perspectivas

Terça-feira, 5 Julho 2011

Dominique Strauss-Kahn e a divinização da justiça dos homens

O caso Dominique Strauss-Kahn demonstra, para quem ainda tivesse dúvidas, a extrema fragilidade da justiça humana que o Iluminismo pretendeu que fosse transcendente à condição humana. Montesquieu — imitado pelos seus comparsas iluministas, como por exemplo Voltaire, Diderot, Rousseau e o famigerado Robespierre — foi o primeiro a escrever que “se não existisse Deus, teria que ser inventado”; e depois acrescentou: “Assim, mesmo que não houvesse Deus, deveríamos amar sempre a Justiça. (…) Livres que fôssemos do jugo da religião, não deveríamos sê-lo do da equidade.” (Montesquieu, Carta LXXXIII).

Existiu, de facto, transversalmente a todo o Iluminismo, uma tentativa patética de substituir, na nossa cultura, a transcendência de Deus por uma putativa transcendência da justiça — como se a justiça tivesse uma proveniência divina mas que prescinde de Deus, o que traduzia a visão maçónica deísta que é, de facto, uma forma de ateísmo (ou pelo menos, de agnosticismo).

Essa tentativa patética de transformar a justiça em um instrumento da divinização do Homem, surtiu efeito, pelo menos em grande parte. O movimento revolucionário e o seu cortejo fantasmagórico de mais de 200 milhões de vítimas assassinadas só no século XX — mais mortos do que em todas as guerras desde o século III a.C. até ao século XIX — atesta o resultado da divinização da justiça humana e do próprio Homem.

Naturalmente que, do ponto de vista ético e, portanto, do ponto de vista da moral cristã, o comportamento de Dominique Strauss-Kahn é reprovável; mas o adultério não é crime — nem nunca foi crime como tal estipulado no direito positivo europeu, excepto nas repúblicas calvinistas da Suíça do século XVI, e no regime puritano inglês do século XVII. Não obstante, o Iluminismo veio quebrar uma tradição cultural cristã e europeia que marcou a civilização ocidental: a noção que o indivíduo tinha de, ao quebrar uma regra ética, estar a infringir um tabu e, de certo modo, a contribuir para a desarmonia do mundo.

A tentativa de transcendência da justiça (substituindo a transcendência de Deus), por um lado, e a divinização do Homem — aliada à influência da ética utilitarista inglesa e ao pragmatismo americano —, por outro lado, teve como consequência a dissociação da ética, do tabu, que foi totalmente substituído pelo direito positivo. Este fenómeno levou ao adensar da complexidade do direito positivo e ao aumento da burocratização da justiça, para além de fazer com que, muitas vezes e mais recentemente, o direito caísse na falácia lógica naturalista quando transforma factos em normas. A tentativa iluminista e absurda de transcendência da justiça destruiu simultaneamente o direito positivo e a ética humanista cristã.

Fenómenos característicos do politicamente correcto, como por exemplo o feminismo exacerbado que esteve na primeira linha no assassinato político e ontológico de Dominique Strauss-Kahn, são subprodutos dessa tentativa da transcendência da justiça — a que nem o pobre Kant (que eu pessoalmente admiro, por entre toda uma série de personagens sinistras suas contemporâneas) escapou ileso ao erro do Zeitgeist iluminista quando afirmou que “a causa da religião era a moral”, quando é exactamente o contrário disso: o mito e o tabu são claramente anteriores à moral como sistema normativo.

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: