perspectivas

Sábado, 9 Julho 2011

A ditadura da economia e a morte da política

A actual situação gerada pela crise económica e financeira mundial, globalizada, obriga-nos a pensar a história das ideias que nos levaram até aqui. Como nos metemos nesta “alhada” de um mundo em que parece que “vale tudo excepto arrancar olhos”? A continuarmos por este caminho, onde iremos parar?

A maior parte dos blogues portugueses falam de política; fazem análises políticas a acontecimentos isolados, como se a causa destes acontecimentos fosse presentista ou pertencente a um passado muito recente.

É — não só mas também — no sentido da crítica a este fenómeno blogueiro que Eric Voegelin tem a seguinte frase: “Quando o episteme (conhecimento histórico científico) está arruinado, os homens não param de falar sobre a política; mas agora expressam-se em modo de doxa (opinião)”. A opinião — a doxa — não procura as causas das coisas ou dos acontecimentos; a opinião, em política, expressa-se como se não existisse nem passado e nem uma sequência causal dos fenómenos sociais e culturais. Em contraponto, o episteme, em política, é a procura de um nexo causal dos fenómenos sociais e culturais.

'Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus'

Ortega y Gasset referiu-se ao século XIX como o século da ditadura dos físicos. No mesmo espírito, podemos dizer que o século XX foi o século da ditadura dos economistas. Porém, não podemos restringir a ditadura dos economistas ao socialismo ou ao liberalismo: em vez disso, o século XX foi o século da ditadura dos economistas, em geral e ponto final (da esquerda e da não-esquerda). É tão “ditador” Karl Marx, como o é Hayek.

Tocqueville, referindo-se à ditadura dos economistas (utilitarismo), considerou que seria inútil opor-se a uma dinâmica histórica que se revestia de um carácter de fatalidade — e neste sentido, Spengler também viu o desenvolvimento dos acontecimentos históricos através das lentes pessimistas de uma fatalidade contra a qual seria inútil lutar. Tentando uma oposição aos economistas e à sua ditadura, os sociólogos do princípio do século XX esboçaram uma espécie de rebelião ideológica, mas falharam rotundamente porque eles próprios, em geral, partiram de uma posição utilitarista para rebater o utilitarismo da ditadura dos economistas.

Durkheim tinha razão quando dizia que a economia não pode ser a guardiã dela própria, no sentido de ser a economia a auto-legitimar-se sem qualquer controlo — e é nesta falta de controlo da economia utilitarista que consiste a sua ditadura. Para Durkheim, seria necessária a intervenção de uma norma moral que fosse exterior à economia; e foi assim que ele, nos seus últimos anos de vida, se tornou obcecado pela religião e pelos factos religiosos.

A economia (entendida aqui no sentido moderno de “utilitarismo”) não pode ser factor de felicidade geral (Durkheim), a não ser que as necessidades humanas sejam limitadas por uma norma; ou, então, e em alternativa, a sociedade cai na ilimitação do desejo que torna as necessidades cada vez mais insaciáveis. Foi esta última situação que imperou na sociedade globalizada actual — e principalmente no Ocidente. Porém, a responsabilidade da situação actual não cabe só ao liberalismo económico e utilitarista, mas também ao utilitarismo anti-utilitarista de esquerda: são as duas faces da mesma moeda. De uma maneira ou de outra, é extremamente difícil fugir ao “carácter de fatalidade” da “dinâmica histórica” utilitarista.

A sociologia errou quando se afastou da filosofia política clássica, e criticou a ditadura economicista sem que se tenha sustentado em um ponto de vista sólido — ou seja, a sociologia partiu exclusivamente da sociedade para analisar a sociedade, como se esta tivesse origem exclusiva em si mesma, recusando terminantemente a noção histórica de “Deus e de César”. A partir desta recusa, a sociologia entrou em círculo vicioso (ou em Circulus in Demonstrando), tentando justificar a sociedade através da própria sociedade — o que revela a incapacidade das sociedades de se perceberem a si mesmas e de se julgarem.

E quando esta incapacidade é afirmada culturalmente como sendo o único caminho válido a seguir, e assumida essa incapacidade como sendo aquilo que é útil, morre a possibilidade da acção do político, e a filosofia política dissolve-se. É então que a opinião (doxa) ocupa o lugar da ciência (episteme), como acontece actualmente.

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