perspectivas

Segunda-feira, 9 Maio 2011

A manifestação do sagrado e os softwares do nosso cérebro (1)

Este vídeo, gravado por um popular na Costa do Marfim, revela uma manifestação do sagrado. Naturalmente que, para uma parte dos europeus actuais, a revelação do vídeo é incompreensível, porque existe hoje a ideia de que a “realidade para nós” coincide totalmente com a “realidade em si”. E essa “realidade para nós” (que alegadamente e segundo a cultura politicamente correcta actual, coincide totalmente com a “realidade em si”) foi moldada por uma cultura indelevelmente marcada pelo Positivismo.

Uma grande parte dos cidadãos da Europa actual foi programada (educada) para pensar que as leis da natureza possuem uma necessidade coerciva, não permitindo qualquer excepção. Existem mesmo professores das ciências da natureza que estão absolutamente convencidos desta necessidade coerciva e exclusivista das leis natureza. Por isso, reconheço a excepcionalidade do professor Carlos Fiolhais quando, num artigo publicado recentemente no Público (salvo erro), escreveu, preto no branco, que as leis da natureza não são, por princípio, infalíveis; isto, vindo de alguém ligado à ciência, é verdadeiramente notável, mas a verdade é que ele traduziu apenas o consenso alargado existente entre a comunidade dos cientistas físicos.

Esta “programação cultural” actual e positivista, este software científico-tecnológico, e que está na moda (é politicamente correcto), implica a existência de uma espécie de “programa de tratamento de dados cerebral” que trata os dados da “realidade” a partir do nosso cérebro.

Mas antes de falarmos deste e de outros tipos de software cerebral, vamos tentar saber o que é a “realidade”.

A ciência séria (ou seja, a ciência que não é cientificista) que inclui a teoria da ciência e as reflexões da Física, já nos demonstrou que a nossa concepção de realidade não passa de uma débil construção que nos é útil para a sobrevivência no nosso quotidiano. Isto significa que quando alguém diz que “o mundo, perceptível através dos nossos sentidos, existe independentemente da forma como o percebemos”, afirma uma falsidade.

Karl Popper chamou a essa falácia “a teoria do balde”, segundo a qual a nossa consciência seria uma espécie de balde onde os nossos sentidos despejam as imagens dos objectos. Porém, a verdade é que as nossas percepções sensoriais têm que ser compreendidas através de uma teoria que já existe na nossa cabeça, porque a nossa consciência não é uma espécie de máquina fotográfica através da qual é reproduzido o “mundo objectivo” — a nossa consciência não é um “balde” onde os sentidos despejam as imagens do mundo.

Essas imagens do mundo são tratadas por um software que existe na nossa cabeça, e esse software pode variar conforme a programação do software cultural. Existem pessoas que têm a capacidade de uma maior flexibilidade na mudança de um software para outro (mudam mais facilmente de sistema operativo, quando é necessário) — e sobre essas pessoas dizemos que são inteligentes; as pessoas mais inflexíveis na permuta de software, e estritamente limitadas a um só software, têm geralmente algum défice de inteligência, e/ou de intuição e/ou de sensibilidade.

Portanto, é ponto assente de que a “realidade para nós” (ou a “realidade para mim”) não coincide com a “realidade em si”. O mais que podemos procurar fazer é tentar que as diferenças entre essas duas realidades seja a menor possível.

A teoria do Construtivismo afirma que os sinais que afluem ao cérebro, provenientes dos órgãos dos sentidos, não são portadores de qualquer indicação de quaisquer propriedades para além das provenientes das células dos próprios órgãos dos sentidos — ou seja, não há nada, nas cerca de 100 milhões de células sensoriais existentes, que influencie determinantemente o modo como um determinado software cerebral exerce a sua função. Isto significa que apenas e só o fluxo de sinais para o cérebro, a partir dos órgãos sensoriais, não chega para dar origem a uma determinada visão da “realidade”.

Em súmula, os nossos órgãos sensoriais registam diferenças, mas não registam coisas que se distingam cognitivamente umas das outras. No nosso cérebro trabalha um “programa de processamento de dados” — um software — que constrói a “realidade para nós” e que é diferente da “realidade em si”. Neste sentido, podemos dizer que a “realidade para nós” é construída por nós — mas não podemos dizer que “nós construímos a realidade”, na medida em que a “realidade em si mesma” não coincide com a nossa construção da realidade, e porque de facto, e em termos gerais, nós não inventamos os dados a partir dos quais o nosso cérebro constrói as coisas.

A “realidade em si mesma” é incognoscível pelo ser humano; é aquilo a que o Cristianismo chama de “mistério”.

O mais que podemos fazer é esperar que a “realidade para mim” e a “realidade em si” sejam tão semelhantes quanto possível. O que podemos dizer acerca da “realidade em si”, é apenas aquilo que ela não é — ou seja, podemos, a espaços, definir parcialmente a “realidade em si” pela negativa.

Quando as nossas construções da “realidade para nós” fracassam, ficamos confrontados com a “realidade em si” que está por detrás da construção dessa “realidade para nós” que fracassou; e quando o processo de construção colectiva de uma “realidade para nós” é errada e se afasta decisivamente da “realidade em si”, estamos em presença da definição de “decadência”, segundo G K Chesterton: “Estar errado, e cuidadosamente errado, eis a definição de decadência”.

Porém, e na medida em que apenas podemos explicar o nosso fracasso através dos conceitos que utilizamos para a construção das estruturas falhadas, nunca nos será possível construir uma imagem do mundo que pudéssemos responsabilizar pelo nosso fracasso.

Ademais, a investigação das ciências da natureza e a tecnologia não têm autoridade para fazer afirmações sobre a “realidade em si”: a ciência apenas pode dizer, em casos concretos, que as suas afirmações ainda não foram refutadas e, neste sentido, poderiam estar em conformidade com a “realidade em si”.

Em conclusão, o software científico-tecnológico não é o único possível, e tão pouco é o único verdadeiro no sentido da apreensão da “realidade em si”. Existem outros softwares que coexistem (mais numas pessoas do que noutras) no cérebro humano, como por exemplo o software mítico e o software místico. Não podemos dizer com segurança que o software científico-tecnológico é superior ou melhor do que os outros.

7 comentários »

  1. “Estar errado, e cuidadosamente errado, eis a definição de decadência”

    Evola diz algo parecido em sua critica ao existencialismo, a critica de Evola é muito severa especialmente sobre Heidegger. Segundo Evola, resumindo tudo “temos um homem que ao andar no precipício, lhe dizem que é errado olhar para baixo, olhar para trás, olhar para frente e olhar para os lados.”

    Mas voltando ao assunto do post: o que temos é que o homem não pode ter o conhecimento de tudo, pois é um ser limitado, contudo nem sempre tudo que ele percebe é sempre errado.

    Lendo o filosofias da afirmação e negação de Mário Ferreira, o que aprendi sintetizando ele e o Social Pathologist é que a inteligência humana tem duas capacidades: a percepção de semelhanças e diferenças. A percepção de semelhanças é a atacada na modernidade, pois ela é a responsável por conceitos como a percepção da “raça” e sentimento de nacionalidade.

    Ambas é claro tem suas utilidades e também seus vícios negativos, quando levadas a extremos. No caso das filosofias da afirmação(ligadas a percepção dos mistérios) pode criar um hiper-distanciamento da realidade, é o caso dos misticos New Age. As de negação quando levadas ao extremo criam um cepticismo e niilismo devastador.

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    Comentar por shâmtia ayômide — Segunda-feira, 9 Maio 2011 @ 2:02 am | Responder

    • *******

      “No caso das filosofias da afirmação(ligadas a percepção dos mistérios) pode criar um hiper-distanciamento da realidade (…)”

      *****************

      “Essas imagens do mundo são tratadas por um software que existe na nossa cabeça, e esse software pode variar conforme a programação do software cultural. Existem pessoas que têm a capacidade de uma maior flexibilidade na mudança de um software para outro (mudam mais facilmente de sistema operativo, quando é necessário) — e sobre essas pessoas dizemos que são inteligentes; as pessoas mais inflexíveis na permuta de software, e estritamente limitadas a um só software, têm geralmente algum défice de inteligência, de intuição e de sensibilidade.”

      Qualquer pessoa que se limite ou se restrinja a um só tipo de software, acaba por ter a tendência para se afastar da “realidade em si”. Até Jesus Cristo utilizou a lógica-matemática nas suas parábolas e na sua mensagem em geral.

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      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 9 Maio 2011 @ 4:59 am | Responder

  2. […] assim como a ciência não pode compreender nem explicar a “realidade em si” de que se falou no último postal, mas apenas descrevê-la a partir do seu exterior —, podemos, contudo, tentar definir […]

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    Pingback por A manifestação do sagrado e os softwares do nosso cérebro (2) « perspectivas — Quarta-feira, 11 Maio 2011 @ 7:08 pm | Responder

  3. S. Tomás afirmava a mesma coisa:

    “Fé e razão não entram em conflito porque o intelecto
    humano veicula a marca do intelecto divino. Deus não
    decepciona o intelecto com resultados que contradigam a
    fé revelada. O intelecto pode errar mas consegue
    alcançar verdades como a existência de Deus, deixando
    para a fé revelada verdades inacessíveis à razão, tais
    como o carácter trinitário da divindade.”
    (retirado de S. Tomás de Aquino segundo Eric Voegelin)

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    Comentar por shâmtia ayômide — Quarta-feira, 11 Maio 2011 @ 8:58 pm | Responder

  4. PS: citei a fonte errada acima. O correcto seria: Eric Voegelin em “Estudos de Ideias Políticas” – Compactação e tradução de Mendo Castro Henriques.

