perspectivas

Quarta-feira, 25 Maio 2011

Um exemplo do erro da visão histórica da Esquerda

Se após o 25 de Abril de 1974, o Partido Comunista tivesse tomado o poder em Portugal e instalado uma ditadura do proletariado, será que quem escreveu isto teria a mesma opinião que tem acerca da tomada do poder político em Cuba, por parte de Fidel Castro? Provavelmente, e no que se refere ao caso português, não teria a mesma opinião porque, caso contrário, poucas pessoas concordariam com o escriba.

A verdade é que, em Cuba, sucedeu-se um ditador (Fidel Castro) a outro ditador (Fulgêncio Baptista). Por isso, parece que o escriba justifica parcialmente uma ditadura (a de Fidel) em detrimento de outra ditadura (a de Baptista) — ou seja, para o escriba, existem umas ditaduras que são boas, e outras ditaduras que são más.

Naturalmente que nunca saberemos o que teria acontecido a Cuba, se em vez de Fidel Castro e do Partido Comunista, esse país tivesse então entrado em uma democratização através de eleições livres e directas. Exactamente porque nunca o saberemos é que o escriba parte implicitamente do princípio segundo o qual aquilo que aconteceu em Cuba em 1959, estava como que “pré-determinado” — alegadamente, não existiriam outras saídas históricas para o problema cubano da ditadura de Baptista.

Mas já no caso português, o escriba não hesitaria em classificar o rechaço do Partido Comunista em 1976, e a via democrática até hoje, como sendo ambos positivos, porque as coisas “aconteceram assim”, e podemos constatar hoje que, ao “acontecerem assim as coisas”, verificamos que não foi mau de todo.


Quando analisamos o passado, verificamos que “as coisas aconteceram assim”, ou seja, a acção humana é transformada em um “objecto de reflexão” que está sujeito a uma sequência causal de influências e motivos, que fazem transparecer a acção realizada como sendo a única possível — a acção transforma-se em uma coisa natural, e por isso, está determinada; e a partir desta constatação, passamos a ter — de uma forma mais ou menos consciente — uma visão determinística da realidade e da condição humanas.

Porém, se o ser humano não olhar para o passado mas antes para o momento do seu presente que é vivo, a acção humana deixa de ser um processo natural e passa a ser, pelo contrário, um acto moral aberto ao futuro, e livre.

A grande diferença entre a mundividência do movimento revolucionário (vulgo Esquerda), por um lado, e a mundividência do conservadorismo (vulgo Direita), por outro lado, reside exactamente na percepção da liberdade do acto humano.

E é por isso que o supracitado escriba, que é certamente de Esquerda, justifica o fim de um determinismo através da elaboração racionalizada de um outro determinismo — da mesma forma que justifica o fim de uma ditadura através de outra ditadura.

Por isso é que existe a Direita e a Esquerda.

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