perspectivas

Sexta-feira, 10 Junho 2011

A “Introdução à Merdafísica”, de Heidegger

“Todos os entes se equivalem. Qualquer elefante numa selva qualquer da Índia é tão ente como qualquer processo de combustão química no planeta Marte, ou qualquer outra coisa.”

— Martin Heidegger, “Introdução à Metafísica”

Não sei bem há quantos anos tento ler a “Introdução à Metafísica” de Heidegger. Quando chego à página 12 e me deparo com esta proposição, fecho o livro e espero pela próxima tentativa de leitura do livro, que poderá chegar daqui a um par de anos, ou mais.

De vez em quando, quando estou à procura de um outro livro, deparo-me com a lombada da Metafísica, ali, solitário por entre a multidão de outros livros. E digo para com os meus botões: “é desta que o vou ler até ao fim”. Pego nele e recomeço a sua leitura, mas quando chego à página 12, como que por reflexo condicionado, paf!, fecho o livro e volto a colocá-lo na estante.

O título do livro está errado. Não deveria ser “Introdução à Metafísica”, mas antes “Introdução à Merdafísica”.

Este livro é uma das razões por que acabo por dar aqui alguma razão ao prof. Carlos Fiolhais: é preferível ensinar a disciplina de físico-química aos jovens do que lhes meter patranhas ideológicas nas cabeças, e em nome da filosofia. O conteúdo da disciplina de filosofia que se ensina hoje nas escolas secundárias é endoutrinamento político-ideológico puro e duro, e pouco tem a ver com a filosofia e com o filosofar.

A “Introdução à Merdafísica” de Heidegger não é metafísica e tão pouco é filosofia: é a base de uma ideologia política. Quando Heidegger substitui o tradicional conceito de Ser pelo conceito de Ente (“Por que existe o Ser em vez do Nada?” — esta pergunta foi feita originariamente por Leibniz. Heidegger modifica a pergunta: “Por que existe o Ente em vez do Nada?”), transmuta a metafísica de Leibniz na merdafísica política e imanentista contemporânea.

Quando Heidegger diz que um animal, como por exemplo um elefante, é equivalente em termos ontológicos a uma combustão química na atmosfera rarefeita ou inexistente de Marte, ou que um cão poderá ser ontologicamente equivalente a uma reacção química do ácido sulfúrico em um metal ferroso, ou ainda que um ser humano é equivalente à lógica de um peido que decorre do ciclo do carbono — não podemos falar em metafísica, mas em merdafísica política desconstrutivista.

6 comentários »

  1. …não podia estar mais de acordo!!
    Assino Elsa lomba Abreu

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    Comentar por Elsa — Sexta-feira, 10 Junho 2011 @ 2:00 pm | Responder

  2. O jeito mais fácil de chegar até o final do livro é começar a leitura pela última página, de cara saberemos se o papel empregado teve uso melhor que o do banheiro. Parece estupidez, mas tal técnica te pouparia o tempo perdido na leitura de doze páginas vezes “N”.

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    Comentar por Riva — Sexta-feira, 10 Junho 2011 @ 2:54 pm | Responder

  3. Eis uma questão que me tem feito dar voltas à cabeça.
    Gostei, mesmo muito, de filosofia quando a estudei no secundário. Gostei tanto que me candidatei a um curso superior numa conceituada universidade privada e fiquei em 1º lugar, graças à reflexão oral que fiz sobre os problemas da juventude. Agora, sem curso de filosofia, mas com outro tirado no estado e mais acessível à bolsa dos meus pais, e com mais “futuro”, vejo os meus dois filhos no secundário debaterem-se com uma filosofia que não lhes interessa, tão afastada da reflexão ela anda.
    Quis saber porquê e fui aos livros deles dar uma vista de olhos! Aquilo não é filosofia, nem matemática, nem física, nem nada… Estou tentada a concordar que, de facto é uma “merdafísica”.

