perspectivas

Quarta-feira, 11 Maio 2011

As medidas draconianas contra a Irlanda serviram de exemplo para pressionar a Espanha

Ângela Merkel move-se na política como um elefante numa loja de loiças, e contribuiu decisivamente para criar um enorme problema a nível europeu cujas consequências não serão só económicas e financeiras — e criarão também problemas económicos também à Alemanha — mas também problemas políticos graves. Os alemães nunca foram hábeis em política e isso ficou mais uma vez demonstrado.

Quando em Junho de 2010 fiz uma crítica ao comentador radiofónico e televisivo Camilo Lourenço, as críticas que recebi nos comentários do postal pareciam doutas. Porém, aconselho a leitura deste artigo no Irish Times que diz resumidamente o seguinte: as medidas draconianas aplicadas à Irlanda pelo Eurogrupo tiveram a intenção de prevenir o desastre da Banca espanhola. Eu tinha razão, e o Camilo Lourenço deveria fazer a sua declaração de interesses privados quando dá conselhos nos me®dia.

Se os portugueses seguissem o conselho dado, naquela altura, pelo Camilo Lourenço, que consistia em transferir o dinheiro dos depósitos dos Bancos portugueses para Bancos espanhóis, por cada movimento de capital de um Banco português para um Banco espanhol, grosso modo, o Estado português teria que avalizar o respectivo Banco português em um empréstimo de emergência ao BCE (Banco Central Europeu). Ora, o conselho de Camilo Lourenço era duplamente nocivo, porque a opacidade da situação da Banca espanhola é tão grande como a da Banca Suíça: ninguém sabe realmente qual é a situação dos Bancos espanhóis, depois da ressaca da enorme bolha imobiliária que assolou Espanha (bolha imobiliária que não aconteceu em Portugal, pelo menos em dimensão semelhante).


O referido artigo do Irish Times chega a uma conclusão: a intervenção do Eurogrupo e do FMI na Irlanda vai inexoravelmente conduzir este país à bancarrota — ou em português correcto, a Irlanda vai brevemente dar o peido-mestre. A continuar esta política do BCE/FMI na Irlanda, a dívida do Estado irlandês (já não falando na dívida privada) atingirá cerca de 250 mil milhões de Euros em 2014, devido à recessão económica, por um lado, e às taxas de juros relativamente altas do empréstimo do BCE/FMI, por outro lado. Essa dívida total, em 2014, equivaleria a uma dívida de 120 mil Euros por cada trabalhador irlandês, e ultrapassa em 60% o valor do PIB da Irlanda. A Irlanda, por este caminho, não tem a mínima hipótese de sobrevivência!

O caso português é um pouco diferente, por várias razões: desde logo porque o nosso PIB está, apesar das discrepâncias que existem, mais próximo da economia real do que o PIB irlandês ou grego, mas não se pense que estamos seguros com o perigo espanhol aqui mesmo ao lado. Não é por acaso que Zapatero meteu o rabo entre as pernas e não se recandidata às próximas eleições…

Voltando a Merkel (e a Sarkozy): a Alemanha e a França entraram por um caminho perigoso, que foi o de assumir — empurrando os problemas para a frente no tempo, com a barriga, à espera da recapitalização das respectivas Bancas desses dois países — que a implosão económica e financeira de dois ou três países periféricos da Europa não causaria mossa nas economias dos países do directório europeu. As coisas não serão bem assim, como veremos mais adiante.

O autor do artigo supracitado, Morgan Kelly, que é professor de economia na universidade de Dublin, dá a receita: encostar o directório europeu à parede com o problema bancário irlandês, reduzir a necessidade de empréstimos do Estado irlandês a zero através do equilíbrio do orçamento de Estado, e voltar ao business as usual. Portugal deveria estar atento a estes conselhos.

1 Comentário »

  1. A frase “encostar o directório europeu à parede com o problema bancário irlandês” traduz-se numa festa de arromba grátis que ninguém está disposto a dar, pelo menos no actual quadro europeu.
    Bem melhor andaram os islandeses que, fora do colete europeu, decidiram não pagar o que obviamente não era para pagar. Quem emprestou, sabendo tim tim por tim tim qual era o risco, remunerando-se para isso, que assuma a perda, pois ,afinal, é esta a lógica do mercado.
    Vamos ver como é que isto vai acabar.

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    Comentar por Salvador Rebelo de Andrade — Quarta-feira, 11 Maio 2011 @ 5:52 pm | Responder


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