perspectivas

Domingo, 15 Maio 2011

Acerca do argumento ateísta do “mal do mundo”

Filed under: ética,filosofia,Religare — O. Braga @ 10:25 am
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1. O argumento mais importante — senão o único com algum relevo — dos ateístas contra a religião cristã, é o seguinte: “se existisse um Deus bom e omnipotente, teria que intervir contra os males do mundo. Porém, dado que existem os males, resulta daí que Ele ou não quer ajudar, e portanto não é bom, ou não pode ajudar, e portanto não é omnipotente”.

2. Adicionalmente, os ateístas acrescentam a este argumento, uma adenda: “o mundo é como é; as leis das natureza são como são. A renúncia a uma explicação sobre o mundo e sobre as leis da natureza, é racional”.

Este argumento existe desde sempre: é o problema da Teodiceia. Antes de analisarmos este argumento ateísta, vamos consentir aqui em um ponto prévio.


Uma refutação de uma metafísica volta a ser, ela própria, uma metafísica. Quando um ateu refuta uma metafísica, assume uma segunda metafísica para refutar a primeira, porque a renúncia à metafísica seria o mesmo que uma renúncia ao pensamento. Em princípio, é possível rejeitar a metafísica, mas neste caso, não se pode querer ter uma só palavra para dizer seja o que for.


3. Temos que considerar que os “males do mundo” se dividem em duas categorias: os males morais, que são da responsabilidade do Homem através do seu livre-arbítrio, e os males físicos, que se devem às leis da natureza.

4. Em relação aos “males morais”: se Deus dá ao Homem a liberdade, seria contraditório que Deus, de modo geral, interviesse directamente nas decisões pessoais e livres dos seres humanos para impôr coercivamente uma determinada conduta moral. Trata-se aqui da aplicação básica do princípio da não-contradição.

5. A liberdade do ser humano para determinar, por si próprio, a sua conduta moral, depende da estabilidade e da regularidade das leis da natureza no macrocosmo. Ou seja, em um mundo macroscópico instável e irregular — do ponto de vista das leis da natureza — seria impossível assacar responsabilidades éticas e morais a quem quer que seja.

6. A adenda ateísta referida no ponto 2, não é racional, porque qualquer explicação dos males do mundo, por muito improvável que seja, é melhor do que nenhuma explicação.

7. Ademais, quem afirma que a existência dos males do mundo é a prova da inexistência de Deus (e sirvo-me, aqui, por uma questão de uma melhor compreensão, da noção teísta de Deus), parte do princípio de que vive num mundo absolutamente positivo — segundo a noção de que o bem se entende por si mesmo, e só o mal constitui um problema. Ou seja, o argumento ateísta pressupõe (ou parte do princípio) que o Ser é positivo — o que vai de encontro à mensagem do Cristianismo.

8. Em função do ponto 7., quem argumenta contra a ideia de Deus ao invocar os males do mundo, só o faz na medida em que aceitou previamente o conteúdo da concepção cristã de Deus.

9. Em relação aos males físicos — doenças, catástrofes naturais, etc. —, estes são consequências das leis da natureza — as mesmas leis da natureza que têm que ser estáveis e regulares para assegurar a liberdade do ser humano. Em termos objectivos, um mundo sem males físicos seria um mundo no qual não seria possível nenhuma responsabilidade moral, nenhuma liberdade ou livre-arbítrio e, por isso, nenhuma concretização de valores humanos.

Em relação à omnipotência e omnipresença de Deus:

10. Os conceitos de omnipotência e de omnipresença de Deus , segundo o Cristianismo, resumem-se basicamente numa noção: a de que “Deus ajuda”. Ou seja, Deus ajuda na medida em que garante a regularidade das leis da natureza que são, por sua vez, a garantia da liberdade moral do Homem, por um lado, e ajuda intervindo sistemática e constantemente no nosso mundo macroscópico por via, ou através, do mundo quântico do microcosmos, por outro lado.

11. Embora as leis da natureza sejam estáveis e regulares, a sua regularidade não é absoluta ou total, na medida em que a força entrópica da gravidade, que determina o nosso mundo macroscópico, depende, em certa medida, da acção da força quântica.