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    Comentar por Helena Gonçalves — Segunda-feira, 19 Dezembro 2011 @ 4:33 pm | Responder

  4. […] O endoutrinamento político-ideológico mascarado de filosofia Filed under: A vida custa — O. Braga @ 7:37 pm “Eis uma questão que me tem feito dar voltas à cabeça. […]

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    Pingback por O endoutrinamento político-ideológico mascarado de filosofia « perspectivas — Segunda-feira, 19 Dezembro 2011 @ 7:37 pm | Responder

  5. Com a devida vênia, me deixe sugerir que sua leitura é precipitada.

    Sobre a questão da metafísica. Heidegger propõe um postulado procedimental para se encaminhar a questão de ser, a saber, a diferença ontológica. A ideia é não se responder tão rapidamente a questão em termos de algum tipo de ente. Este cuidado Heidegger acredita que não foi observado em toda a tradição filosófica que a antiguidade grega nos legou na metafísica do ente em termos de substância que chega até os nossos dias. Nesta tradição presume-se que ser é sempre o ser do ente que corresponde a enunciados categóricos da forma sujeito-predicado. Heidegger quer despertar o questionamento de ser para outras perspectivas, para perguntar por entes cujo modo de ser não se deixa fazer compreender segundo este aparato ontológico.

    Quando Leibniz fala em “ser”, está na verdade falando do que Heidegger entende por “ente”, e por isso Heidegger “traduz” a sentença para seus fins metodológicos, para mostrar que a mesma ainda não atende tudo que é preciso no questionamento de ser. Ser, para Heidegger, não é algo atual, mas algo pelo que questionamos quando esperamos que algo possa ser atualizado, por exemplo, qual o modo de ser de algo que possa ser compreendido como um elefante na Índia e não a pergunta fática que espera uma resposta efetiva, se há ou não elefantes na Índia. Portanto é algo que é primordialmente colocado pelo próprio comportamento que questiona, e não pelo que responde, daí a dificuldade do tema.

    Heidegger está particularmente preocupado com o modo de ser de entes que não se deixam compreender como meras coisas que correspondem a enunciados categóricos. Por exemplo, o ente que nós mesmos somos, que é muito singular e incompleto para ser determinado por predicados. Outro exemplo é o da sua queixa, o animal. na verdade, Heidegger vai apontar que ainda não temos uma compreensão adequada do ser vivo porque ainda o forçamos sobre o esquema conceitual de uma mera coisa, em termos de substância e causalidade.

    Heidegger está portanto ciente que seres vivos, seres humanos e coisas não podem ser nivelados no mesmo estatuto ontológico. Na verdade, tenta pensar como podemos resistir a um tal nivelamento, que parece ser imposto pela gramática das linguagens ocidentais, que seguem a metafísica da antiguidade grega.

    O que está lhe induzindo a erro é o título deste livro, que é bem difícil e não tem nada de introdutório. Sobre a questão do ser e sobre o ente que nós mesmos somos, procure a introdução a “Ser e Tempo”, que recebeu uma nova tradução pela editora da Unicamp. Sobre o ser vivo, procure “Os Conceitos Fundamentais da Metafísica: mundo – finitude – solidão”, que tem ótima tradução pela editora Forense. Para uma boa introdução ao pensamento de Heidegger, sugiro o Heidegger’s Dictionary de Michael Inwood, que é bem fácil de achar em scan.

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    Comentar por Fábio François — Domingo, 30 Setembro 2012 @ 7:25 pm | Responder

    • « Em filosofia, tornar-se inteligível é um suicídio » — Martin Heidegger (“vom Ereignis”)

      Caro amigo:

      1/ como você próprio pode constatar com a citação supra, para Heidegger, o simples facto de se fazer compreender “é um suicídio”. Ou seja, para Heidegger, a ininteligibilidade (ou incompreensibilidade) é uma espécie de condição dos seus escritos. Portanto, você não me venha dizer que entende Heidegger: o que você pode estar é convencido que entende Heidegger, mas isso é coisa diferente do que entendê-lo efectivamente. E por uma simples razão: Heidegger não queria ser compreendido.

      2/ aconselho a leitura deste artigo da minha lavra:

      https://espectivas.wordpress.com/2012/09/07/a-demitificacao-e-desmistificacao-de-heidegger/

      3/ você entra em contradição, o que revela que, graça a Deus, você não compreende Heidegger, como eu não compreendo Heidegger.

      Você escreve:

      “Heidegger está portanto ciente que seres vivos, seres humanos e coisas não podem ser nivelados no mesmo estatuto ontológico.”

      E Heidegger escreve:

      “Todos os entes se equivalem. Qualquer elefante numa selva qualquer da Índia é tão ente como qualquer processo de combustão química no planeta Marte, ou qualquer outra coisa.”

      Será que você percebe a sua contradição? Se você não a percebe, ¿porque é que diz que percebe Heidegger?

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      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 1 Outubro 2012 @ 1:04 am | Responder


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