perspectivas

Sábado, 30 Abril 2011

Chegamos a Deus pela razão, e não só pela fé (2)

A teoria de conhecimento finística

S Tomás de Aquino baseou a sua teoria do conhecimento em duas premissas fundamentais: a primeira, a de que o Homem abstrai-se do particular para poder conhecer, e a segunda, decorrente da primeira, a de que ao Homem é impossível conhecer a substância do particular. Na Idade Média, dizia-se da “substância” que era aquilo que constituía o “lado interior” das coisas e do ser humano.

Contudo, é verdade que o mundo é composto por coisas particulares; e é esta contradição entre a possibilidade do conhecimento humano em termos universais, por um lado, e a impossibilidade de conhecer absolutamente em modo particular, por outro lado, que caracteriza a condição humana.

A teoria de conhecimento finística teve a sua origem em Nicolau de Cusa (1401 – 1464) e no seu princípio da Douta Ignorância: “Não existe nada no universo que não goze de um determinado ser singular, que não se encontra em nenhum outro ser”. Nicolau de Cusa corrobora S. Tomás de Aquino: o universo é composto por coisas particulares, e cada ser humano é único e irrepetível. Esta é uma das razões por que sou contra o aborto; já lá iremos.

A contradição aparente entre o universal, por um lado, e o particular (ou nominal), por outro lado, traduz-se nesta frase de Nicolau de Cusa: “Se existisse uma linha infinita, ela seria uma recta, um triângulo, um círculo e uma esfera”. Ou seja, aquilo que para o ser humano são contradições, convergem para uma unidade lógica que escapa à nossa condição humana; e essa unidade lógica existe para além do espaço-tempo — ou seja, para além do limite do conhecimento humano possível, ainda que somente em teoria.


É hoje ponto assente que o nosso universo teve um início com o Big Bang. A discussão deste tema é estéril, porque os dados da astrofísica apontam claramente para esse facto.

A densidade média da matéria no universo foi calculada com base em medições da astrofísica: ela é da ordem de uma Partícula Elementar Longeva (protão, neutrão, electrão, etc.) por metro cúbico. Considerando a dimensão do universo, resulta daí um número total de cerca de 10^80 (1 seguido de 80 zeros) de partículas em todo o universo. Esta é a dimensão aproximada da matéria do universo, ou do universo macrocósmico.

Se multiplicarmos este número (10^80) pela idade do universo: 20 mil milhões de anos-luz = 10^40 (1 seguido de 40 zeros) períodos elementares (período elementar = período mínimo de estabilidade de partículas elementares longevas), obtém-se um número de 10^120 (1 seguido de 120 zeros). Este número (10^120) é uma constante cosmológica da natureza.

A constante cosmológica da natureza (10^120) significa que este número representa o limite superior lógico para o trabalho de cálculo de um computador cuja dimensão e idade seriam iguais às de todo o universo, que efectuasse cálculos ininterruptamente, desde o início da sua existência, e cujos elementos constitutivos fossem Partículas Elementares Longevas individuais.

Alfred Gierer, um biofísico alemão, escreve a propósito: “Do número máximo de operações realizáveis no cosmo, resulta como consequência para a teoria do conhecimento, o facto de o número de passos na análise de problemas também ser, por princípio, limitado — sejam eles passos mentais ou passos do processamento de informações através de computador. Sobretudo, é limitado, por princípio, o número das possibilidades que podem ser verificadas sucessivamente, uma a uma, para comprovar ou refutar a validade universal de uma afirmação.”

Constatamos, portanto — e na esteira de Nicolau de Cusa — a existência de um limite superior de passos analíticos que, em condições ideais, são possíveis no nosso universo e que são compatíveis com a física do cosmo.

Naturalmente que o número 10^120 é uma enormidade que quase se confunde com o infinito; mas não é o infinito. Para que tenhamos uma ideia do que é o número 10^120, basta dizer que o número 10^50 — que é inferior àquele — é já considerado como uma impossibilidade matemática. Porém, convém dizer que nem o nosso universo é infinito, e nem podemos dizer que o infinito não existe — porque o infinito é aquilo que está para além da constante cosmológica da natureza de 10^120 — e disto falaremos no próximo postal; o que interessou mostrar neste postal foi a ideia de que a possibilidade de conhecimento humano — que inclui a possibilidade de progresso da ciência, mesmo que considerada em condições maximizadas, ideais e plenipotenciárias — é e será sempre limitada.


Parte I

2 comentários »

  1. […] no postal anterior que existe uma limitação finística do conhecimento. O Homem não consegue penetrar nas coisas […]

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    Pingback por Chegamos a Deus pela razão, e não só pela fé (3) « perspectivas — Domingo, 1 Maio 2011 @ 9:30 am | Responder

  2. […] Os neurónios estão ligados entre si através (de cerca) de 10^15 (1 seguido de 15 zeros) pontos de transmissão, a que chamamos de “sinapses”. Seriam precisos mais de 30 milhões de anos, se quiséssemos registá-las à velocidade de uma sinapse por segundo. E mais: se quiséssemos testar os estados possíveis de apenas 130 neurónios, necessitaríamos de um computador gigante que, para tal efeito, precisaria de 20 mil milhões de anos!!! E se quiséssemos testar todos os neurónios do cérebro humano, o número de operações necessário perder-se-ia no infinito que não existe na condição finita do nosso universo — ou seja, ultrapassaria o limite da constante cosmológica da natureza de 10^120 de que falei noutro postal. […]

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    Pingback por A burrice dos neo-ateístas « perspectivas — Quarta-feira, 4 Maio 2011 @ 2:19 pm | Responder


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