perspectivas

Quinta-feira, 30 Junho 2011

Karl Popper e a ética de Kant

Karl Popper foi um neo-kantiano — tal como Eric Voegelin o foi, antes de se ter demarcado dessa corrente filosófica. Uma característica comum a todos os neo-kantianos é a conjugação do cepticismo (entendido aqui no sentido filosófico, e não no sentido comum do termo) com um racionalismo exacerbado.

Karl Popper

Na minha opinião, Karl Popper foi muito bom em teoria da ciência, bom na teoria do conhecimento, suficiente em metafísica e medíocre em ética (que inclui a ética política). Karl Popper assumiu a ética de Kant como válida e apenas com uma ou outra adaptação à actualidade. De facto, Karl Popper não foi um positivista, nem poderia ser: a osmose do cepticismo e do racionalismo é incompatível com a visão fechada, limitada, e mesmo básica e bruta do positivismo.

Porém, tal como Kant antes dele, Karl Popper teve imensas dificuldades em validar uma ética sem a religião. Ao longo da sua obra, Karl Popper fala amiúde em religião, como se o assunto fosse polémico mas incontornável e necessário; e o mesmo aconteceu com Kant, que para validar a verdade intemporal sem a qual nenhuma ética é possível, teve que reconhecer (foi obrigado, pelo seu racionalismo) explicitamente a necessidade da religião.

Na Crítica da Razão Prática, Kant reconheceu a necessidade de “princípios práticos” que norteiem a ética. E, segundo Kant, existem dois tipos de princípios práticos: os subjectivos e os objectivos. A ética, para ser universal, só se pode basear em princípios práticos objectivos (e continuo a descrever o raciocínio de Kant). Porém, os princípios práticos terão sempre que se basear na experiência humana que é, por sua própria natureza, individual e subjectiva. E aqui começa o “problema” da ética de Kant.

Kant reconheceu o óbvio: a união entre a felicidade e a virtude é uma impossibilidade objectiva. E conclui que estas duas noções (felicidade e virtude) constituem em si mesmas dois regimes opostos à razão: a sua reconciliação postulada não pode recorrer senão à religião (Kant chama-lhe, eufemisticamente, “ordem da fé”). Portanto, quando se diz que Kant foi contra a religião, isso não é totalmente verdade; ele tentou ir contra a religião, mas o seu racionalismo não o permitiu — a religião é entendida como uma espécie de “mal necessário”.

Uma coisa parecida com esta aconteceu com Karl Popper e, em certa medida, com Eric Voegelin, embora este último tenha alterado a sua posição de uma forma quase radical. Para um verdadeiro racionalista, a religião é um facto incontornável: mesmo que ele não seja religioso, ele acaba por reconhecer a necessidade e utilidade da religião — tanto em termos racionais e lógicos, como em termos de utilidade para a construção de uma ética que deve ser sempre universal.

Não é possível uma ética universal sem que o sujeito abdique a priori do seu interesse próprio nas questões éticas principais, e isso só é possível em uma ética que inclua Deus na sua equação. Em termos estritamente utilitaristas, podemos dizer que Deus é útil para a construção de uma ética que é, por definição, universal; em termos realistas, podemos dizer que uma ética não pode existir sem Deus.

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3 comentários »

  1. Ora aí está a grande questão. A ética, nenhuma ética, pode existir sem Deus. Este problema já foi notado por diversos cientistas e investigadores. O que faz com que a religião seja um elo importante para se compreender as novas descobertas da física e de outras disciplinas. Essas novas descobertas não serão entendidas na sua totalidade sem uma ética baseada em Deus. Este é um problema muito recorrente nas actuais teorias de supercordas e supersimetria. Cumprimentos.

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    Comentar por Gonçalo Silva — Quinta-feira, 30 Junho 2011 @ 2:55 pm | Responder

  2. Este último comentário foi postado como sendo de “Gonçalo Silva” o que é um engano, pois trata-se de um comentário feito pelo Skedsen.

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    Comentar por Gonçalo Silva — Quinta-feira, 30 Junho 2011 @ 2:57 pm | Responder

    • Infelizmente tive que fazer isto à possibilidade de comentar, porque os insultos eram constantes e sistemáticos.

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      Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 30 Junho 2011 @ 6:36 pm | Responder


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