perspectivas

Quarta-feira, 11 Maio 2011

A manifestação do sagrado e os softwares do nosso cérebro (2)

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:08 pm
Tags: , , , , , ,

Quando os ateus dizem que “Deus não existe”, não deixam de ter alguma razão. De facto, Deus como objecto que se apresenta a um sujeito, não existe. Quando dizemos que “Deus existe”, apenas usamos uma figura de linguagem — um simbolismo — que facilita a nossa compreensão de Deus, que é, de facto, “o Ser que se encontra de ambos os lados na divisão sujeito/objecto” (Karl Jaspers). Ora, este Ser não “existe”, mas é antes a causa da existência.

Se é verdade que o nosso pensamento não pode compreender Deus — assim como a ciência não pode compreender nem explicar a “realidade em si” de que se falou no último postal, mas apenas descrevê-la a partir do seu exterior —, podemos, contudo, tentar definir Deus.

Quando nós dizemos que “Deus existe”, para além de estarmos a considerar Deus como um objecto, estamos também a perfilhar o teísmo — que é a concepção de Deus como uma entidade/objecto separada de uma parte da realidade: é o Deus/objecto, que se encontra lá no alto, e separado da realidade cá em baixo; é o Deus ausente de Nietzsche. Porém, esse Deus/objecto não existe como tal, e é por isso que eu digo que os ateus têm alguma razão quando assumem uma posição anti-teísta.

Karl Jaspers propôs uma definição de Deus mais consentânea com a razão e com a lógica, e da qual me aproximo mais: o panenteísmo. Porém, também não estou totalmente de acordo com esta concepção de Deus.

Segundo Karl Jaspers, a Totalidade não pode ser nem sujeito, nem objecto, e Deus é mais que a totalidade: é O Englobante. O Englobante é aquilo que aparece naquilo que aparece. Não existe domínio do Ser separado de Deus. A ideia de que existem partes da realidade que estão fora de Deus, é absurda, porque se existisse algo que não fosse Deus, teria que ser tão absoluto como Deus.

O panteísmo naturalista, de Telésio e seus herdeiros modernos das ciências da natureza, é um total absurdo, por força das demonstrações da Física quântica acerca da matéria. O panteísmo naturalista está depreciado; ultrapassado. Não pode ser sequer invocado.

O panteísmo espiritualista moderno, por exemplo, de Amit Goswami, oblitera a transcendência de Deus e transforma o conceito de Deus em uma espécie de “panenteísmo imanente”. Também não serve. Portanto, concentremo-nos no panenteísmo de Karl Jaspers, que é a noção de Deus mais aproximada da razão.

O panenteísmo tem um problema: exclui a criação do universo como tal, totalmente separado da essência de Deus. No tempo de Karl Jaspers ainda não existia a noção do Big Bang e do universo em expansão.

É verdade que não existe nada no universo que não tenha uma fórmula ou ideia em Deus; por exemplo, se existe uma pessoa, Deus é também uma pessoa, mas não é só uma pessoa. E por aí fora. É verdade que Deus é a razão por que o universo existe e por que não existe o nada; é verdade que sem Deus o universo desapareceria no olvido, porque não existiria uma consciência absoluta que “observasse” o universo, transformando as ondas (quânticas) de possibilidades, à escala universal, em acontecimentos. É verdade que o mundo quântico é também obra de Deus, mas Deus não se confunde nem se mistura com tudo isto.

A omnipresença de Deus é explicada pela sua consciência absoluta. Se o ser humano tem consciência, a fórmula ou ideia da consciência também existe em Deus, mas Deus não é só consciência. A omnipresença de Deus não se explica pela participação da matéria em Deus — como pretende o panenteísmo — mas sim através da sua consciência absoluta. Portanto, se Deus não é um objecto — como pretende o teísmo —, também a Sua essência não faz parte da matéria e do universo criado. E a Sua consciência absoluta — que observa constantemente o universo, sustentando-o e transformando livremente as ondas de possibilidades em acontecimentos — é a condição da Sua omnipresença.

Aquilo que a teoria quântica chama de “números irracionais aleatórios”, é apenas o reflexo da acção da consciência absoluta e transcendente de Deus na dimensão quântica e imanente do universo. A equação de Schrödinger representa a passagem do tempo, fotão por fotão, quanta por quanta, momento a momento; e é a observação constante, por parte da consciência divina, das ondas de possibilidades que se transformam em acontecimentos e que alimentam a entropia da força da gravidade, que se traduz no princípio da incerteza de Heisenberg.

Em resumo: Deus não está fora nem ausente da realidade do nosso universo; mas o nosso universo não faz parte da essência de Deus.

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

%d bloggers like this: