perspectivas

Domingo, 19 Junho 2011

O absurdo da comparação entre o marxismo e o catolicismo

Aquilo que ficou conhecido como Milenarismo é anterior ao Cristianismo — já existia antes deste. O fenómeno cultural milenarista acompanhou também o Cristianismo nos seus primeiros tempos e ao longo da sua história até hoje (como uma ideologia parasita). Porém, não podemos dizer que o milenarismo cristão faz parte da essência do Cristianismo ou da doutrina da Igreja Católica — como está implícito aqui; só quem não faz a mínima ideia do que está a dizer pode fazer essa analogia entre a filosofia cristã e a filosofia marxista.

O milenarismo resulta da influência cultural do gnosticismo da antiguidade tardia na religiosidade cristã, e essa influência gnóstica perdura até hoje, não apenas em algumas correntes presentes na Igreja Católica, mas essencialmente em algumas seitas gnósticas de origem cristã que se autonomizaram na sequência da Reforma protestante. Mircea Eliade, Hans Jonas, e sobretudo Eric Voegelin explicam muito bem a evolução do fenómeno do gnosticismo desde a antiguidade clássica até ao presente — e portanto, não vale a pena aprofundar este assunto aqui.

O que interessa saber é que, pelo menos desde S. Tomás de Aquino, a influência gnóstica na Igreja Católica foi colocada em causa através da tese tomista dos “futuros contingentes”: S. Tomás de Aquino defendeu a tese segundo a qual o futuro não pode ser, de modo nenhum, previsto com um mínimo de rigor, e esta tese foi adoptada pela doutrina da Igreja Católica no seguimento da Contra-Reforma e a partir do concílio de Trento (1545 – 1563).

Convém também dizer que aquilo que escrevi acima aplica-se apenas à Igreja Católica; e isto porque a génese do movimento revolucionário (e portanto, do marxismo, por um lado, e também da doutrina de Hayek, por outro lado) está na Reforma protestante e na pulverização de doutrinas religiosas que, mais tarde e a partir da II revolução inglesa e da revolução francesa, deram origem às religiões políticas imanentes em que se incluem as duas doutrinas políticas supracitadas.

A religião cristã, segundo os cânones da Igreja Católica, não é uma religião imanente; antes é uma religião transcendental. Qualquer tipo de imanentização escatológica, mesmo que proferida por um sacerdote da Igreja Católica, vai intrinsecamente contra a transcendentalidade da religião e contra a ideia tomista de “futuros contingentes” — e, portanto, trata-se de uma manifestação religiosa neognóstica e imanente.

H/T : Ricardo Silvestre e Marxismo


Nota: o facto de eu ver o meu professor de Física a roubar no supermercado não significa que as leis da termodinâmica estejam erradas. De forma semelhante, se ouvirmos um Padre da Igreja Católica fazer da imanentização do éschatos a sua doutrina religiosa, isso não significa que a transcendentalidade da doutrina católica seja, por esse facto, colocada em causa.

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