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    Comentar por shâmtia ayômide — Quarta-feira, 11 Maio 2011 @ 9:00 pm | Responder

  5. Essa citação bem podia ser de Tomás de Aquino. As “verdades inacessíveis à razão”, como por exemplo, a Trindade, são os dogmas, e na minha opinião os dogmas (pelo menos alguns dogmas) não são tão irracionais assim, porque são fruto da acumulação da experiência religiosa ao longo de séculos, e até milénios. Aquilo que não se pode dizer através da linguagem humana é expresso em símbolos, ou seja, em dogmas.

    Sobre os dogmas falarei noutro postal.

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    Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 11 Maio 2011 @ 10:28 pm | Responder

  6. Esse capitulo de Voegelin sobre S. Tomás de Aquino, de onde retirei o trecho, é fantástico e sempre o releio. Nunca tive contato direto com a filosofa de Tomás, no futuro me organizarei para ler com calma.

    Sobre dogmas, o Social Pathologist no post “Os fundamentos do conservadorismo”, observa que o conhecimento “não-cientifico” traz consigo valores, morais, dogmas e afirmações que o ateísta rejeita. O cientificismo no fundo é uma válvula de escape, uma desculpa para rejeitar determinada moral. O outro problema da abordagem cientificista, é que ela o separa do resto da humanidade histórica, uma vez que em maior parte do tempo e nas grandes civilizações sempre existiu um tipo de cosmovisão onde há a idéia do transcendente ou divino.

    No mesmo texto, o Social Pathologist, fala que a ciência é um conhecimento construído praticamente a posteriori, por isso ela não fornece objetivos. A ciência pode explicar por que um carro “roda”, e como ele funciona, mas não pode lhe dizer quando você deve comprar um carro e por quê. Em outras palavras os seres humanos precisam de imperativos e objetivos para se relacionarem. Nas grandes civilizações esse objetivos vem “de cima”.

    A pseudo-ciências sociais(e algumas humanas) são literalmente uma tentativa cientificista de interpretar os imperativos humanos, mas a maioria delas cai em pseudo-ciência e teleologia(especulações sobre o futuro). Um exemplo clássico é a psicologia evolucionária. Contudo, a posse de um futuro certo e cognoscível significa uma realidade presente limitada a teoria social, elas, por mais que não queiram apologizam o totalitarismo, pois só no totalitarismo, um regime de ferro e fogo os gnósticos poderia ter o controle total da humanidade.

    O marxismo é outro caso, mais do que clássico, dessa tentativa gnóstica de tornar cognoscivel aquilo que é incognoscível.

    A odisséia da cosmovisão marxista foi bem ilustrada na versão alternativa do Superman, o quadrinho The Red Son(O filho vermelho).

    Nessa história alternativa, a nave espacial que trouxe o Superman, não cai nos Estados Unidos, mas sim nas fazendas coletivas da Ucrânia nos tempos da URSS de Stálin. O superman é criado dentro da ideologia comunista e se torna um super-herói socialista com a foice e o martelo no lugar do “S”.

    No desenrolar da história, chega na terra o robô alienigena “Brainiac” já bem conhecido nas histórias de Superman, a característica principal de Brainiac é que ele ao chegar num determinado planeta, rouba todo o conhecimento do lugar e depois o destroi. O lema de Brainiac é: “Quanto mais raro o conhecimento, mais valioso ele se torna”, por isso ele destrói os planetas após obter o conhecimento. Não sei se era a intenção dos criadores do Superman, mas notem que Brainiac representa o Pathos Gnóstico, a idéia de que o conhecimento torna alguém especial e iluminado.

    Superman derrota Brainiac, e o reprograma para trabalhar a serviço do socialismo. Dessa forma com a suprema força aliada a suprema inteligência, já não existe mais obstáculos para a realização da utopia socialista. O único país que oferece resistência é o Estados Unidos sob a liderança de Lex Luthor. Nos demais lugares do Globo, dominados pela URSS de Superman, a humanidade se mecanizou-se, não existem acidentes de trânsito, alcoolismo, todos tem 8 horas de sono, trabalho e estudos bem fixados.

    O controle do futuro é total, nem sequer chove sem que antes Brainiac certifique-se que todos tem Guarda-chuva.

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    Comentar por shâmtia ayômide — Quinta-feira, 12 Maio 2011 @ 12:05 am | Responder


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