12. Deus intervém, por sua livre vontade e na esmagadora maioria dos casos, nos processos naturais sujeitos às leis da natureza do nosso mundo macroscópico, por via do mundo microscópico e quântico e sem perturbar as nossas expectativas de regularidade das leis da natureza. E quando essa regularidade das leis da natureza é visivelmente reconhecida pelos seres humanos como sendo quebrada ou colocada em causa, estamos em presença de um milagre devido à acção livre de Deus. Isto significa que tudo o que existe é milagre, por um lado, e que só alguns desses milagres são racionalmente percebidos pelos seres humanos, por outro lado.

13. A condição humana depende da regularidade das leis da natureza, em um duplo sentido: por um lado, as leis da natureza (macroscópica) são a condição da própria liberdade do ser humano e da possibilidade de o ser humano evitar os males morais. Por outro lado, essa regularidade das leis da natureza, que garantem a liberdade moral do Homem, estão na base da existência dos males físicos. E esta dupla condição, que depende das leis da natureza, é característica fundamental da existência humana.

14. A vontade de Deus que actua sistemática e constantemente no nosso mundo macroscópico, bem assim como o conteúdo de Deus, são insondáveis a partir do pensamento humano. Porém, este facto não significa que recusemos uma metafísica com o argumento de que não existe uma metafísica.

5 comentários »

  1. Este argumento ateísta, tem um viés em Epicuro que por sinal não conhecia as religiões abraâmicas. Ele foi criado para os Deuses de Epicuro.

    Nas religiões abraâmicas, existe a idéia de que o ato da criação já foi o primeiro ato de benevolência máxima divina, já devemos agradecer a Deus por existir. Os males naturais e da existência seria consequências desta existência. Na religião de Epicuro, a idéia da criação não era algo tão importante.

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    Comentar por shâmtia ayômide — Domingo, 15 Maio 2011 @ 6:50 pm | Responder

  2. Curiosamente a maioria dos que compactuam com este argumento ateísta, flertam fortemente com o niilismo.

    Já vi deles dizer que seria melhor não-existir, do que existir com “sofrimento”…,

    O argumento convida o homem a trazer a perfeição a este mundo, contudo diante do fato de que o homem não é capaz de realizar o paraíso na terra, o ateísta convida então o homem a se extinguir da face da terra(como os do tipo Peter Singer), assim some o mal de uma vez. Como para eles Deus não existe, o homem então é culpado por não querer ocupar o lugar de Deus. Trata-se de um complexo de édipo.

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    Comentar por shâmtia ayômide — Domingo, 15 Maio 2011 @ 6:56 pm | Responder

  3. Seja qual for o argumento ateísta — ou de uma vergôntea epicurista, ou de origem niilista — ele é sempre metafísico; a negação da metafísica é, em si mesma, uma forma de metafísica. Ou seja, o ateísmo entra em contradição sistemática, porque a negação só existe em função da afirmação positiva do Ser.

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    Comentar por O. Braga — Domingo, 15 Maio 2011 @ 7:05 pm | Responder

  4. O conhecimento são como brumas que se adessam a medida que se aprofunda nele. Algo que tenho notado é que o ateísmo em si não é propriamente a negação da religião, mas, isto sim, a negação do Deus Judaico-Cristão, pois seria esta a explicação para o Mal que existe no mundo, ou seja, a da Gnose que considera o Deus Revelado como sendo o demiurgo que apriosiona o seu contrário no universo criado.

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    Comentar por Carlos Vendramini — Segunda-feira, 16 Maio 2011 @ 11:10 pm | Responder

  5. Mário Ferreira dos Santos,Filosofia Concreta,tese 51:

    -A negação,considerada em si mesma,seria nada.
    Consequentemente,toda doutrina negativista é falsa.

    “A negação é a afirmação da ausência de um modo de ser.Se retiramos da negação a referência ao modo de ser,que é recusado,a negação se esvazia totalmente,e é nada.Por isso as filosofias negativistas tendem fatalmente a alcançar o nada absoluto,porque se alcançam a alguma coisa que não podem negar,terão de confirmá-la como incondionada e absoluta,o que é a refutação do negativismo.Eis porque as filosofias negativistas são absurdas,como o são o agnosticismo,o ceticismo,o nihilismo,o relativismo,etc”

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    Comentar por Odonto — Sexta-feira, 20 Maio 2011 @ 4:55 pm | Responder


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