perspectivas

Quarta-feira, 13 Julho 2011

Racionalismo não é racionalidade

O realismo ingénuo consiste, basicamente, na noção comum segundo a qual a realidade está de acordo com as percepções [sensoriais] que temos dela. Embora as coisas não se passem exactamente de acordo com o realismo ingénuo, este é necessário à formatação do senso-comum.

A cadeira em que estou sentado, segundo o realismo ingénuo, é sólida e compacta o suficiente para suportar o meu peso; e quem insistir no contrário disto, estará a precisar de tratamento psiquiátrico. Porém, a verdade é que a cadeira em que me sento é composta mais por vácuo do que por matéria (partículas elementares); mas essa realidade da “cadeira quântica”, é microscópica, e por isso, não pode influenciar sobremaneira o nosso senso-comum que é predominantemente macroscópico.

Mas isto é o que nós sabemos hoje. Locke, no seu tempo, não o poderia saber.

Porém, é notável como alguns filósofos anteciparam as conclusões da física quântica, ainda que por via da razão pura. Por exemplo, Kant considerou um “escândalo da razão” (sic) o facto de não ser possível encontrar uma prova concludente para uma evidência tão simples como a existência do mundo exterior independente de nós próprios. Kant não quis dizer que esse mundo exterior não existia na realidade (como o afirmou, por exemplo, Berkeley): o que Kant quis dizer é que nós não conseguimos uma prova concludente desse facto que é absolutamente real.

Karl Popper, na sua habitual ambiguidade diplomática, e para não ferir as susceptibilidades do mundo contemporâneo, burguês e positivista, foi um pouco mais comedido do que Kant: “o mundo exterior é uma hipótese de trabalho para a ciência da natureza”.

O filósofo da ciência Hans Albert (um amigo de Karl Popper) chegou à conclusão de que o empirismo explica apenas o domínio do empírico (o “Ovo de Colombo”: parece ser fácil chegar a esta conclusão, mas não é fácil). O domínio de investigação que vai para além do estritamente empírico — segundo Hans Albert — aponta no sentido da metafísica.

Se quisermos fundamentar com segurança uma tese (Hans Albert), temos que a basear em afirmações que são certas e seguras, e das quais resulta, logicamente, a tese. Neste processo, segundo Albert, “o pensamento soçobra numa regressão infinita”. No fim de cada tentativa de fundamentação da realidade, surge apenas aquilo que foi introduzido nela no início — como acontece em uma máquina de produzir salsichas: ela é alimentada com carne, e não com framboesas; se alimentarmos a máquina com framboesas e saírem salsichas, alguma coisa está errada no processo de fabricação.

Mas a verdade é que no mundo microscópico das partículas elementares longevas, não existe diferença substancial entre as framboesas e a carne, como acontece no nosso mundo macroscópico… e é aqui que está o busílis da questão.

Se pensadores como Locke são necessários para a formatação do senso-comum e para nos chamar à realidade do dia-a-dia, pensadores como Kant são necessários para nos dizer que a realidade do dia-a-dia não é apenas o produto da nossa percepção. No fundo, ambos são racionais, cada um à sua maneira. São racionais, o que não significa que sejam racionalistas.

Ao contrário de Locke ou de Kant, pensadores como Berkeley, Hume ou Ernst Mach (Imaterialismo), ou ainda Watson Skinner (Behaviourismo) não são racionais, mas são racionalistas.

O racionalismo é a base metodológica do positivismo como doutrina filosófica, que consiste em tentar justificar, por via da razão, apenas uma parte da realidade considerando-a como toda a realidade.

Naturalmente que um cientista da natureza tem que seguir o método científico; mas isso não significa que ele tenha que adoptar, para si mesmo, a filosofia positivista — assim como Locke defendeu o empirismo mas nunca colocou em causa a religiosidade humana: pelo contrário, para Locke, a realidade transcendental de Deus era absolutamente inquestionável por via da experiência humana subjectiva e intuitiva, embora não acessível à compreensão racional do ser humano.

Adenda: Eu sei que o título deste postal pode ser considerado um “escândalo” e um contra-senso por muitos professores de filosofia. Normalmente, o racionalismo é considerado como sendo a expressão da razão por excelência. Porém, é uma questão de semântica: para mim, a razão não necessita da muleta de um “ismo” (racionalismo): ela expressa-se por si mesma através da racionalidade.

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1 Comentário »

  1. O Orlando Braga resumiu bem esta questão, racionalismo não é racionalidade. Mas o grande problema é que há quem confunda estes dois princípios, que são independentes e não interdependentes. A interdependência não se manifesta da forma linear que a ciência mecânica de Newton ensinou, pelo contrário, a interdependência parte do princípio da incerteza de heisenberg. É bem verdade que Locke e outros não o poderiam saber nas épocas em que viveram, ou melhor dito, não havia ainda instrumentos científicos e teorias coerentes para se perceber tal facto. Cumprimentos.

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    Comentar por Filipe Crisóstomo — Quarta-feira, 13 Julho 2011 @ 9:12 am | Responder


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