome Anders Behring Breivik, este caso suscita-me algumas perplexidades e esclarecimentos que passo a enunciar.

  1. Nos países nórdicos praticamente já não existe Cristianismo. Por exemplo, a Igreja estatal sueca é apenas uma figura de estilo de apoio político à monarquia; se olharmos para a informação oficial disponível acerca das religiões na Suécia, por exemplo, constatamos que 87% da população é luterana, o que não corresponde minimamente à realidade: ninguém acredita que 87% dos suecos vão à igreja luterana ao Domingo…
    O mesmo se passa com a Igreja da Noruega; os dados estatísticos do CIA Factory Book, por exemplo, mencionam que 85% dos noruegueses são luteranos. Porém, qualquer pessoa bem informada sabe que a verdadeira “religião prática” da Noruega é o laicismo. É neste contexto cultural que deve ser situado o caso de Anders Behring Breivik.
  2. Para além do duplo atentado em si, este caso choca também por ter ocorrido num país com apenas 4,6 milhões de habitantes — não se trata de um grande melting-pot ou de um grande país de imigração, como é o caso dos Estados Unidos, em que a identidade cultural de origem se dilui.
  3. Outro factor de choque acrescido é o facto de não existir qualquer intenção utilitarista por detrás das mortes — ou seja, o autor dos massacres de Oslo não ganhou pessoalmente nada com eles. Por exemplo, no Brasil são assassinadas, por ano, cerca de 50 mil pessoas; mas estes crimes no Brasil têm, na sua esmagadora maioria, alguma coisa a ver com a criminalidade organizada (tráfico de drogas, etc) que visa o lucro, o que não aconteceu no caso de Anders Behring Breivik.
  4. Outro problema que se coloca aqui é o de saber se o assassino em massa é uma pessoa normal do ponto de vista psiquiátrico. Naturalmente que a forma como ele planeou os ataques revela um frio racionalismo: não se trata, por isso, de um “tolo”, no sentido popular do termo. Porém, do ponto de vista do padrão do legado cultural humanista cristão, não podemos dizer que Anders Behring Breivik seja normal, assim como não podemos dizer, por exemplo, que Mengele tenha sido uma pessoa normal.
  5. Não se trata, neste caso, de um fundamentalista religioso, sendo que “religião” deve ser entendida, aqui, como religião transcendental ou universal (Cristianismo, Islamismo, Judaísmo, Hinduísmo, Budismo, etc.). Neste caso estamos a lidar com uma “religião política”.
    O facto de Anders Behring Breivik se dizer “maçon” ou “cristão”, não passa da afirmação de referências culturais alegadamente em oposição a outras referências culturais; porém, tanto o estatuto de maçon como o de cristão não são assumidos por ele como filosofias ou modos de vida: são apenas instrumentos de socialização e de afirmação de uma determinada religião política.
  6. O problema da normalidade ou da anormalidade de Anders Behring Breivik começa a ser uma “situação social e cultural”, porque se, de facto, ele é anormal do ponto de vista psicológico, então existem hoje, cada vez mais, pessoas anormais que são consideradas normais.
    Este caso está longe de ser único: pelo contrário, reflecte uma tendência cultural e política “subterrânea” que afecta os países nórdicos em geral, incluindo a Alemanha. Porém, não é com a repressão política brutal que se contraria esta tendência política actual, mas com a consciencialização e sensibilização da classe política para este problema. A classe política tem que perceber quais são as causas do fenómeno político neonazi na Europa, e actuar a partir dessa compreensão.
  7. Por último, uma referência ao nacionalismo. Anders Behring Breivik diz-se “nacionalista” por oposição ao “internacionalismo”. Por aqui se vê a inconsistência ideológica desta tendência política europeia, na medida em que é maniqueísta e adopta basicamente a ideologia nacional-socialista alemã.
    O nacionalismo verdadeiro, como é o caso do nacionalismo português que nasceu em 1143, não se opõe à internacionalização — pelo contrário: Portugal foi o exemplo de um nacionalismo internacionalista! A “internacionalização” não é sinónimo de “desnacionalização”; são conceitos diferentes. O legado nacionalista português internacionalizou-se ao longo de séculos, mas recusa a desnacionalização, na medida em que defende a diversidade cultural e política das nações.

8 comentários »

  1. O laicismo é tudo menos uma religião ou uma prática religiosa.
    É uma doutrina filosofia que aborda a separação do Estado em tudo o que esteja no âmbito do religioso, tendo sido a sua melhor formulação expressa por Max Weber.
    Não admira, portanto, que, no contexto político, quando se emprega o adjectivo, o mesmo seja utilizado para distinguir em Estados Teocráticos ou não, como, por exemplo, o caso do Estado do Vaticano.

    Talvez esteja a entender mal o seu post, mas fico com a impressão que um dos problemas da Noruega é não ser um país cristão. Estou a ler bem?

    Finalmente, concordo com a sua preocupação. Como o homem tem uma tendência natural para a repetição, o fenómeno neonazi deve ser vigiado e analisado com muito cuidado.

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    Comentar por VFS — Domingo, 24 Julho 2011 @ 12:46 pm | Responder

    • “Talvez esteja a entender mal o seu post, mas fico com a impressão que um dos problemas da Noruega é não ser um país cristão. Estou a ler bem?”

      Não. Não está a ler bem. O que eu quis significar é que a ideia politicamente correcta propalada pelos me®dia segundo a qual “um cristão matou 92 pessoas”, não corresponde à realidade e à verdade objectiva. Isto é um facto.

      “ O laicismo é tudo menos uma religião ou uma prática religiosa.”

      A sua definição de laicismo é a seguinte: “É uma doutrina filosofia que aborda a separação do Estado em tudo o que esteja no âmbito do religioso, tendo sido a sua melhor formulação expressa por Max Weber.”

      Esta sua ideia de laicismo parte do pressuposto de que o Estado é neutral em matéria de religião. Desde logo, este putativo esforço de neutralidade, por parte do Estado, revela uma determinada religião política, uma vez que se pode considerar absurdo separar o Estado, por um lado, da sociedade em si mesma, por outro lado. Ou seja: o Estado só pode ser neutral em matéria de religião, substituindo as religiões existentes por uma outra religião política (por exemplo, a “religião” de Montesquieu ou a de Diderot), porque não é possível conceber o ser humano, individual ou colectivamente, sem uma religiosidade qualquer.

      Em segundo lugar, a neutralidade do Estado, seja no que for, é contraditória nos seus próprios termos, porque não é possível uma neutralidade entre a não-neutralidade, por um lado, e a neutralidade, por outro lado. Ao pretender tomar uma atitude neutral, seja em que área for, o Estado está sempre a assumir uma posição de não-neutralidade.

      Em terceiro lugar, mesmo que consideremos o laicismo como uma espécie de “neutralidade do Estado em matéria de religião”, aquele começou por ser neutral e evoluiu rapidamente para uma religião política anti-religiosa: na Idade Média, a sociedade era anti-ateísta; na Idade Moderna o Estado passou a ser ateísta; e hoje, em muitos países do Ocidente, o Estado já é anti-teísta. Neste sentido, o laicismo é hoje uma religião negativa.

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      Comentar por O. Braga — Domingo, 24 Julho 2011 @ 3:17 pm | Responder

  2. Tendo em conta que as actuais constituições derivam da revolução americana, pode ter a certeza que há uma separação entre o Estado e a religião, pelo menos no mundo ocidental. Se os actuais governantes a seguem ou não, se os actuais governantes são neutrais ou não, isso é outro assunto.

    A definição de laicismo não é minha. Foi aquela que aprendi e pode ser consultada num diccionário ou enciclopédia. Não tenho por hábito adequar os conceitos à minha argumentação. Apenas os utilizo para fundamentar a minha posição.

    Por fim, o Senhor apresenta a sua própria versão de laicismo, a qual, na minha opinião, não está fundamentada.
    Igualmente extrapola comparações utilizando diferentes circunstâncias políticas, como se as mesmas fossem comparáveis.

    Mas o blog é seu e, naturalmente, é livre de dizer o que pensa.

    Obrigado pela resposta à minha observação.

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    Comentar por VFS — Domingo, 24 Julho 2011 @ 3:34 pm | Responder

  3. 1. Não sei o que o levou a dizer que “as actuais constituições derivam da revolução americana”; Tocqueville, por exemplo, escreveu exactamente o contrário do que você afirmou, ou seja, que as constituições europeias em geral (incluindo as de países nórdicos como, por exemplo, a Alemanha) tinham uma génese diferente da americana.

    A prática política, como por exemplo, a democracia, decorre da tradição e não exclusivamente da lei. A maioria das constituições europeias são vergônteas de Rousseau (e do conceito abstracto de “vontade geral”), e não de Locke (como é o caso da constituição americana).

    2. Uma definição de alguma coisa, ou traduz uma verdade intemporal, ou é, em vez disso, uma “verdade” característica do Zeitgeist (característica de um determinado tempo). No último caso, estamos em presença de uma verdade sofista.

    Em política, não é pelo facto de nós definirmos um conceito que ele passa automaticamente a ser uma verdade intemporal. A sua definição de “laicismo” pode estar correcta em termos abstractos, mas ela não corresponde, hoje, à realidade concreta revelada pelos factos.

    3. Eu não apresento nenhuma “versão minha” do laicismo: apenas constato factos. Que eu saiba, a constatação de factos não é um exercício subjectivista. Quando a constatação de factos passar a ser um exercício subjectivista, o neonazismo — ou outra qualquer forma de totalitarismo — terá atingido os seus objectivos.

    4.

    “Igualmente extrapola comparações utilizando diferentes circunstâncias políticas, como se as mesmas fossem comparáveis.”

