perspectivas

Sexta-feira, 22 Abril 2011

Ainda sobre Amit Goswami e Mestre Eckhart

No seguimento deste postal, penso que é conveniente adicionar-lhe algumas ideias.

  • O conceito católico de Trindade é racional, à luz de uma visão da realidade que inclua em si a mundividência quântica. Ou seja, discordo de Alberto Magno (1193 — 1280 a. D.) quando este diz que a filosofia e a teologia terão que estar necessariamente separadas — Alberto Magno foi o primeiro escolástico a fazer esta separação entre filosofia e teologia.

    O conceito católico de Trindade teve a sua origem no neoplatonismo, de Plotino e dos outros, e na ideia de criação universal por emanação. O Verbo (o Filho) e o Espírito Santo emanaram do Pai (Causa Prima ou Deus). A diferença é que a Igreja Católica retirou, do conceito de emanação, a característica imanente própria do neoplatonismo, introduzindo a transcendência que herdou do Judaísmo (do pós-exílio). A filosofia grega, salvo excepções, desconhecia a transcendência, e mesmo o conceito de “alma humana” não era, entre os gregos pré-socráticos (salvo excepções), muito diferente do conceito de “alma” de um outro animal qualquer.

    A física quântica demonstrou, através da sua revelação do microcosmos, que a imanência em relação à realidade macrocósmica não é apenas especulação filosófica, mas antes constitui-se como uma das estruturas da realidade. E demonstrou também que existe um caminho logicamente dedutível que aponta para a transcendência como uma outra estrutura da realidade, ou seja, a transcendência pode ser experimentada como uma realidade racional por via da verificação da própria imanência.

    Portanto, conceber, hoje, a imanência e a transcendência deixou de ser uma mera questão de fé. Trata-se já de seguir a lógica que decorre da experiência; já não é pura dedução ou especulação, mas é já indução deduzida.

    Quando Santo Agostinho dizia que “a teologia é a fé que vai em busca da razão e do intelecto”, ele não tinha, no seu tempo, os elementos da experiência que lhe permitisse dizer que a imanência se verifica experimentalmente como uma das estruturas da realidade, por um lado, e que a própria imanência demonstrada e demonstrável aponta para a transcendência por via não só da dedução, mas também de uma indução deduzida — por outro lado.

    Neste sentido, podemos dizer hoje, também, que “a teologia é a razão e o intelecto que vão em busca da fé” — e neste sentido, a teologia pode coincidir com a filosofia, ao contrário do que afirmou Alberto Magno —, embora os factos já demonstrados, por si mesmos, não signifiquem que a fé possa necessariamente existir: podemos estar em face de todos os factos e de todas as demonstrações possíveis e imaginadas, e mesmo assim (e como sempre aconteceu, de certa forma) reduzirmos, perante eles, as nossas conclusões ao egocentrismo do estritamente útil e considerado necessário.


  • Quando se diz que Deus “observa” a realidade universal (imanente e/ou quântica, por um lado, e macrocósmica ou material, por outro lado) e que, com a acção de “observação”, por parte da Sua consciência, transforma as ondas de probabilidades em acontecimentos à escala universal, o conceito católico de Trindade assume aqui uma função essencial. O Padre Orígenes (185 – 255 a. D.) escreveu (mais ou menos isto) que «o Verbo “olha” constantemente para o Pai, e através dessa constância se mantém o universo»; o Verbo assume aqui, segundo Orígenes, uma função de intermediação entre o Pai e o universo das criaturas.

    Esta conclusão de Orígenes advém do conceito neoplatónico de emanação. Porém, do ponto de vista racional, e perante os dados objectivos e demonstrados de que dispomos hoje, esta ideia de Orígenes faz todo o sentido.

    O físico francês e filósofo quântico Roland Omnès, chamou à transcendência, “O Abismo”; com este substantivo adjectivado, o cientista reconhece, por indução deduzida, a existência de uma estrutura da realidade insondável em termos da verificação experimental humana, que está para além da imanência da realidade quântica. Muitos outros cientistas se referiram a essa realidade transcendente, constatada através de uma indução deduzida, embora em terminologia diferenciada.

    Em termos filosóficos — e portanto neste caso concreto, em termos teológicos — podemos dizer que a Causa Prima (Deus) actua na realidade imanente e/ou macrocósmica por via do Verbo que com Ele partilha a transcendência, e podemos deduzir a realidade do Espírito Santo como sendo o meio da acção do Verbo na realidade imanente e /ou quântica, por um lado, e na realidade macroscópica da nossa percepção sensível, por outro lado (a “observação” das ondas de probabilidades da realidade imanente que gera os acontecimentos na realidade material). Ou seja: Deus não está ausente, mas está presente através do Verbo (o Filho) e por via do Espírito Santo.

Anúncios

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: