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Quinta-feira, 5 Maio 2011

A ética de Kant e a política portuguesa

Filed under: ética,cultura,filosofia,Política,Portugal — orlando braga @ 8:49 am
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É conhecido o princípio kantiano do imperativo categórico : “age apenas de acordo com uma máxima tal, que possas querer que ela se torne, simultaneamente, uma lei universal”. O imperativo categórico de Kant corresponde, grosso modo, ao princípio popular que diz que “não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti” (trata a ética pela negativa).

Por exemplo, segundo Kant, não é permitido mentir, porque a mentira entendida como uma lei geral — a norma segundo a qual todos podem mentir — significaria o fim de qualquer comunicação humana. Se o meu comportamento se orientasse por uma norma que permitisse mentir sempre que se quisesse, então todos os outros seres humanos teriam o mesmo direito de o fazer.

Porém, se todos podem mentir, não se acredita em ninguém e nenhum mentiroso alcança o seu objectivo. Penso que é por esta razão que a política portuguesa tem falhado rotundamente: a mentira instalou-se como norma geral na política portuguesa, e de tal forma que nenhum político mentiroso — que são a maioria dos políticos — já consegue alcançar o seu objectivo: o de enganar os outros. Instalou-se o cepticismo, o cinismo, a descrença; deixou de existir comunicação humana.

É verdade que, aplicada consequentemente a todos os seres humanos, a norma da mentira permitida, anula-se a si mesma. O problema é que o imperativo categórico de Kant abre aqui uma brecha ética que não tem remédio: eu não sou inconsequente se prefiro que os outros seres humanos sigam regras que eu próprio não gostaria de seguir — ou seja: se eu minto sempre que me apetece, mas ao mesmo tempo desejo que todos os outros digam sempre a verdade, em certa medida sou um oportunista perfeitamente consequente com a aplicação do imperativo categórico.

A filosofia de Kant em geral, e a sua ética em particular, estiveram na base essencial do Iluminismo que deu origem ao mundo a que assistimos hoje. As tentativas de fundamentar os valores e as normas para o comportamento moral, sendo estes exclusivamente desejados pelo ser humano, resultaram ser deficitárias através da experiência — não são capazes de indicar ao indivíduo nenhuma razão cuja plausibilidade seja concludente em todas as situações possíveis, para que o interesse próprio não deva ter sempre a supremacia sobre tudo o resto. É o resultado da ética iluminista sem Deus.

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