perspectivas

Domingo, 1 Maio 2011

Chegamos a Deus pela razão, e não só pela fé (3)

Vimos no postal anterior que existe uma limitação finística do conhecimento. O Homem não consegue penetrar nas coisas particulares no sentido de as conhecer “por dentro”. O conhecimento científico é sempre feito na terceira pessoa, enquanto que o conhecimento pessoal — o conhecimento que é próprio do Eu — é um conhecimento directo. Não se quer dizer com isto que a ciência não tenha mérito; pelo contrário, a nossa experiência pessoal e subjectiva sabe e constata o facto de que a ciência assume uma enorme importância nas nossas vidas.

O conhecimento daquilo que é particular só é possível, em alguns casos e de forma incipiente, através da matemática que explora o território abstracto compreendido dentro da constante cosmológica da natureza (referida no postal anterior: 10^20), como Nicolau de Cusa tão bem exprimiu este conceito: “ (…) o número abrange todas as coisas que podem ser colocadas em uma relação proporcional entre si. Por conseguinte, o número não se encontra só na quantidade, mas também em tudo o que se pode distinguir na substância” (na Idade Média, dizia-se da “substância” que era aquilo que constituía o “lado interior” das coisas e do ser humano). E continua Nicolau de Cusa: “Portanto, a essência dos objectos, a qual constitui a verdade das coisas existentes, é inacessível na sua pureza”.

No caso do conhecimento acerca do ser humano, entendido individualmente e com a sua consciência e autoconsciência, o caso complica-se em uma proporção geométrica, e só é possível esse conhecimento do ser humano individual para além da dimensão da constante cosmológica da natureza — ou seja, só é possível esse conhecimento por parte de um ente que contenha em si o sujeito e o objecto: o Ser Englobante, que engloba o universo, e a que chamamos Deus. As operações lógicas que não podemos realizar, porque somos uma parte do universo, e por razão da limitação da teoria de conhecimento finística, podem ser realizadas a partir de uma posição da totalidade, ou seja, para além do espaço-tempo. Esse Ente que não está limitado nas suas operações lógicas, é Deus.


Uma característica daquilo que faz parte da Verdade, é a sua intemporalidade. Por exemplo, é uma verdade intemporal que o Homem (ou o cientista) não é o criador do mundo, mas apenas descobre a verdade física que lhe é imanente. O cientista não cria o mundo; apenas o descobre. Por exemplo, a lei da gravidade vale sempre, por princípio e embora sob uma forma adaptada, em qualquer lugar do universo — ou seja, a fórmula desta lei entrou para o rol das verdades intemporais conhecidas e descobertas pelo Homem. Outras verdades intemporais são, por exemplo, os axiomas da lógica: o princípio da identidade (A=A), o princípio da contradição, etc., que são a base da lógica-matemática. O teorema de Pitágoras era verdadeiro ainda o grego não existia; e será verdadeiro quando o nosso Sol implodir em um buraco-negro, e a vida na Terra já não for possível.

Tudo aquilo que pode ser descrito com precisão, pode ser transformado numa fórmula. Neste sentido, todas as coisas particulares do universo devem logicamente ter uma fórmula na intemporalidade, não obstante a existência dessas coisas particulares dentro do espaço-tempo. Quando um objecto, que existe no espaço-tempo, se decompõe (por acção do tempo), a sua fórmula individual permanece. O estado particular de um objecto existente no espaço-tempo, e em um determinado momento do tempo, faz parte da sua existência na fórmula intemporal individual desse objecto. A fórmula individual de um objecto existente no espaço-tempo é a sua verdade física expressa numa fórmula intemporal que acumula as várias fases da sua passagem pelo tempo — de tal forma que a substância e a evolução do referido objecto, dentro do espaço-tempo, estão completamente descritas nessa fórmula individual intemporal.


O problema da ciência contemporânea é que parece querer negar coisas tão simples, e tão basicamente lógicas que até o senso-comum as apreende, como as que são descritas nesta série de três postais. A ciência parece recusar a ideia de que ela trata apenas do mundo objectivo, e que lhe é impossível conhecer o “mundo em si”. À ciência, é lhe impossível conhecer a fórmula individual e intemporal dos objectos: trata-se de uma impossibilidade objectiva e logicamente dedutível. Entronca aqui o problema do evolucionismo, por um lado, e do determinismo físico e científico, por outro lado.

Se entendermos como evolução o processo segundo o qual o Ser Englobante se apresenta na dimensão do espaço-tempo, então, neste caso, a afirmação de que o espírito, a alma, a consciência, a autoconsciência, e a razão humana, são produtos da evolução, não representa qualquer problema lógico. Mas se a evolução for entendida no sentido de uma certa ciência coeva, ou seja, em termos de uma visão da matéria entendida exclusivamente a nível macroscópico — a denominada “visão materialista” —, então, a realidade da autoconsciência e do acesso lógico ao domínio das verdades intemporais e perenes, remete o quadro evolucionário para o escambal (como diz o irmão brasileiro). Não me canso de repetir esta frase de Eric Voegelin: “o evolucionismo (materialista) é um mito, porque é impossível explicar a mutação das formas”.

Mais grave ainda do que o evolucionismo materialista, é a presunção da neurobiologia moderna, representada no caso português pelo António Damásio, ao afirmar aquilo a que se convencionou chamar de “teoria da identidade”, que nada mais é do que a reformulação do epifenomenalismo de Thomas Huxley.

Karl Popper, com a inteligência que se lhe reconhece, desmontou a “teoria da identidade” em três penadas, através daquilo a que ele chamou de “pesadelo do determinismo físico”:

  • se as minhas ideias são produtos (ou efeitos) da química que se processa na minha cabeça, nem sequer é possível discutir a teoria da identidade — porque esta não pode ter qualquer pretensão de verdade, visto que, por exemplo, as provas apresentadas pelo idiota Damásio são igualmente química pura. E se alguém defende uma teoria contrária à do idiota Damásio, também tem razão — dado que a sua química apenas chegou a um resultado diferente.

O alvará de inteligência do António Damásio leva-nos directamente para o absurdo, porque nem ele, nem ninguém na nossa condição humana, poderá jamais explicar como é que os processos físicos objectivos se transformam em experiências subjectivas.

Parte I, Parte II.

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