    Você diz que eu “extrapolo”, mas o leitor anónimo não o vai compreender porque você não diz em que é que eu “extrapolo” e onde eu “extrapolo”. Você apenas diz que eu extrapolo; ponto final. Seria uma coisa semelhante se você dissesse:

    “Igualmente diz umas coisas utilizando situações políticas, como se essas coisas fossem comparáveis.”

    Ninguém fica a saber que “coisas” são essas. Você também pode dizer que eu estou errado porque estou errado; está no seu pleno direito de pensar que eu não tenho razão porque não tenho razão.

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    Comentar por O. Braga — Domingo, 24 Julho 2011 @ 7:16 pm | Responder

  4. O facto de a maioria dos noruegueses não serem cristão não significa que ele não seja. Ele é cristão.
    Quanto ao melting pot, 11% da população norueguesa é estrangeira.

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    Comentar por igorcaldeira — Segunda-feira, 25 Julho 2011 @ 9:52 am | Responder

  5. Laicismo, maçonaria, Cristianismo, etc.

    É Portugal um país melhor controlado pela maçonaria?

    É Portugal um país laico? De verdade?

    Enfim. De volta ao tópico deste blog proponho-me a dar a minha humilde opinião.

    A estatística apresentada acima é interessante do ponto de vista teórico. As pessoas não são apenas números. As experiências de ciências sociais realizadas nos finais do século 19 e durante todo o século 20 foram trágicas para a humanidade. Marx, Engels, Lenin, Hitler, Stalin entre outros são o fruto desses pensamentos e pensadores tão em voga no final do século 19 e princípio do século 20. Pessoas como Bernard Shaw a exortarem á exterminação em massa. O Norte e Leste da Europa foram o palco privilegiado para estas experiências. Há muitas feridas abertas que duvido cicatrizem tão facilmente naquelas paragens.

    Olhando a Europa e reflectindo sobre este neo racismo emergente receio que mais cedo do que pensamos voltaremos a ter conflitos internos que poderão culminar com o fim da Europa federada que tentamos promover.
    Não sou racista e como tal não gosto de ser descriminado. No entanto quando viajamos por países muçulmanos conseguimos sentir essa segregação. Os emigrantes que procuram refugio na Europa quer por motivos económicos quer por motivos humanitários ou políticos não promovem a sua própria integração antes e bem pelo contrário ostentam a sua própria cultura numa tentativa de a instalar no país que os acolheu de braços abertos. Eu sei o que era a Suécia á 6 anos e sei o que é a Suécia hoje. Sinceramente não me agradou a mudança e penso que para muitos Suecos essa mudança não deve ser aceite de forma pacífica. A França tem este tipo de problemas, a Inglaterra idem, a Alemanha vai pelo mesmo caminho. Espanha e Itália lutam contra as correntes migratórias. Agora estourou na Noruega e é apenas uma questão de tempo até que outro foco rebente num outro qualquer lugar na Europa e Portugal não é excepção. A distanciação do poder político de Lisboa em relação ao Portugal real é cada vez maior. Cada vez mais Lisboa é tudo menos Portugal. Veja-se a calamidade das SCUT na área metropolitana do Porto. Não é possível ir ao aeroporto sem se pagar portagem. Ou em Aveiro onde logo á saída da A1 se paga portagem para fazer o ramal de acesso á cidade. No entanto em Lisboa a 2ª circular apesar de ter uma extensão em distância muito superior é percorrida diariamente por milhares de veículos sem taxas. Isto provoca revolta e no entanto no governo de Lisboa ninguém tem sensibilidade para o facto. O caso dos ciganos para quem são feitos bairros de raiz e que usufruem do rendimento mínimo e de todo o tipo de apoio social para o qual não contribuem é motivo de revolta. E muitas outras situações haveria para denunciar. A revolta existe está enraizada na sociedade e pretende-se combate-la fazendo opinião oficial nos média. Mas opiniões fabricadas perdem por se alojarem afastadas da realidade.

    Infelizmente casos como o de Anders Behring Breivik voltarão a ocorrer em Portugal ou noutro qualquer país Europeu.

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    Comentar por Kāpēc Ceļojumi — Segunda-feira, 25 Julho 2011 @ 3:24 pm | Responder

    • «A estatística apresentada acima é interessante do ponto de vista teórico. As pessoas não são apenas números.«

      Sinceramente não vejo o alcance desta sua proposição em ligação com o conteúdo do postal.

      «Olhando a Europa e reflectindo sobre este neo racismo emergente receio que mais cedo do que pensamos voltaremos a ter conflitos internos que poderão culminar com o fim da Europa federada que tentamos promover.»

      Uma das intenções do assassino Anders Behring Breivik era o de promover uma “Europa Unida”, o que no fundo é uma espécie de Europa federada.

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      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 25 Julho 2011 @ 3:42 pm | Responder


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